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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

Entre ditadores e o discurso de “democracia”

O calcanhar de Aquiles de Lula é a política internacional

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Lula e Nicolás Maduro durante encontro em São Vicente e Granadinas, em 2024. (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)

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Em nossos programas na Gazeta do Povo, como o Café com a Gazeta, sempre fazemos uma provocação dupla. A primeira é nos perguntarmos qual é o pior ministro do governo Lula 3. Ok, briga difícil, exige critérios delicados e precisão cirúrgica. Seria mais fácil eleger o ministro menos pior do governo Lula 3.

Ou melhor, não seria. Aí está um ponto em que o governo Lula 3 atingiu a máxima igualdade do socialismo democrático: são todos igualmente péssimos. Ou aparentemente igualmente, se nos é tolerada a terrível expressão. Todos são péssimos, mas alguns são mais péssimos do que os outros.

Embora, no frigir dos ovos, até Simone, Márcio França e Geraldo Alckmin (devemos lembrar que ainda é ministro do governo, embora talvez nem ele próprio se lembre) consigam o mesmo nível de ruindade de um Guilherme Boulos ou de um Silvio Almeida, de um Flávio Dino ou de uma Anielle Franco, de um Fernando Haddad ou de um Ricardo Lewandowski, de um Renan Filho ou de uma Gleisi Hoffmann, de um Jader Barbalho Filho ou de Jorge “Bessias”.

É mais do que Marx queria. O filósofo renano queria uma igualdade econômica no porrete. Aqui, a igualdade na ruindade atinge o nível ontológico

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É mais do que a existência, é a ruindade como tal, é a ruindade igualitária como devir histórico; é apenas a ruindade, toda a ruindade, e nada mais do que a ruindade, nada contra a ruindade.

Mas todos os ministros são ruins, e alguns são mais ruins do que outros, já alertava um certo porco. E aí chegamos à nossa segunda provocação.

Entre todos os ministros, alguém pode ser tentado a se perguntar quem é o ministro de Relações Exteriores do Brasil. Para pessoas um pouco versadas em política, talvez a resposta “Celso Amorim” venha de bate-pronto. No entanto, o verdadeiro nome atual é Mauro Vieira. Não que alguém se importe, claro: na prática, Celso Amorim, atualmente no cargo de assessor especial para assuntos internacionais da Presidência (cargo que fora de Filipe Martins na gestão Bolsonaro), continua sendo o grande nome da chancelaria brasileira.

Mas, independentemente de quem dá as cartas, a área internacional do governo Lula 3 é, sem sombra de dúvida, a área mais sensível e crítica do governo. Não por ser uma área na qual o governo erra mais — ele erra igual —, mas aqui ele não tem controle sobre a narrativa. Lembrando que “controle”, para o atual estado das coisas, vai além de meramente fazer campanhas para nos convencer com o nosso próprio dinheiro — quase sempre significa censura, medo, prisões, buscas e apreensões e inquéritos infinitos em processos que deixariam Kafka parecendo um escritor de obras infantis.

Simplesmente porque a única desculpa para Lula ter saído da cadeia e ser alçado à presidência é a logorreia de “democracia”, eternamente atribuindo a Bolsonaro um risco de ditadura militar — se Bolsonaro toma leite, se Bolsonaro recebe uma imposição de mãos, se Bolsonaro se aproxima de uma baleia, tudo isso foi considerado prova de que Bolsonaro daria um golpe de Estado e tornar-se-ia o novo Hitler (quando o 8 de janeiro tornou-se vandalismo, todo o sentimento da população já havia sido trabalhado por anos antes).

Logo, Lula pode fazer o governo péssimo que for: ele “respeita a democracia”, ele é amigo de Alexandre de Moraes, que é a própria Democracia Que Se Fez Carne e Habitou Entre Nós; ele quer regulamentar as redes sociais pela democracia; ele quer extraditar Carla Zambelli e Alexandre Ramagem pela democracia; ele prende Filipe Martins por uma viagem que não fez, uma minuta que não escreveu e uma busca no LinkedIn que a Microsoft negou, pela democracia.

