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“Sempre presuma macumba.” (Brasileirinhos, 2019)
O paranoico e o coincidentalista são irmãos que se detestam. Ambos descobriram um modo confortável de não pensar a sério sobre as coincidências. O primeiro converte-as de imediato em conspiração: três fatos se parecem, dois personagens se conhecem, o mesmo símbolo surge em lugares distintos, e logo se materializa uma mão invisível a coordenar tudo desde alguma sala secreta. É um vício tão antigo quanto a política, e consiste na incapacidade de admitir que a história também se faz de contingências, afinidades espontâneas e efeitos que ninguém planejou.
Faça-se, contudo, justiça ao paranoico. Ele exagera, generaliza, vê um maestro onde há apenas um coro desafinado, mas erra na direção do real. Conspirações existem, e a crônica política está repleta delas. Muitas, enquanto eram urdidas, pareceram puro delírio a quem não estava a par dos detalhes. Os protocolos secretos do pacto Molotov-Ribbentrop, que dividiam a Europa Oriental entre Hitler e Stálin, foram negados por Moscou durante meio século, e quem os mencionasse passava por propagandista ou lunático. O paranoico, ao menos, sabe que os homens de poder realmente combinam coisas em salas fechadas.
O vício do coincidentalista é simétrico, menos realista e, por razões que mereceriam estudo, muito mais prestigiado entre gente instruída. Consiste em declarar tudo coincidência e dar o assunto por encerrado. Um fato é acaso. Dois também. Três, quatro, cinco continuam sendo acaso, e quem enxerga entre eles alguma regularidade já se avizinha perigosamente de um diagnóstico psiquiátrico. O professor Olavo de Carvalho chamava a isso de “teoria das puras coincidências”. Trata-se de um conspiracionismo de sinal trocado, cuja superstição não está em crer numa causalidade oculta e universal, mas na universal ausência de significado.
Ocorre que entre a conspiração e o acaso estende-se quase todo o território das ciências humanas. O antropólogo que encontra o mesmo símbolo em contextos diversos não imagina um comitê clandestino a distribuir instruções aos participantes. Tampouco dá de ombros e resmunga “mera coincidência”. Pergunta o que o símbolo significa, em que universo de representações se inscreve, que relações sociais organiza, que espécie de autoridade exprime. Aby Warburg passou a vida no encalço de imagens que atravessavam séculos. René Girard descobriu estruturas inteiras de comportamento porque homens que nunca se viram contavam o mesmo mito. A cultura é, em larga medida, aquilo que fazemos juntos sem que ninguém tenha convocado uma reunião para combinar.
Xangô está no gabinete de Alexandre de Moraes; está grande e bem visível, atrás de José Dirceu, numa entrevista recente gravada em sua casa; é cantado dentro do Palácio do Planalto, diante de Lula, Janja e membros do governo
E o símbolo tem uma virtude preciosa para quem observa: ele é indiscreto. O discurso político passa pelo crivo de assessores, marqueteiros e pesquisas qualitativas. O símbolo escapa pela porta dos fundos. Fica sobre uma estante, pendurado na parede, guardado num gabinete, e reaparece numa cerimônia, numa canção, num presente, no cenário doméstico escolhido para uma entrevista. Às vezes seu portador saberia explicar perfeitamente por que ele está ali. Outras vezes, talvez não. Em ambos os casos continua legítimo perguntar o que ele representa, e o que acontece quando passa a orbitar com insistência em torno do poder.
É com esse espírito, e não com o de um Dan Brown do cerrado, que proponho examinar uma curiosa recorrência simbólica na vida política nacional, notadamente na forma como alguns dos principais representantes do regime luloalexandrino gostam de se apresentar. Percebo que, apesar da súbita e oportunista conversão ao catolicismo por parte da Nomenklatura luloalexandrina, cujo intuito é, obviamente, explorar eleitoralmente os efeitos da notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida e a candidatura de Flávio Bolsonaro, a verdadeira religião da turma (ou, ao menos, aquela que a turma escolheu instrumentalizar) é o candomblé. E, dentro do panteão dos orixás, a figura proeminente é a de Xangô, frequentemente exibido nos discursos, gabinetes e cenários montados pelos atuais donos do poder no Brasil.
