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Jaime Lerner
Jaime Lerner em encontro com a reportagem de HAUS, da Gazeta do Povo, na ocasião da celebração de seus 80 anos, em 2017.| Foto: Albari Rosa/ Arquivo/ Gazeta do Povo

Nesta semana, Curitiba esteve idílica. Apesar do frio de 3º, 4º, acordamos com a lua imensa trazendo o céu infinitamente azulado para mais perto, com o Sol a dissolver lentamente a bruma leve das manhãs, banhando tudo com a luz inigualável do outono, dourando a cidade como se fosse um ícone devocional renovando as vistas do dia a dia. No caminho para o trabalho, enquanto contemplava essa luz deitada por sobre a cidade, suas ruas, praças, por tudo, escutei no rádio a notícia do falecimento de Jaime Lerner e pensei: que bela homenagem a quem lhe deu forma, Curitiba.

Poucas vezes nos damos conta disso: de que a Curitiba atual tem a forma da imaginação de Jaime Lerner. Não apenas da dele, claro, mas é o nome a que mais atrelamos as mudanças urbanísticas realizadas desde a década de 1970. A começar pela já lendária história de como o calçadão da Rua XV foi construído da noite para o dia, modificando a paisagem do coração da cidade em 1972. Fisicamente, a cidade foi profundamente transformada de lá para cá, e maior parte por ele, com a instalação do famoso sistema integrado de transporte fazendo uso dos ônibus expressos transitando em canaletas exclusivas, mais a implantação dos primeiros grandes parques, como o Barigui e o São Lourenço, além da criação da Cidade Industrial de Curitiba.

Poucas vezes nos damos conta disso: de que a Curitiba atual tem a forma da imaginação de Jaime Lerner

Nos mandatos seguintes vieram os “ônibus ligeirinhos”, a “cidade ecológica” separando o “lixo que não é lixo”, mais a transformação da Pedreira em lugar de shows, com a criação da Ópera de Arame, do Jardim Botânico, dentre outros espaços públicos. Curitiba se tornou outra depois de Jaime Lerner, planejada como nunca, conduzida como poucas. Nem tudo do seu legado é bom, claro, mas o que ficou, a maior parte, sem dúvida é. Nasci e vivo nesta Curitiba em que não há como caminhar sem transitar também pela imaginação inovadora de Jaime Lerner. Segundo o atual presidente do Ippuc, aliás, “o zoneamento de Curitiba evolui até hoje sobre uma mesma plataforma criada por Lerner”.

Se fosse prefeito, como agiria Jaime Lerner diante da pandemia? Em uma entrevista, quando dos seus 80 anos, a esta Gazeta do Povo, ao falar sobre como fazer algo dar certo, disse que é preciso propor um cenário que todos entendam como desejável, e então as pessoas ajudariam a fazer acontecer; mas, quando só se “apresenta um cenário de tragédia, ninguém ajuda”. Como não pensar nas temporadas recorrentes de lockdowns (e vem mais uma por aí), em que a única coisa usada para convencer a população a respeitar o fechamento da cidade é o medo do que possa acontecer se isso não for feito? Talvez Lerner não fizesse diferente, mas talvez apresentasse tudo de uma forma mais compreensível.

Tinha simpatia pela figura bonachona, boa praça, do Jaime. Também porque não parecia político profissional. Não era bom retórico, a fala lenta, arrastada, de mesma entonação para quase tudo. Comparado ao seu principal rival, Roberto Requião, e mesmo a uma de suas crias, Rafael Greca, Lerner ficava a léguas de distância no talento retórico. Compensava com o carisma de avô, sorrindo pelos olhos, mais a fleuma que mantinha mesmo nas situações mais tensas e constrangedoras.

A janela do meu quarto dos anos 1990 dava para o teto gramado da casa vizinha, onde Jaime Lerner morava. Minha mãe ainda reside no mesmo endereço; então, semanalmente costumo voltar àquela janela e revisitar a vista que um dia foi minha. Das recordações de sempre estão as inúmeras vezes em que a cabeça esbranquiçada pelos cabelos a sair pelo portão me chamou a atenção. Era a época em que governava o estado, sem o mesmo brilho de quando prefeito. Hoje, aquela casa é sede do seu instituto. Mas ele permaneceu morando na região. Não era raro cruzar com ele pelas ruas do Juvevê, mais fácil ainda era encontrá-lo sentado às mesas na calçada do Bar Paraguassu. Millôr Fernandes, que era seu amigo próximo, tinha uma tirada genial sobre a morte: “Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus”. Mais formidável ainda é ter uma cidade banhada em luz lhe dizendo adeus, agradecida, por tantas coisas.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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