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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

8 de janeiro

Quem começou a escangalhar as instituições: a direita ou o STF?

Toda ação tem consequências. Entender quem começou a corroer a democracia é essencial para contar corretamente a história do 8 de janeiro. (Foto: Joedson Alves/Agência Brasil)

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De acordo com Rosa Weber, no livro condenado à eternidade pelo próprio STF, o 8 de janeiro foi um “ataque criminoso perpetrado contra as sedes dos Três Poderes da República, na tentativa frustrada de subversão do regime democrático”.

Caso um ser humano peça, data maxima venia, à Sua Ex-Excelência Rosa Weber onde está a prova de que alguém queria destruir a democracia e instaurar uma ditadura, com sorte ouvirá silêncio como resposta. Mais provavelmente, sofrerá uma busca e apreensão, será investigado por “inquéritos” secretos e infinitos, dignos da Alemanha nazista, terá a Polícia Federal revirando sua vida sabe-se lá Deus como e “responderá” a acusações que deixarão Joseph K., o protagonista de O Processo, de Franz Kafka, morrendo de inveja.

Já de acordo com a Wikipedia, os “ataques, ou atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, também chamados de Intentona Bolsonarista, Festa da Selma ou simplesmente de 8 de Janeiro, foram uma série de atos de vandalismo, invasões e depredações do patrimônio público em Brasília, cometidos por uma multidão de bolsonaristas extremistas que invadiu edifícios do governo federal com o objetivo de instigar um golpe militar contra o governo eleito de Luiz Inácio Lula da Silva para restabelecer Jair Bolsonaro como presidente do Brasil” (sic).

A despeito da renca de adjetivos valorativos em uma enciclopédia, além de termos que ninguém usa (o que raios é “Festa da Selma”?!), é curiosa a ideia de que o 8 de janeiro foi um pedido de golpe militar, sendo que os militares apareceram para prender todo mundo

Em ambos os exemplos, fica destacada uma ordem curiosa na narrativa oficial: a democracia estava lá, pujante e deliciosa, quando, não mais do que de repente, “bolsonaristas extremistas” fizeram a “Intentona Bolsonarista” (note a quantidade de repetições do adjetivo em um mesmo parágrafo), querendo instigar um “golpe militar” para a “subversão do regime democrático”.

E isso porque estamos citando Rosa Weber e Wikipedia. Se fosse Alexandre de Moraes, as repetições seriam ainda mais chatas.

Ou seja, todo mundo estava acreditando no regime. O Brasil podia ter seus problemas, mas, se havia uma crença inabalável em 99% da população, era no STF, julgando a todos com técnica, perícia e imparcialidade e nunca se envolvendo em assuntos políticos, porque são os guardiões da Constituição e, por isso, nunca cometeriam crimes ou agiriam além dos rígidos limites constitucionais.

Todas as instâncias do edifício jurídico do país estavam funcionando, com a população morrendo de orgulho da condução dos processos constitucionais (e apenas os constitucionais!) ao STF, enquanto a condução das eleições é exemplar, com juízes ainda mais imparciais, sem vernizes político-partidários, e toda a população via com olhos excelentes os discretos, corretos e impolutos juízes do STF, que não devem nada a quem os indicou e fazem com que a população sinta que está num país em que a lei funciona e a democracia venceu.

Até que vieram os radicais bolsonaristas, não aceitando nada disso e querendo implantar uma ditadura em que a vontade de quem manda está acima da lei, com eleições de fachada, com perseguição aos oponentes políticos, com censura e inquéritos ilegais infinitos, não com base na lei, mas com base na posição política da vítima.

Para o tipo de história que estão querendo contar, a ordem dos fatos importa 200%. Botar para quebrar em um prédio público tem vilões e mocinhos bem distintos se falarmos de uma marcha da Juventude Hitlerista em Berlim ou dos Aliados dominando a mesma Berlim para apear os mesmos nazistas do poder. Importa aqui quem tem alguma legitimidade, que não é dada por lei nenhuma.

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A historieta contada dessa forma (e nem queira ler o artigo da Wikipedia sobre as eleições de 2022, que será fonte de 99,999% dos trabalhos escolares) ignora que foram as primeiras eleições do país feitas sob confessada censura, nas palavras de Carmen Lúcia, que censurou um documentário da Brasil Paralelo que ainda nem havia sido completado, apenas porque investigar quem tentou matar Bolsonaro iria tirar votos do Lula — logo, o TSE estava agindo a favor de um candidato e de um partido, abertamente.

A anedota sobre as eleições de 2022 será contada ignorando que o TSE fazia censura prévia de toda a campanha de Bolsonaro, proibindo-o de exibir imagens internacionais de Bolsonaro em sua campanha; proibiu associar Lula a ladrões; proibiu que se mostrasse que Lula foi campeão de votos em presídios; proibiu que se dissesse que Lula queria legalizar o aborto (e havia vídeos dizendo isso); proibiu que se mostrasse que Lula tem ligações com Maduro e Ortega; proibiu que Bolsonaro mostrasse imagens suas na ONU; proibiu que Bolsonaro mostrasse imagens suas no funeral da rainha Elizabeth; proibiu que Bolsonaro utilizasse imagens do 7 de setembro; proibiu Bolsonaro de fazer lives no Palácio da Alvorada; proibiu que Bolsonaro utilizasse imagens de viagens; a AGU tentou proibir Bolsonaro de diminuir o preço da gasolina em ano eleitoral… e foi tratado como “boato”, sendo que a tentativa, de fato, ocorreu — apenas não pelo TSE, desta feita.

