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Procurador Deltan Dallagnol
O procurador da República Deltan Dallagnol, ex-coordenador da força-tarefa da Lava Jato.| Foto: Gazeta do Povo

Estava lá, sossegado no meu retiro voluntário do noticiário político, quando um amigo enviou num grupo de WhatsApp uma publicação do procurador da República Deltan Dallagnol, convidando para a sua primeira live de uma série denominada “Obstáculos no combate à corrupção”. Ao que meu amigo comentou, dizendo tudo: “A Lava Jato virou uma live”. E não é?

Quem diria, dois anos atrás, que algo assim aconteceria? Mas o que me espanta mais nem são as chicanas jurídicas e retóricas utilizadas para tentar livrar ex-condenados da cadeia, algo corriqueiro no país, mas a frouxa reação da sociedade civil a respeito. É claro que a pandemia explica isso em parte, mas manifestações não faltaram mesmo neste período e em sua maioria realizadas por quem até anteontem tomou as ruas aos milhares para apoiar a operação. Por que, agora, pouco ou nada falaram e falam para defender a Lava Jato?

Aos bolsonaristas, pouco ou nada interessa defender a Lava Jato agora, pois defendê-la seria apoiar um seu grande rival, Sergio Moro

É um fato inegável que as manifestações que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff, com forte apoio popular à Lava Jato que impediu que acontecesse o que agora vem acontecendo, reunindo diferentes numa causa comum, teve na falta de lideranças uma de suas principais características. Aquelas manifestações foram parteiras de novos líderes, mas não foram conduzidas por ninguém, a não ser a indignação genuinamente popular.

Antes da eleição de 2018, dei uma palestra ao Instituto Borborema, condensando uma série de colunas escritas aqui para a Gazeta do Povo sobre a história da nova direita. A certa altura, considerando que esta nova direita estava prestes a tomar o poder sem que houvesse uma unidade interna a lhe dar suporte, mas um arranjo provisório a necessitar de muito mais do que isso para tanto, afirmei que era questão de tempo para que os seus grupos formadores rachassem, brigando mais entre si do que com a esquerda, restando ao futuro governo o pragmatismo de curto prazo. Não é para me gabar, mas não é exatamente isso que está acontecendo?

O racha mais relevante aconteceu justamente na e por causa da pandemia. A saída de Sergio Moro do governo, da forma como saiu, dividiu de vez o que já era mal unido. E é isso que explica por que a Lava Jato ficou ao “Deus dará”. Porque diversamente de antes de 2018, quando a reação ao PT e à esquerda unia a todos, agora existem projetos de poder em disputa dentro da direita. Aos bolsonaristas, pouco ou nada interessa defender a Lava Jato agora, pois defendê-la seria apoiar um seu grande rival, Sergio Moro, o maior símbolo da operação. Lamentável, é claro, mas quando a manutenção do poder importa mais do que tudo, é assim que as coisas são. E por isso nada aparece a respeito nas manifestações de rua bolsonaristas dos últimos meses.

Moro, por sua vez, pelo simples fato de ter aceitado participar do governo de Jair Bolsonaro, tornou-se uma liderança política que, uma vez fora do governo, obrigava-o a assumir esse papel. No início, até tentou, mas não durou muito, optando por retornar à iniciativa privada e emudecer em relação a tudo o que está acontecendo com a Lava Jato. Nada é mais danoso à operação que o silêncio de Sergio Moro, na prática lavando as mãos, deixando órfãos boa parte dos que foram às ruas anos atrás na defesa da luta anticorrupção.

Sim, eu sei, andam a tentar criar uma “terceira via” entre Bolsonaro e Lula. A melhor pauta aí seria a defesa da Lava Jato, mas até aqui nada existe de concreto, nem de nomes para capitanear o movimento, nem de pautas, salvo a indignação ressentida contra Bolsonaro que já faz até alguns preferirem Lula. Restou, então, ao outro símbolo da operação, o procurador Deltan Dallagnol, com as limitações decorrentes do cargo que ocupa, defendê-la publicamente praticamente sozinho, com coisas provavelmente inócuas como essa série de lives.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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