Recentemente, discerni a presença de Xangô junto a José Dirceu, o primeiro a anunciar o golpe de Estado jurídico contra Jair Bolsonaro antes ainda de sua vitória eleitoral, quando disse que o PT tomaria o poder, coisa diferente de apenas vencer uma eleição. E, antes disso, junto a Alexandre de Moraes, o executor do referido golpe, que impediu Bolsonaro de exercer o seu mandato ao longo do ciclo 2019-2022 e perseguiu implacavelmente o bolsonarismo no decorrer do regime, entre 2023 e os dias de hoje. Teria sido uma “pura coincidência”, mais uma vez, que o profeta do golpe antibolsonarista e o seu principal implementador escolhessem o mesmo símbolo religioso para se apresentarem politicamente em público? Talvez, talvez...
Mas, afinal, por que Xangô? Por que justamente Xangô no gabinete de Alexandre de Moraes? Por que Xangô, grande e bem visível, atrás de José Dirceu numa entrevista recente gravada em sua própria casa? Por que Xangô cantado dentro do Palácio do Planalto, diante de Lula, Janja e membros do governo, como “Orixá do poder”, “guardião das leis” e “Alafin justiceiro”? Por que a reiterada presença de Vitão, o babalorixá Benedito Vitor dos Santos, junto a juristocratas do regime, um personagem que a imprensa chegou a chamar de “pai de santo do STF”?
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Nenhum desses fatos, isolado, demonstra coisa alguma além de si mesmo. A sucessão deles, porém, produz algo que, se ainda não é prova de nada, suscita uma pergunta mais organizada. E perguntas são exatamente o que conspiracionistas e coincidentalistas têm igual interesse em suprimir. Os primeiros, por já conhecerem todas as respostas; os segundos, por terem decidido de antemão que nada há a responder.
A pergunta à qual me refiro não é propriamente sobre crença religiosa autêntica. Diz respeito, antes, ao poder e ao uso que seus detentores fazem de simbolismos religiosos. Xangô, convém lembrar, não é um orixá qualquer.
No antigo Império de Oyó, centro político e comercial da cultura iorubá pré-colonial, Ṣàngó era rei, e sua figura religiosa está historicamente ligada à soberania e à autoridade do Alafin (Aláàfin), o líder soberano. A literatura sobre o tema é abundante, mas podemos aqui ficar com um único exemplo pertinente. Em Black Critics and Kings: The Hermeneutics of Power in Yoruba Society, o antropólogo e historiador Andrew Apter mostra bem a imbricação entre ritual, culto de Ṣàngó e organização do poder em Oyó. Xangô não é uma personificação abstrata da Justiça. Ele é rei, autoridade, julgamento, força e castigo. Seu atributo não é a balança, mas o machado. Seu elemento não é a brisa, mas o raio. Que o leitor mantenha esses traços em mente ao prosseguir na leitura desta coluna. Recuemos, agora, cerca de um ano e meio.
Em abril de 2025, o jornalista Jon Lee Anderson visitou Alexandre de Moraes para o perfil que publicaria na revista The New Yorker. A certa altura, o ministro mostrou-lhe duas pequenas figuras de madeira que mantém no gabinete, Xangô e Exu, e ele mesmo forneceu a legenda: “law and order”. Lei e ordem. Anderson perguntou se Xangô não era também um deus da guerra. Moraes sorriu e encerrou o encontro.
Xangô não é uma personificação abstrata da Justiça. Ele é rei, autoridade, julgamento, força e castigo. Seu atributo não é a balança, mas o machado
A pequena cena vale por um tratado de iconologia política. Moraes não apontou para Têmis, vendada e de balança na mão, nem para Moisés recebendo dos céus uma Lei que não inventou. E muito menos para Jesus, a vítima paradigmática do poder injusto. O Careca do Master apontou para o rei-juiz, senhor do machado e do raio. E traduziu: lei e ordem.
Pois foi esse mesmo Xangô que reapareceu atrás de José Dirceu numa entrevista recente ao Iron Talks, o podcast do influenciador Felipe Sestaro. Diferentemente do padrão do programa, no qual as entrevistas são conduzidas em estúdio próprio, desta vez a conversa se deu na residência do entrevistado. Imagina-se, pois, que quem montou o cenário não foi a produção do podcast, mas o próprio Dirceu. E é nesse cenário que, em destaque, às costas do velho estrategista petista, aparece uma estatueta do orixá empunhando ostensivamente seu oxé, o famoso machado de dois gumes.