Esta é uma eleição “normal”? Ou, contando apenas órgãos oficiais, foi uma eleição com algum peso para um dos lados? É apenas uma pergunta, claro. Talvez se possa fazer perguntas dentro de uma democracia sem ir para o pau-de-arara. Esperamos. Será que é possível explicar o que significa o CPX do boné do Lula no Complexo do Alemão? Pergunte a qualquer delegado do Rio ou teste se é possível subir o Morro do Turano ou o Dona Marta, no Rio, com boné de facção rival sem virar tampinha de saleiro em minutos.

E, claro, isso apenas contando órgãos oficiais. Só as fake news de André Janones e da campanha do PT já mereceriam um capítulo à parte. Circulou pelo WhatsApp imagem “mostrando” que Bolsonaro entregaria o Brasil para Satanás em uma loja maçônica. Vídeo tentando dar a entender que Bolsonaro era “canibal”. Outro, justamente quando defendia jovens venezuelanas fugindo da ditadura do amigo de Lula, tentava dar a entender que Bolsonaro era pedófilo por usar a expressão “pintou um clima” (para gravar um vídeo, que era público).

Bruno Sartori e André Janones diziam que Bolsonaro queria interferir na Igreja Católica (Janones dizia que Bolsonaro “decretou guerra à Igreja Católica”). Emir Sader afirmou que Bolsonaro tinha “demanda” para retirar o caráter de “santa” de Nossa Senhora Aparecida.

Janones divulgou vídeo de Bolsonaro reclamando das fake news, dizendo que logo iriam dizer que, com ele, Collor voltaria e confiscaria as aposentadorias. Janones recortou apenas a frase e deixou em seu perfil para ser compartilhada, “chequem antes”. Janones também passou o fim de semana das eleições jurando que tinha o celular de Bebianno e que iria “destruir” Bolsonaro com isso (fake news confessada no livro de Janones, um ano depois).

O jornalista Valmir Moratelli, da Veja, afirmou que Bolsonaro teria almoçado com Guilherme de Pádua, assassino de Daniella Perez (o jornalista nem corrigiu o texto, apenas fez outra nota depois, em que Bolsonaro “se pronuncia sobre encontro”).

Também diziam que Bolsonaro era amigo de Flordelis, acusada pelo assassinato do próprio marido, sendo que Flordelis era do PSD, segundo principal rival eleitoral de Bolsonaro. Também se afirmou muito que Bolsonaro iria indicar o goleiro Bruno, outro assassino, como secretário.

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A mídia falou muito na época eleitoral dos 107 imóveis negociados em “dinheiro vivo”, quando, na verdade, tratava-se de dinheiro em espécie, ou seja, na moeda local do país. A reportagem envolvia três décadas de transações da família, que envolviam até ex-esposas e ex-cunhados — um deles, tcharam, dono de uma rede de lojas de compras e vendas de pontos comerciais, separado da irmã de Bolsonaro há mais de 20 anos.

Bolsonaro também iria acabar com o SUS, com o salário mínimo (mesmo tendo anunciado aumento no último debate) e com o Auxílio Brasil. E o “orçamento secreto”, que é “pior do que o petrolão”? Não era secreto, não foi criado por Bolsonaro, retirou poderes do Executivo sobre o Orçamento e era usado por pelo menos 11 petistas. Confundia tanto que a mídia trocava o nome apenas para falar do governo Bolsonaro e outro nome para a mesma coisa quando eram governos petistas. Às vezes, escorregava e misturava os nomes.

E, claro, teve a jornalista Barbara Gancia chamando Laurinha Bolsonaro, então com 11 anos, de… melhor não dizer, basta pesquisar.

Nada disso está no livro do STF. Nada disso está na Wikipedia. Parece mesmo que foi a eleição mais normal, “democrática” do planeta, tudo lindo, perfeito e justo e, aí, um monte de brutamontes de extrema direita, exigindo um “golpe militar”, montaram uma “organização criminosa armada” e foram tentar assassinar Lula e Alexandre de Moraes, simplesmente porque queriam instaurar uma ditadura e acabar com a democracia.

Ah, falando em organização criminosa armada (um dos crimes pelos quais centenas de manifestantes estão sendo condenados), com mais de mil pessoas presas pelo 8 de janeiro, o total de armas catalogado pela PGR foi o de bolinhas de gude, estilingue e canos de PVC. Sim, é sério.

Saber quem começou a esbulhar as instituições e transformar uma eleição em um mero teatrinho para justificar poderes absolutos e destruir adversários políticos é essencial para se contar a história.

É como nossos filhos e netos aprenderão sobre o 8 de janeiro: haverá alguma menção ao TSE? À censura confessa? A jornalistas sendo interrompidos ao vivo diversas vezes porque “este assunto não falamos no ar”? Falarão da autocensura das redações de jornal em plena eleição? André Janones será citado?

Ou será tudo lindo e delicioso, democracia perfeita e as melhores instituições do mundo e, de repente, apareceram os marmanjos ditadores e as perigosíssimas velhinhas do terço querendo dar um golpe de Estado em prédios vazios, com Bolsonaro fora do país e o comando das Forças Armadas entregues a Lula antes do necessário?

Alexandre de Moraes, então também do TSE, afirmou que candidatos eleitos com fake news teriam sua candidatura impugnada. Claro, não há lei que determine isso (não que isso afete Alexandre de Moraes), mas, enquanto proibiu Bolsonaro e metade do país de dizer verdades, o breve compilado acima poderia dar ensejo para se impugnar a chapa vencedora, segundo suas próprias palavras.

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