Mas como fica isso no cenário internacional, sem que o STF decida quem está com a razão, sempre a favor do PT? Principalmente: como fica a verborragia de que tudo o que o PT (e o próprio STF) fazem é “pela democracia”, se em nenhum lugar do mundo aceitariam com facilidade um inquérito secreto infinito, com a mesma pessoa como investigadora, julgadora, suposta vítima e até condutora de oitivas e testemunha?

O governo Lula não é amigo simplesmente de democracia nenhuma pelo mundo. Talvez uma negociata com a França de Macron, num momento em que ninguém leva Macron a sério, seja um prêmio de consolação — mas Macron tampouco é um bom exemplo de manter amizades no mundo livre. De resto, os amigos de Lula são apenas Nicolás Maduro, o aiatolá Ali Khamenei, Mahmoud Ahmadinejad, Vladimir Putin, Xi Jinping, Mahmoud Abbas, eternas loas à ditadura cubana ou declarações que flertam perigosamente com o antissemitismo ao falar da Palestina. Isso além de ter o apoio explícito de Hamas, Hezbollah, FARC e outros grupos terroristas pelo mundo.

Só em um exemplo, no desfile do Dia da Vitória em Moscou (9 de maio de 2025), Lula estava entre toda a sorte dos maiores ditadores e psicopatas do mundo. Além de Maduro e Xi Jinping, Lula observava as tropas que massacravam ucranianos ao lado de Miguel Díaz-Canel, atual ditador de Cuba; Aleksander Lukashenko, da Bielorrússia; Abdel Fattah el-Sisi, do Egito; Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, da Guiné Equatorial; Min Aung Hlaing, de Mianmar; Emmerson Mnangagwa, do Zimbábue; Roberto Fico, da Eslováquia; Aleksandar Vučić, da Sérvia. Todos em um desfile militar que mostrava o poderio de Putin perante vidas ucranianas — e ocidentais.

Como alguém que frequenta um convescote com tipinhos deste jaez vai poder falar em democracia na frase seguinte?

Isto tudo depois de afirmar que Zelensky é tão responsável pela Guerra da Ucrânia quanto Putin, tendo recusado pedidos alemães de venda de munição para a Ucrânia. Lula afirmou que recepcionaria Putin no Brasil, mesmo com uma ordem de prisão contra o tirano russo enviada pelo Tribunal Penal Internacional.

Às vezes, os gringos demoram para acreditar que Lula é um aliado de Putin, embora você só precise de cinco minutos ao seu lado para perceber. O presidente afirmou que acabaria com a Guerra da Ucrânia com “uma cervejinha” antes de voltar ao cargo.

Um ano antes, Lula recepcionou Maduro, falando em uma “construção” com o ditador venezuelano, sofrendo críticas de Boric e Luis Lacalle Pou. Lula também se desgastou ao comparar Israel com Hitler em 2014, comparando a resposta de Israel ao grupo terrorista Hamas ao próprio horror sofrido pelos judeus — tendo apenas como desculpa não ter usado a palavra “holocausto”. Isto em uma viagem à Etiópia, outra ditadura apoiada pelo PT. Lula virou persona non grata em Israel.

Tudo isso, claro, com o entourage mais caro e brega do mundo. Basta lembrar como todos os chefes de Estado foram ao funeral do papa Francisco com elegância e silêncio, enquanto a comitiva brasileira, além de Lula e Janja, contava com Dilma, Barroso, Alcolumbre, Motta, Mauro Vieira, Lewandowski, Paulo Teixeira (ele é ministro do Desenvolvimento Agrário, senhor!!!!!), Macaé Evaristo, Celso Amorim, além de senadores e assessores (sic!).

Aqui, é fácil falar que Lula faz tudo em nome da democracia. Fora do Brasil, como se dá? Só o escândalo mais recente, a tentativa de extraditar Alexandre Ramagem, cometendo crimes graves para o Direito Internacional, mostra que o governo brasileiro pode até ficar repetindo a palavra “democracia” a cada três outras palavras. Na prática, além de uma ditadura chinfrim e de instituições bananeiras, tem se superado na cafonice para não restar dúvida até para quem não quer se interessar por política brasileira.

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