Prédio do NYT| Foto: Wikimedia Commons
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“Fico surpreso em ver jornalista defendendo censura” (Jorge Pontual, jornalista de um grupo de comunicação hoje especializado justamente em defender censura)

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A campanha eleitoral de 2020 marca o colapso definitivo da democracia na América – aquela mesma que, tendo começado no processo de independência, já estava plenamente consolidada nos anos 30 do século 19, segundo o estudo clássico de Tocqueville. Ao contrário do que já fiz em colunas anteriores (ver, por exemplo, essa e essa outra), não falo agora da alta probabilidade de Joe Biden ter sido eleito num pleito fraudulento. Falo do comportamento indecente da maioria da imprensa americana (cujo modus operandi é bovinamente reproduzido em nossas redações), que, à época, coordenou junto com as Big Techs um amplo esforço para suprimir do noticiário qualquer fato prejudicial ao candidato Democrata.

Uma das notícias escondidas ou atenuadas foi o vazamento do conteúdo de um laptop de Hunter Biden, que, entre outros materiais comprometedores (como fotos mostrando consumo de drogas pesadas), sugeria que o filho de Joe Biden praticara tráfico de influências, chegando a apresentar o pai – na época, vice-presidente dos EUA – a um consultor da Burisma, empresa ucraniana de energia para a qual Hunter trabalhava. Coincidentemente, menos de um ano depois do encontro, Joe Biden pressionava autoridades ucranianas para demitir um promotor responsável por investigar a empresa, então acusada de corrupção.

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O material vazado do laptop de Hunter Biden – que havia sido esquecido por ele numa loja de reparos em Delaware, em abril de 2019 – foi apresentado pela primeira vez ao público em 14 de outubro de 2020, em reportagem exclusiva do New York Post, o jornal mais antigo dos EUA. Houve, então, uma reação espantosa do “consórcio” entre a grande imprensa e as Big Techs, que armaram uma das maiores campanhas de desinformação da história eleitoral americana.

Em lugar de repercutir a notícia e aprofundar a investigação, veículos como New York Times, CNN, NBC News, PBS, Huffington Post et caterva trataram de estigmatizar a reportagem como “fake news” a serviço de Donald Trump, e, mais especificamente, como “desinformação russa” – uma tese plantada por Natasha Bertrand, jornalista (à época do portal Politico, hoje da CNN) que atua como uma espécie de porta-voz informal da CIA. Desinformando intencionalmente, Bertrand inverteu o sentido de uma carta publicada por ex-agentes de inteligência, na qual se afirmava uma mera incerteza sobre a veracidade do conteúdo do laptop e uma falta de evidências sobre qualquer envolvimento russo.

Mas isso não importava. Sem um mínimo de comprometimento com o básico da prática jornalística, o “consórcio” midiático pró-Democrata tomou a fake news sobre “desinformação russa” como verdade consagrada, e pôs em marcha uma campanha de destruição da reputação do velho jornal nova-iorquino, fundado em 1801 pelo Founding Father Alexander Hamilton. Nesse contexto, as Big Techs perpetraram o caso mais grave de censura pré-eleitoral da história da política americana. O Twitter bloqueou a conta do New York Post, exigindo que o jornal deletasse qualquer referência à reportagem. A rede social também censurou toda e qualquer postagem feita por usuários acerca do caso. Os internautas não conseguiam sequer linkar a reportagem em conversas privadas no chat da rede social. Por meio de seu porta-voz Andy Stone, o Facebook anunciou que manipularia os algoritmos a fim de suprimir as discussões sobre a matéria, impedindo também a sua difusão com o acréscimo do famigerado selo do atual Ministério da Verdade: “esse conteúdo foi considerado desinformativo por nossa equipe independente de checagem de fatos”. Um editor do New York Post registrou o momento negativamente histórico: “Isso é um golpe de estado informacional das Big Techs. É uma guerra civil digital. Eu, na qualidade de editor de um dos maiores jornais em circulação, não posso postar uma de nossas reportagens detalhando a corrupção de um dos candidatos presidenciais em disputa”.

Fiel ao “consórcio” – que já podemos qualificar como em prol da mentira –, a imprensa brasileira, por óbvio, apenas reproduziu os ataques ao jornal, então chamado pejorativamente de “tablóide”. Em 19 de outubro, o jornal O Globo lançava dúvidas sobre a credibilidade da matéria, sugerindo que o tablóide enfrentara resistência até mesmo de seus próprios jornalistas. “Apesar de ter sido posta em xeque por praticamente todos os grandes veículos de imprensa dos EUA e ter sofrido restrições em redes sociais, o jornal reafirmou sua veracidade” – dizia a matéria do jornal carioca. Que ousadia a de contrariar a maioria dos veículos de imprensa e desobedecer aos mandamentos das Big Techs, não é mesmo?