A imagem ganha ressonância peculiar quando recordamos uma das frases mais célebres de Dirceu na nossa história política recente. Em setembro de 2018, o mensaleiro anunciou ao El País: “É uma questão de tempo pra gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”. Mais tarde, tentou desconversar, alegando que tratava da hipótese de uma ruptura que impedisse a posse de um petista eleito. Pouco importa. O que sobra do episódio é a distinção bastante realista, apresentada com notável didatismo, entre duas coisas que as democracias liberais tendem a supor inseparáveis: a conquista de um cargo eletivo e o exercício efetivo do poder. E, por detrás do homem que separou doutrinariamente eleição e poder, lá estava Xangô, de machado em punho. Assim como estava no gabinete do homem que demonstrou a separação na prática, ao exercer, sem mandato, o seu poder voluntarioso contra a impotência do mandatário eleito.
O uso político e simbólico de Xangô também chegou ao Palácio do Planalto. A primeira-dama Janja, apesar de sua devoção de última hora a Nossa Senhora Aparecida, é reconhecidamente adepta das religiões de matriz africana e já publicou imagens e referências a práticas do candomblé e da umbanda. Se essa religiosidade é ou não autêntica, pouco importa. O importante é que, no início do terceiro mandato de Lula, mandato conquistado por meio do golpe de Estado jurídico anunciado por Dirceu e liderado por Moraes, ela foi politicamente ostentada.
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Em 11 de janeiro de 2023, nas cerimônias de posse de Anielle Franco e Sonia Guajajara, o Descondenado-em-chefe, sua mulher e outros integrantes do governo entraram no Palácio do Planalto ao som de um afoxé que cantava para Xangô. Uma tese de doutorado da Universidade de Brasília registrou a letra, na qual o orixá era saudado precisamente pelos atributos que nos interessam: “Orixá do poder”, “guardião das leis”, “Alafin justiceiro”. Poder, lei, realeza e justiça. Xangô cruzava simbolicamente a porta do terreiro e entrava no palácio sob seu título régio.
Comentando o episódio, a autora da tese supracitada, militante petista, chega a fornecer incidentalmente uma informação pouco conhecida do público: Xangô seria o orixá de Lula. Em suas palavras:
“Quem esteve presente disse que tudo parecia um filme: o dia nublado com chuva (um domínio de Iansã); o simbólico Palácio do Planalto em pé, mesmo com tantos estragos [após o 8 de janeiro]; um salão lotado de pessoas indígenas e negras; Mãe Dora de Oyá sentada ao lado da ex-presidenta Dilma Rousseff e dos ministros Silvio Almeida e Flávio Dino, entre outros; o Afoxé Ogum Pá cantando para Xangô, ‘coincidentemente’, Orixá de Lula. Tudo em uma quarta-feira, dia em que os Orixás citados são celebrados.”
O candomblé também esteve presente em outra cerimônia de posse, desta vez não no Planalto, mas no STF. Foi em setembro de 2018, quando Dias Toffoli assumiu a presidência da corte e fez questão de convidar o babalorixá Benedito Vitor dos Santos, mais conhecido como Vitão, a quem uma reportagem da IstoÉ batizou de “o pai de santo do STF”. De acordo com a matéria, Vitão conhecia Toffoli havia muitos anos e relatava relações com outros ministros. Sua primeira ida a Brasília deu-se quando Toffoli trabalhava na Casa Civil de José Dirceu. Sobre as visitas posteriores, contou: “Quando vou para Brasília, na surdina, vêm o Fachin, os outros... Eles querem saber como é. Eu dou as orientações, faço a energização”.
Em Xangô, a soberania, o julgamento e o castigo estão concentrados. Não espanta que uma corrente política fundada sobre uma concepção imanentista de autoridade encontre nele um símbolo eloquente
Esse conjunto de eventos ganha relevo quando projetado contra o pano de fundo da grande ruptura política dos últimos anos. O bolsonarismo introduziu na Nova República algo que suas elites culturais e institucionais não estavam habituadas a encontrar tão perto do centro do poder: uma linguagem religiosa ostensivamente cristã e, sobretudo, evangélica. Bolsonaro falava em Deus, pastores entraram no Planalto, multidões conservadoras passaram a empunhar a Bíblia ao lado da bandeira nacional, e, como todos se lembram, André Mendonça chegou ao Supremo anunciado pela promessa de um ministro “terrivelmente evangélico”.
