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Flavio Quintela

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Decepções e descobrimentos

  • Por Flavio Quintela
  • 13/08/2019 15:03
Decepções e descobrimentos
| Foto: Sarah Brucker/FreeImages

Houve uma época da minha vida em que fiz uns julgamentos bastante chatos sobre algumas pessoas de meu convívio. Foi justamente na época em que mais me dediquei à política, mais precisamente entre 2006 e 2016. E quais eram esses julgamentos chatos? Basicamente, eu achava que o Brasil tinha ido para o buraco por causa da falta de participação e comprometimento da classe média na vida política da nação, incluindo a escassez de candidaturas de pessoas decentes, a falta de engajamento ideológico e um excesso de acomodação generalizado. Eu olhava para casais de amigos que, como qualquer pessoa comum, gastavam suas energias para – pasmem – cuidar de seus casamentos, criar seus filhos, construir suas carreiras e tentar prosperar em uma terra ingrata. Na minha ótica farisaica, eles estavam sendo um pouco egoístas quando deixavam de pensar no bem da nação em vez de apenas em suas vidas cotidianas.

Dois filhos, dois livros, uma mudança de país, uma nova empresa, centenas de artigos, milhares de tuítes e posts, e vários anos depois, minha percepção mudou completamente. Nesse tempo, desde 2006, vi muita coisa acontecer.

Fui candidato a vereador em 2008 e não fui eleito, mas vi meu candidato a prefeito vencer. Participei do governo e sofri a decepção que toda pessoa que tem princípios morais sofre quando fica perto demais da política real. Abandonei para sempre a ideia de atuar diretamente, através de um mandato político.

Pude ver o que acontece com quem coloca a política acima da vida, com os que veem política em absolutamente tudo e com os que perdem amigos, mas não perdem o amor ao político do coração

Abracei a missão de mudar mentes através de meus textos. Vendi dezenas de milhares de livros, recebi mensagens de gente do Brasil todo e me maravilhei com a repercussão de algumas coisas que escrevi. Com o tempo, descobri que poucas pessoas realmente mudaram de opinião lendo os meus textos. A grande maioria já pensava mais ou menos como eu. Pior que isso: muitos que um dia me elogiaram por causa do que escrevi sobre determinado assunto passaram a me ofender por minhas posições políticas em relação ao governo atual.

Vi algumas pessoas de meu círculo de conhecidos ganharem relevância política, umas por terem sido eleitas para algum cargo estadual ou federal, outras por terem sido chamadas para participar do governo. Com raras exceções, abandonaram o ceticismo com que sempre encararam a política e passaram a adotar uma postura de subserviência e conformismo. Viraram, na gíria política do momento, passadores de pano.

No fim das contas, não existe maneira melhor de mudar o mundo que o enchendo de gente moralmente boa e comprometida com o bem

Não bastasse tudo isso, veio a polarização brutal de nossos dias. O bolsonarismo, que já tinha vida própria na época da campanha, ganhou força e poder com a posse do presidente. É hoje um movimento comparável ao lulismo – digo isso sem inferir nenhuma comparação entre os dois políticos, mas somente entre seus seguidores – no tocante ao nível de rendição mental de seus integrantes a um pensamento de massa completamente servil. As mesmas pessoas que se ofendiam em ser chamadas de “tucanas" pelos lulistas hoje rotulam qualquer um que critique Jair Bolsonaro de esquerdista, isentão, comunista e, às vezes, até de tucano. As mesmas pessoas que achavam um absurdo quando um autor ou professor conservador era barrado de participar de algum evento por causa de pressão de militantes hoje aplaude quando um autor ou professor de esquerda é barrado pelo mesmo motivo.

Enfim, depois de ver o que acontece com quem coloca a política acima da vida, com os que veem política em absolutamente tudo e com os que perdem amigos, mas não perdem o amor ao político do coração, eu descobri que quem estava certo mesmo eram aqueles amigos e parentes que faziam (e continuam fazendo) das tripas coração para colocar comida na mesa, educar os filhos e cuidar da família da melhor maneira possível. No fim das contas, não existe maneira melhor de mudar o mundo que o enchendo de gente moralmente boa e comprometida com o bem. Alguém pode certamente adquirir alguma coisa decente ao ler meus livros, mas somente uma boa criação dá a base moral tão necessária para mudar uma nação. Sem isso, a única coisa que muda é a ideologia de quem está no poder. Afinal, a podridão existe nos corações de direita e de esquerda. Se eu conseguir evitar que os coraçõezinhos de meus filhos se infectem dessa maneira, terei feito mais bem para o mundo que se escrevesse dez livros. A vocês, amigos e parentes que um dia eu julguei, me perdoem. Vocês estavam certos e suas famílias lindas são a maior prova disso.

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Comentários [ 1 ]

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    André

    ± 0 minutos

    Parabéns pelo artigo, Flavio. Concordo plenamente. Devemos fazer como disse Cândido, de Voltaire, "cuidar do nosso jardim".

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