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Balenciaga e a moda da destruição
| Foto: Balenciaga/Site oficial

A destruição está na moda. Há muito tempo já, mas talvez não de forma tão explícita e embalada como algo mais do que normal, mas desejável e até obrigatório. E custando caro, bem caro.

Mesmo que você não quisesse, se acessou a internet nos últimos dias, foi obrigado a conhecer a nova linha de tênis da famosa marca Balenciaga, chamada “Paris Sneaker Destroyed”. Não deixa de ser boa ocasião para você diagnosticar quão vivo está seu senso de ridículo. Se, olhando as fotos dos tênis destruídos, embora nunca usados, você não ficou com cara de “que p… é essa?”, tenho má notícia e provavelmente nada do que lerá em seguida fará sentido para você. Mas se, mesmo espantado, tenta se convencer de que seria normal porque, enfim, é a moda..., tenho outra má notícia: em breve você não se espantará mais com essas aberrações também.

A dessensibilização causa, inclusive nos próprios criadores, a perda do senso de ridículo. Tudo lhes parece inovador, provocativo, mas é apenas vexaminoso. Ao consumidor que compra restará o papel de trouxa que paga por essas coisas

Porque é disso que se trata: uma aberração. E não estou exagerando. Uma coisa é a criatividade humana sabendo dar novo uso ao que usado está. Outra, bem diferente, é tratar o “detonado” não como sendo consequência inevitável do uso, mas como o próprio bem desejado. Há uma inversão de valor nítida aí, que salta aos olhos quando você não está tão dessensibilizado assim e a desembala do marketing e da fama de quem criou o produto.

E esta é a má notícia: a dessensibilização. Palavra difícil, mas de significado fácil de compreender: você não sente mais o que antes sentia por consequência natural. No caso, a dessensibilização é estética, com o feio, até repulsivo, não mais sendo sentido como tal. É consequência direta dos exageros da arte modernista, que em sua essência tem a necessidade de “romper padrões” e criar novos. Se isso talvez tenha feito sentido no início e também ainda faça em determinados momentos em que a cultura se estagna, por outro lado, quando se transforma o “romper padrões” como sendo o novo padrão, quando não o único, a originalidade tão desejada se torna impossível, restando apenas “chocar”, “causar polêmica” e por aí vai.

Com o tempo, vem a dessensibilização generalizada e nada mais choca de fato. Lembra-se da peça de teatro Macaquinhos, que fez barulho anos atrás e consistia única e exclusivamente nos atores nus explorando os ânus uns dos outros? Se só de ler a descrição da peça você não sente o ridículo da coisa, eis a dessensibilização. A peça ganhou fama pela polêmica, não pela excelência artística. É o tipo de “arte”, aliás, que depende totalmente da sensibilidade dos ainda não dessensibilizados por completo. Sem eles, não haveria polêmica, logo, a “peça” não incomodaria ninguém. E foi só pelo incômodo causado que ficou conhecida.

Por curiosidade, fui pesquisar outras peças da Balenciaga e assisti a um vídeo da Lilian Pace, especialista em moda, listando e comentando 16 absurdos da marca. Eis alguém com sensibilidade, simplesmente dizendo o óbvio. Basta ver as peças mostradas para perceber o absurdo que é sentido como ridículo.

Porque é isso que a dessensibilização causa, inclusive nos próprios criadores: a perda do senso de ridículo. Tudo lhes parece inovador, provocativo, mas é apenas vexaminoso. Ao consumidor que compra restará o papel de trouxa que paga (e muitas vezes bem caro) por essas coisas. Não deixa de ser um lado bom da dessensibilização, pensando bem, afinal, a pessoa tampouco sente a própria trouxice.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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