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O debate eleitoral tem sido colocado em termos morais, ou melhor dizendo, histericamente pseudomorais, com o eterno rebuliço de que não votar na esquerda é “fascismo” (já acusaram Serra, Alckmin – atual vice-presidente de Lula –, Aécio, Temer – que estava em sua própria chapa – e até Marina Silva do mesmo, e vão acusar eternamente, por falta de referência histórica e literária). Mas há uma questão moral bem mais factível para determinar voto: você votaria no mesmo candidato de quem rouba seu celular?
O Brasil teve 830.890 aparelhos subtraídos em 2025. A França, mesmo após a massiva imigração islâmica, registrou cerca de 28 mil investigações envolvendo celulares no mesmo período. São 95 aparelhos por hora, um a cada 38 segundos. Provavelmente mais de 5 celulares serão roubados até este artigo terminar. Segundo pesquisa de março de 2026 do Datafolha, 8,3% dos brasileiros tiveram o celular roubado ou furtado apenas nos 12 meses anteriores. São 13,9 milhões de pessoas.
Que tipo de política favorece a vítima do roubo? Que tipo de política favorece o ladrão? A questão é simples, a resposta também. O voto idem.
O que engana (e autoengana) muito na esquerda são as prestidigitações acadêmicas, o verniz de “discurso intelectual” para desviar a atenção do ouvinte enquanto este não percebe que teve sua carteira furtada.
O truque mais panaca – e mais repetido – é apelar para a desigualdade social, como se pobres nascessem ou se tornassem cleptomaníacos por celular assim que notassem que o iPhone 17 256 GB de R$ 6.500 não coubesse no orçamento – e poderíamos falar sobre como todos os programas sociais do governo e toda a corrupção gerassem uma inflação fora do comum, já que o mesmo aparelho custa apenas R$ 3.018 nos EUA, com o dólar a R$ 5,04 (valor que só foi atingido graças a Flávio Bolsonaro em primeiro lugar nas pesquisas), mas isto seria ainda uma segunda questão.
O truque mais chic é apelar a um vocabulário acadêmico envernizado, discutindo a “microfísica do poder” citando Foucault, ou o “direito achado na rua” de Roberto Lyra Filho, como se fosse a única pessoa a ter lido “Dos delitos e das penas” de Beccaria, com esgar de nojinho contra a classe média, que não aprendeu a citar autores chatos para azedar o jantar de família, considerando-se o super-homem nietzschiano acima do rebotalhado só por ter feito uma faculdadezinha. Toda a logorreia é incapaz de perceber que criticam uma sociedade “punitivista” que já não existe mais (já há alguns séculos, diga-se), e que, se a sociedade atual está um caos, é por causa do que os professores lhes ensinaram na faculdade contra a intuição do homem comum, e não o contrário.
O que o bandido quer não é trocá-lo por álcool numa festinha, e sim ter acesso a toda a vida da pessoa
Lembremo-nos ainda de que o Brasil não tem apenas furto ou roubo de celular, as modalidades mais comuns no primeiro mundo, mas verdadeiros assaltos traumáticos, com arma diante de famílias com crianças, em troca de celular. Lembremo-nos, ademais, de que o roubo de celular não é feito apenas pelo valor do aparelho. O que o bandido quer não é trocá-lo por álcool numa festinha, e sim ter acesso a toda a vida da pessoa. Conta bancária (transferências vultosas são feitas em poucos minutos), golpes nos contatos, fotos íntimas indo parar em sites pornográficos, dados vendidos a hackers, privacidade completa exposta.
Agora podemos concluir: precisamos de um “choque de iluminismo” para punir furiosamente o tio do pavê, porque faz piadinha com sexualidade e diz que queria pendurar alguns políticos pelo pescoço, como um perigosíssimo fascista-obscurantista-golpista-patriarcal-machista-homofóbico-carnívoro-estrutural-neocolonial, enquanto votamos em quem tem inúmeras políticas para favorecer o bandido que compra uma arma, enfia na cabeça de um pai de família ou de uma moça voltando sozinha da faculdade à noite depois de trabalhar o dia inteiro para conseguir ajudar os pais com o aluguel, rouba seu celular, faz um PIX para si próprio de R$ 10 mil (o que ela vai reaver em mais de 2 anos), lê todas as suas mensagens, envia suas fotos privadas a sites com servidores inalcançáveis e, quando ela finalmente consegue revogar o acesso à distância, troca o valor do aparelho por algumas centenas de reais que vai gastar em um pancadão?
Ele terá audiência de custódia caso seja preso, apenas para julgar o policial e verificar se foi maltratado; ele terá saidinha no Dia dos Pais, no Dia das Mães e no Natal, terá comida (mais cara do que a enviada para as creches) e roupa lavada, terá progressão de pena, poderá trocar dias na cadeia pelo hercúleo exercício de ler livros como “Seja f***” e, claro, terá direito a voto, que a Débora do Batom não possui, por ser uma perigosíssima “golpista”, um risco à democracia.
Claro, se ele progredir na vida do crime, ainda pode se proteger ainda mais do “punitivismo” filiando-se a uma facção criminosa como o PCC ou o Comando Vermelho. Logo, este bandido terá acesso a advogados, cupinchas, fará parte de assaltos maiores, envolvendo sequestros e, quem sabe, estupros, e até escapará de grandes assaltos amarrando os reféns no topo dos carros, como muitas vezes tais facções fizeram. O marginal poderá sempre votar em quem quer evitar que seus chefes sejam considerados terroristas.
E quanto a você? Você vai votar em quem protege a moça que teve o celular roubado após uma arma apontada para a cabeça ou em quem está envidando os maiores esforços em proteger os bandidos?
Note-se, por fim, que nenhum nome de candidato foi citado nesta coluna inteira. Enquanto isso, uns 7, talvez 6, com sorte 5 celulares foram roubados.
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Metodologia da pesquisa citada: cálculo a partir da projeção da população com 16 anos ou mais divulgada pelo IBGE em 2025. Fonte: Pesquisa Datafolha e Fórum Brasileiro de Segurança Pública com 2.004 entrevistados de 16 anos ou mais, realizada em 9 e 10 de março. Margens de erro variam de 0,5 ponto percentual a 1,6 p.p., para mais ou para menos.

Flavio Morgenstern é escritor, jornalista e roteirista. É formado em Literatura Alemã e estuda as relações entre linguagem e poder, além da decadência da modernidade, especialmente desde a Primeira Guerra Mundial. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



