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Membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana protestam no Cairo, em outubro de 2013.
Membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana protestam no Cairo, em outubro de 2013.| Foto: Hamada Elrasam/Voice of America

No artigo da semana passada, vimos exemplos de viés anti-israelense e islamófilo da imprensa. Dentre eles, uma coluna de Fernando de Barros e Silva na Folha de S.Paulo, na qual se afirmava o caráter majoritariamente moderado da Irmandade Muçulmana, e uma matéria de O Globo, informando que, no presente, essa organização tornara-se laica. Ao fim do texto, escrevi que “nossos formadores de opinião reproduzem, inseguros, tudo o que leem na grande imprensa internacional”, que, por sua vez, “é pautada por facções intelectuais que convém conhecer”.

Acerca do caráter moderado, laico e democrático da Irmandade Muçulmana, em particular, a origem dessa narrativa não é difícil traçar. Nossos replicadores colheram-na nos grandes jornais norte-americanos e europeus, tais como New York Times e The Guardian. Estes, por sua vez, colheram-na prontinha num artigo publicado em 2007 na Foreign Affairs, revista oficial do Council of Foreign Relations (CFR), o mais poderoso think tank globalista. Que, a propósito, o leitor da Gazeta esteja ciente: hoje, boa parte das ideias hegemônicas em circulação no mercado mundial de opiniões públicas nasce do CFR.

No contexto do projeto globalista, é sempre bem-vindo qualquer enfraquecimento da posição geopolítica americana e israelense

Intitulado The Moderate Muslim Brotherhood, e coautorado por Robert S. Leiken e Steven Brooke, afirmava que a organização islâmica abandonara definitivamente o seu passado fundamentalista e que, não sendo mais um bloco monolítico, estaria plenamente capacitada ao diálogo e cooperação com o Ocidente. Nas palavras dos autores: “A Irmandade é uma coleção de grupos nacionais com diferentes características, e as várias facções discordam sobre a melhor maneira de conduzir sua missão. Mas todas rejeitam a jihad global, ao mesmo tempo em que encampam as eleições e outros elementos da democracia”.

Tratava-se de uma curiosa tentativa de tornar mainstream a Irmandade Muçulmana, sobretudo se lembrarmos que, no mesmo ano da publicação do artigo, o então líder da organização islâmica, Mohammed Akef, fizera comentários nada pacíficos sobre o conflito entre Israel e o Hezbollah no Líbano. Akef foi não apenas um dos primeiros líderes no Oriente Médio a congratular o grupo terrorista por ter violado as fronteiras e capturado dois soldados israelenses, como também se dispôs a oferecer 10 mil jihadistas para auxiliar na luta contra as forças israelenses. Quando as demais lideranças árabes não seguiram sua proposta, ele declarou (de maneira muito moderada, como se pode notar): “Se não fossem muçulmanos, já os teríamos matado, porque são uma maior ameaça à nação do que Israel”.

Mas não é difícil compreender por que o CFR queira dourar a pílula de uma organização como a Irmandade Muçulmana, uma vez que, no contexto do projeto globalista, é sempre bem-vindo qualquer enfraquecimento da posição geopolítica americana e israelense, sendo EUA e Israel as duas maiores, se não únicas, nações soberanas do bloco ocidental. Ocorre que, para emplacar essa narrativa, o think tank teve de se empenhar numa vasta campanha de desinformação e propaganda, porque nada na história da Irmandade Muçulmana sugere uma postura moderada e uma disposição para o diálogo. Recorde-se, antes de tudo, que Mustafa Mashhur, principal líder da Irmandade no Egito entre 1996 e 2002, é autor de A Jihad é o caminho, obra na qual se explicita o programa básico da organização, que inclui itens como a criação de um Estado islâmico, a dominação mundial pelo Islã, a necessidade da jihad contra os infiéis (rótulo que não inclui apenas Israel, mas o Ocidente como um todo), e a importância de não desistir até que um califado universal seja imposto.

A Irmandade Muçulmana (cujo lema é “Alá é o nosso objetivo. O profeta é nosso líder. O Corão é nossa lei. A Jihad é nosso método. Morrer em nome de Alá é nossa maior esperança”) surge em 1928, idealizada por Hassan al-Banna, jovem professor de 22 anos de idade, simpatizante do nazismo. A organização nasce como movimento revivalista islâmico, na esteira da queda do Império Otomano e da consequente extinção do califado como sistema de governo que unificara os muçulmanos ao longo de quatro séculos. Al-Banna baseou sua visão do Islã como um modo total de vida – mais do que simplesmente uma orientação religiosa – no antigo wahabismo, uma tradição de interpretação fundamentalista do Corão, surgida no século 18 pelas mãos de Mohammad Ibn Abdul al-Wahhab. Segundo essa vertente, qualquer ensinamento acrescido ao Islã após o século 10.º era considerado falso. Os wahabistas vislumbravam um império islâmico liderado por homens santos, guiados exclusivamente pela pura lei islâmica (shari’a). Por esse motivo, passaram a ser chamados de “fundamentalistas islâmicos”, constituindo o protótipo do que hoje se entende por essa expressão.

Desde o início, o wahabismo justificava o uso da violência contra elementos não islâmicos no mundo árabe. Na década de 1920, a Muttawa, polícia religiosa do movimento, promoveu o terror em cidades sauditas. Igrejas, sinagogas e quaisquer locais não islâmicos de culto foram incendiados e, mais tarde, proibidos. A partir de então, o wahabismo foi se radicalizando cada vez mais. Naquele período, a Arábia Saudita acabara de descobrir suas principais reservas de petróleo e começou a fazer negócios com o mundo não islâmico, sobretudo com os EUA. Essa situação provocou a revolta dos wahabistas, logo reprimida com violência pelo governo saudita, o que fez com que vários militantes do movimento fugissem para outras regiões, especialmente o Egito.

Ali, o wahabismo reestruturou-se sob o guarda-chuva da Irmandade Muçulmana. Graças à atuação de líderes como Amin al-Husseini (“o grande mufti de Jerusalém”), a organização espalhou-se para outras partes do mundo islâmico, notadamente a Palestina, vindo a tornar-se a principal fomentadora de grupos terroristas como o Hamas e a Jihad Islâmica. Como mostrei em artigo anterior, Husseini foi um aliado de Hitler na Segunda Guerra, o grande responsável por importar para o Oriente Médio o modus operandi nazista, tendo, inclusive, organizado tropas nazi-islâmicas (segundo ele, “a nata do Islã”) e participado ativamente do extermínio de judeus. Yasser Arafat, aos 17 anos, entrou na Irmandade Muçulmana sob a sua tutela.

O criador da Irmandade Muçulmana baseou sua visão do Islã como um modo total de vida no antigo wahabismo, uma tradição de interpretação fundamentalista do Corão

Mas a grande figura da Irmandade Muçulmana é, inegavelmente, Sayyid Qutb (1906-1966), brilhante pensador egípcio e principal mentor intelectual da moderna jihad. Qutb exerceu forte influência espiritual e intelectual sobre líderes terroristas como Ayman al-Zawahiri e Osama bin Laden. E quem quer que conheça minimamente o seu pensamento há de encarar com ceticismo qualquer sugestão de moderação ou laicidade da organização islâmica. Falaremos mais sobre isso no próximo artigo.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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