
Ouça este conteúdo
Qual é a palavra mais repetida por membros do STF em qualquer pronunciamento, seja sobre emendas parlamentares ou sobre a prisão de Daniel Vorcaro ou a de Filipe Martins? Democracia. Qual é a palavra que mais se fala em um deserto? Provavelmente, água.
Como adolescentes adoram se gabar de suas inexistentes aventuras com o sexo oposto, a mesma regra é válida para o STF, que aumenta o próprio poder de maneira ilegal, esbulha a Constituição e destrói as instituições todo santo dia.
Repetir palavras tem um efeito hipnótico – hipnose que o Velho Testamento já proibia e que virou o mote do Ministério do Reich para o Esclarecimento Público e Propaganda nas mãos de Joseph Goebbels: repetir demais faz com que as pessoas pensem mais na palavra do que no seu significado. Todo mundo tem medo de criticar algo chamado de “democrático” e passar a ser visto como “antidemocrático” – tal como qualquer crítica à imigração massiva que está islamizando a Europa tem de enfrentar a palavra “racismo”, antes de se perguntar se queremos que a Inglaterra ou a França tenham a sharia como lei.
Justamente essa repetição chatérrima da mesma palavra revela sua ausência. O que chama a atenção das pessoas no termo (muito mais do que no conteúdo) da palavra democracia seria a possibilidade de escolher seus dirigentes, uma certa liberdade política que permitiria que o povo não tratasse políticos e burocratas como deuses e uma separação entre poderes – para que, caso um deles passe dos limites, seja controlado por outro.
Os três elementos mereceram um tratamento curioso do STF nos últimos tempos.
A atuação STF/TSE nas eleições de 2022 começou pela posse comemorada de Alexandre de Moraes como presidente do TSE (primeira partida do mundo em que o juiz recebeu mais encômios do que um dos atacantes). Passou pela censura confessa nas eleições, envolveu criminalizar uma operação contra a compra de votos no dia do pleito, coroou com um “missão dada é missão cumprida” e ainda deu de bônus um “perdeu, mané! Não amola!” a quem perguntou sobre o código-fonte.
A liberdade política, então, está apenas nos livros de história. Depois dos “inquéritos” com buscas e apreensões e quebras de sigilo contra qualquer pessoa que não obedeça ao novo poder absoluto do STF, do crime de emoji, de tratar toda e qualquer conversa privada como conspiração armada para promover um golpe contra a democracia (sempre ela), depois do inquérito das fake news infinito (quem se lembra do inquérito dos atos antidemocráticos, cancelado pela PGR e retomado como inquérito das milícias digitais no mesmo dia 1.º de julho de 2021?), depois de os únicos grandes assuntos no Congresso envolverem a palavra “regulamentação” e de medidas para controlar a população (tudo, é claro, enquanto ficam horrorizados ao descrever a ditadura militar), enfim, depois de tudo isso, defender o tal Estado democrático de Direito e defender a liberdade quase sempre se tornam duas coisas antagônicas.
VEJA TAMBÉM:
A separação entre poderes… bom, essa nem a esquerda acredita que exista mais, é só para enganar trouxa em faculdade de Direito, então nem precisa ser refutada
Mas nada disso afeta os membros do STF, porque esse negócio de seguir “as quatro linhas” é papo de extremista de direita. O que realmente os afeta é a imagem. O que é curioso, porque a imagem do STF está péssima, mas sempre o rei é o último a saber que está nu.
Essa verbosidade e exibicionismo “democrático”, que já dão bom dia alegando que estão defendendo a democracia, são tão bregas quanto mentirosos e ditatoriais. Exigir um séquito de bajuladores lhe dando títulos de defesa da democracia a cada dois dias, simplesmente por calar os adversários políticos (como se juízes pudessem tê-los), é mais deselegante do que chinelo com meia, pochete e camisa desbotada. Mesmo que os manda-chuvas, pelo contrário, usem terno Armani. Pelo menos o tio da pochete tem autenticidade – o que os aplausos para os ditadores nunca terão.
Além de democracia, o que falta aos membros do STF é um belo senso do ridículo. A ditadura atual brasileira é cafona até não mais poder. É uma empáfia que acha que exala “notório saber” ao repetir sobre direitos LGBTQA+ (se esqueci uma letra, perdoem-me, ainda falo “GLS” e aceito dinheiro cash), o que qualquer feminista pernóstica de 16 anos sabe dizer. É aquele pseudo-refinamento brega de sempre se portar como autoridade em tudo, o que os faz parecer especialistas de Twitter. É um comportamento kitsch de se auto-referir como se fossem a própria democracia o tempo todo. E é aquela demonstração jeca de viver em jantares badalados com banqueiros, como se fossem adolescentes, mas só ter amigos ditadores fora do Brasil e que teriam problemas com a polícia dentro do Brasil – se não fossem, eles próprios, os donos da polícia.
Isto é típico de república das bananas das mais ridículas. Elas também têm juízes amigos de banqueiros prendendo seus adversários e falando em democracia a cada 4 anos. E o STF, que considera que Bolsonaro era um caipira incível, acaba se mostrando muito mais necessitado de “choque civilizatório” do que o bronco preferido do Brasil.