Pois é precisamente Mendonça quem hoje se vê em sucessivos atritos com figuras centrais do regime luloalexandrino, no qual convergem, sem se confundirem, o governo Lula, o PT e uma parcela influente da corte, em especial Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino. Por óbvio, esses conflitos têm causas jurídicas e políticas específicas, e reduzi-los inteiramente à religião seria impreciso. Mas o fato é que a política moderna, como alertaram Voegelin, Gurian, Camus, Aron, Berdiaev, entre outros, nunca se esgota na sua forma secular oficial.
Há, sob a guerra jurídica, uma guerra de imaginários. Não se trata exatamente de uma oposição entre candomblé (ou umbanda) e cristianismo. É, como sugeri na coluna do dia 19 de setembro, de uma oposição mais antiga, que separa uma metafísica da imanência e uma metafísica da transcendência: a justiça identificada com a força que a executa e a Justiça situada acima de todo poder capaz de executá-la. Como mostrei naquela coluna, é a velha querela que opôs Cálicles e Sócrates no Górgias. No famoso diálogo platônico, Cálicles enxerga na superioridade do forte uma espécie de direito natural, enquanto Sócrates introduz no imaginário de seus contemporâneos uma possibilidade até então inconcebível: a de que o vencedor pudesse estar errado. Mesmo dispondo da Assembleia, do tribunal, dos guardas e do carrasco, o vencedor, dizia o velho Sócrates, pode continuar errado.
O cristianismo levou o escândalo socrático às últimas consequências. Roma condena Cristo. Roma tem o governador, a lei, os soldados, o chicote e a cruz, e materialmente não resta dúvida sobre quem venceu naquela tarde no Gólgota. No entanto, a Cruz introduz na história política uma ideia explosiva: o condenado pode vir a julgar os seus juízes. Daí a desdivinização cristã do poder temporal. César é César, não é Deus. O governante governa, o magistrado sentencia, o Estado pune, mas nenhum deles converte força em justiça pelo simples exercício da força. Existe um tribunal acima do tribunal. O juiz também será julgado. O poder temporal não é absoluto.
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É aqui que Xangô, destacado de sua cosmologia original e tomado unicamente como artefato simbólico de poder, oferece uma concepção alternativa. Ele é o soberano que julga, o juiz que empunha o machado, a justiça que desce como raio. Raio que, no Evangelho, serve justamente de imagem para a queda de Satanás (Lc 10,18: “Eu via Satanás cair do céu como um raio”), no contexto em que Jesus explica aos discípulos a origem transcendente, não imanente, de sua autoridade.
Em Xangô, a soberania, o julgamento e o castigo estão concentrados. Não espanta, pois, que uma corrente política fundada sobre uma concepção imanentista de autoridade encontre nele um símbolo eloquente. Talvez resida aí, justamente, a explicação para a recorrência xangoísta no ecossistema luloalexandrino. O traço distintivo desse arranjo de poder não é uma religião comum, que evidentemente não existe, mas certa teologia política involuntária: a tendência de instituições e autoridades a falar como se a legitimidade de seus poderes decorresse da missão histórica que, cinicamente ou não, atribuíram a si mesmas, como defender a democracia, proteger as instituições, combater a desinformação, salvar o Estado de Direito etc. Por óbvio, toda ordem política precisa defender-se, dentro do sistema de defesa previsto pelo contrato social. O problema começa quando os representantes da ordem passam a confundir-se com a própria ordem.
Nesse ponto, a simbólica torna-se irresistível. De um lado, o machado do rei-juiz, que reúne poder, lei, sentença e castigo numa só instância. Do outro, a Cruz do condenado, a lembrar que toda força deste mundo, inclusive a que veste toga e se exerce em nome da Justiça, permanece subordinada a uma Justiça que não criou e não controla.
Num dos gabinetes mais poderosos da República, Xangô empunha o seu machado. Sobre a mesa do ministro “terrivelmente evangélico”, uma Bíblia repousa em silêncio. Pode ser coincidência. Mas talvez a teoria das puras coincidências seja, entre todas as teorias políticas disponíveis no Brasil contemporâneo, justamente aquela que mais exige fé.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Flávio Gordon é doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor do best-seller “A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil” (Record, 2017), que possui mais de 35 mil exemplares vendidos. É também autor das obras “Ideologias de Massa e suas Metamorfoses” e “O Mínimo sobre Gnosticismo (Cedet, 2024)”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