Mas, se a reportagem ainda tentava disfarçar (posto que muito mal) sua adesão ao esforço de blindagem a Joe Biden, o jornalismo de opinião não se fez de rogado, e defendeu abertamente, sem sinal algum de rubor nas faces, a censura contra o New York Post. Foi o que fez o colunista Pedro Doria em artigo do dia 15/10/2020, no qual descrevia como “coragem” a atitude indecorosamente antidemocrática das Big Techs. “O que Facebook e Twitter fizeram quarta-feira, nos Estados Unidos, é histórico. Cercadas por críticas justas relacionadas a suas condutas em inúmeras eleições — incluindo as que levaram à presidência Donald Trump, em 2016 —, as duas plataformas agiram com incrível coragem numa decisão particularmente difícil” – opinava o colunista, apenas para concluir: “Do ponto de vista jornalístico, porém, uma decisão indubitavelmente correta. Uma decisão que também levanta o debate a respeito da fronteira entre imprensa e redes sociais”.

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Eis que, como sempre, o tempo passa e a verdade recalcada ressurge. Mas, repetindo o seu comportamento de outros episódios – como o do negacionismo em face da hipótese de origem laboratorial do Sars-CoV-2 –, a imprensa agora tenta fingir que não disse o que disse e não fez o que fez (será que Pedro Doria mostrará a mão amarela?), admitindo a verdade de modo sub-reptício, sem assumir os erros e se desculpar com quem acusou levianamente de praticar “desinformação”. É o que faz o New York Times só agora, em 2022, com o seu candidato de preferência já devidamente instalado na Casa Branca. No meio de uma longa reportagem detalhando o andamento das investigações contra Hunter Biden, e quase a contragosto, lá no 24º parágrafo, o jornal insere discretamente a informação outrora proscrita: “Esses e-mails foram obtidos pelo Times de um cache de arquivos que parecem advir de um laptop abandonado pelo Sr. Biden numa loja de reparos em Delaware. Os e-mails foram autenticados por pessoas informadas da investigação”.

Apesar de longa, a matéria do NYT – que, mais uma vez, passa aquele pano todo especial nos negócios da família Biden – não diz nada de excepcional sobre o caso. Mas diz muito sobre o próprio NYT e sobre a imprensa autoproclamada “profissional” como um todo – sempre lembrando que essa imprensa “profissional” já teve por totem um sujeito como Walter Duranty, então celebrado colunista do Times e agente de propaganda stalinista, cujo prêmio Pulitzer de 1932 jamais foi revogado.

Foram precisos 17 meses, e uma eleição de todo aberrante, para que o leitor do Times tivesse conhecimento de uma ínfima fração do que o leitor do Post já sabia. E isso fez toda a diferença. Desconsiderando momentaneamente o impacto das fraudes eleitorais, o fato é que a vasta campanha de propaganda, desinformação e censura coordenada conjuntamente pelo Partido Democrata, a grande imprensa e as Big Techs influenciou decisivamente o resultado do pleito.

Foram precisos 17 meses, e uma eleição de todo aberrante, para que o leitor do Times tivesse conhecimento de uma ínfima fração do que o leitor do Post já sabia. E isso fez toda a diferença

Uma pesquisa do Media Research Center, envolvendo 1.750 eleitores em sete dos chamados swing States, sugere que um em cada 6 eleitores do Biden (17%) não teriam votado no Democrata caso soubessem de alguns dos fatos que a imprensa se recusou a noticiar em desfavor do seu candidato. Os dados mostram entre outras coisas que, na época da votação, 45,1% dos eleitores de Joe Biden não tinham conhecimento dos escândalos financeiros de Hunter, e de como os negócios do filho foram costurados sob a política externa conduzida pelo pai à época em que era vice-presidente. Se, devidamente informados por uma imprensa digna de sua função, parte desse eleitorado tivesse mudado o voto para Trump, a América e o mundo poderiam estar em situação bem distinta hoje em dia. Talvez, quiçá, em paz. Mas o serviço de inteligência e propaganda do Partido Democrata – outrora conhecido pelo nome de “imprensa” – tinha outros planos. E o resto é história.

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