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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Para melhorar, precisa piorar

Não deixem Gilmar, Moraes & Dino lerem esta crônica!

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Do jeito que as coisas andam, não é melhor deixar os três governarem o Brasil por decreto de uma vez? (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)

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De todo mal se tira um bem, dizem. Eu acredito. Mas, para que esse bem dê as caras, muitas vezes as coisas precisam piorar muito antes.

Se o fundo do poço é o único trampolim disponível, então, quer saber? Que Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes ressuscitem mesmo as relíquias do nosso autoritarismo, a começar pela obrigatoriedade do diploma para jornalistas outorgada em pleno ano de chumbo de 1969.

Como a reação das nossas instituições tem sido, no máximo, um burocrático e assustado “oh, vejam bem, isso pode ser perigoso”, resta-nos rir para não chorar.

Já que a nossa suprema corte decidiu operar em regime de autogestão legislativa, transformando-se em um Congresso Nacional Paralelo que dispensa o incômodo processo de ter votos, não me espantarei se em um futuro breve vierem decretos dessa nova era parecidos com bizarrices de antanho.

Se o fundo do poço é o único trampolim disponível, então, que Moraes, Dino e Gilmar ressuscitem mesmo as relíquias do nosso autoritarismo

A transição estética da aparência de democracia para um autoritarismo sem vergonha deve começar sutil. Veremos primeiro algo na linha de Jânio Quadros, que em agosto de 1961 assinou o Decreto 51.182, proibindo o biquíni em desfiles de beleza e tolerando apenas o uso de um comportado saiote.

Na versão atualizada, Gilmar Mendes proibirá por liminar piadas com os ministros do STF, e também as tradicionais “cadeias” das festas juninas. Não quer correr risco de ter de conceder habeas corpus nesses casos, afinal, ninguém garante mais nada, não é mesmo?

Quando assumirem de vez o figurino autocrático, virá o resgate do “imposto do solteirão”, criado por Getúlio Vargas em 1941 através do Decreto-Lei 3.200. Na época, solteiros maiores de 25 anos que não tinham filhos pagavam uma taxa adicional de 15% sobre o Imposto de Renda para incentivar a natalidade nacional. A cobrança surreal durou mais de duas décadas.

Consigo imaginar Flávio Dino recuperando a medida, mas adaptando o escopo: criará a “Taxa de Deserção Ideológica”, impondo taxação semelhante a pais que não comprovarem que os filhos votam no espectro político oficial. O objetivo, claro, é incentivar o “apreço pela democracia” e evitar o nascimento de novos golpistas.

E como esquecer o confisco da poupança de Fernando Collor em 1990? O congelamento de 80% do dinheiro em circulação no país por 18 meses para salvar a economia. Diante do precedente, veremos Alexandre de Moraes baixando um “Decreto de Bloqueio Cognitivo de Urgência”.

O cidadão que ousar emitir uma opinião pública, um tuíte ou um comentário de boteco sem prévia autorização da corte terá sua liberdade de expressão confiscada por 18 meses, prorrogáveis pelo tempo que durar o inquérito das fake news. As opiniões ficariam retidas em uma “Caderneta de Poupança Mental da Polícia Federal”, rendendo juros moratórios de bom senso alexandrino até que o ministro decida se o sujeito tem capacidade técnica para postar.

No novo DIP do Judiciário, a regra será digital: todo usuário de rede social será obrigado a manter na foto de perfil a imagem de um dos magistrados da corte

Por fim, quando as leis se tornarem um detalhe obsoleto, o Triunvirato recriará o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo de Vargas. Originalmente, o órgão centralizava a censura e distribuía retratos emoldurados de Getúlio de forma industrial e compulsória para repartições e escolas. Não exibir a foto do “Chefe da Nação” era uma insubordinação gravíssima.

No novo DIP do Judiciário, a regra será digital: todo usuário de rede social será obrigado a manter na foto de perfil a imagem de um dos magistrados da corte. Para evitar vaidades internas e garantir a isonomia do Olimpo, haverá um sistema de rodízio algorítmico para que nenhum ministro tenha mais fotos escolhidas do que os outros.

Deveria parecer piada, um absurdo impossível, um realismo mágico aceito apenas na literatura. Mas, sejamos muito honestos: alguém duvida? Eu não. E já vou adiantando que este texto foi escrito em agosto de 2026, quando a ironia ainda não era crime – viu, senhor censor do futuro?

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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