| Foto: Facebook/Bruce Springsteen

To my brothers in songs (you know who you are)

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Sou muito grato a Bruce Springsteen. Não sei dizer quando escutei pela primeira vez No Surrender, música do seu disco mais famoso, Born In The U.S.A. Talvez quando foi lançado, em 1984. Eu tinha 8 anos de idade. Foi amor à primeira audição. Mas a ficha da letra só viria a me cair mais tarde, na adolescência, quando já tinha a certeza mais que absoluta de que não seria na escola que eu aprenderia o mais importante para a vida. Isso eu estava aprendendo com caras como Bruce, que resumiu isso num único verso dessa música: “Aprendemos mais com uma gravação de 3 minutos, baby, do que jamais aprendemos na escola”.

Mais de 20 anos depois, estava indo dar minha primeira aula na vida sobre algo que na escola não aprendi. Queria falar sobre a importância da literatura, mas sabia que era inútil. Não se tratava de explicar, justificar, fundamentar, mas de fazer o aluno experimentá-la de verdade, não como foi na escola. Mas como fazer isso numa aula? Decidi contar minha história de vida, sem explicar nada nem por quê. Confiava iriam se reconhecer em muito do que eu tinha para contar, pois minha história era comum a muitos: entrei na faculdade sem saber bem por quê, nem o que queria fazer da vida, e saí de lá mais perdido do que antes, batendo cabeça, tentando me achar como advogado formado até, uma década depois, arriscar virar professor. No fim, toda a história cabia no verso citado de No Surrender, com que encerrei a aula perguntando: se vocês tivessem lido essa história num romance, teriam dado a mesma atenção e credibilidade que deram por estarem me ouvindo contar?

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Funcionou, e mais de dez anos depois daquela aula sigo fazendo o mesmo, vivendo “como um soldado na noite de inverno com um juramento a defender”. Naquela noite, voltei a escutar a música no carro, indo para casa sozinho e às lágrimas. Ao contrário do personagem da música que tinha um amigo com quem fez o pacto de nunca desistir, eu tinha apenas aquela música como “irmã de sangue” a me lembrar da promessa feita a mim mesmo, de simplesmente não desistir, de me agarrar em algo que eu nem sabia o que era, mas que a música representava.

Entramos na existência de carona no ventre materno e morremos em algum lugar qualquer da estrada da vida que prossegue sem nós

Durante anos, esta e outras músicas foram minhas companheiras de viagem, e no caminho fiz meus melhores amigos através delas. Daqueles com quem mal precisamos conversar, bastando partilharmos as músicas que descobrimos e temos a certeza mais que absoluta de que o outro irá gostar também, e escutarmos novamente as que sempre ouvimos, sem as quais não nos reconhecemos. Quantas dessas viagens não fiz conduzido por Bruce Springsteen, como agora. Fui devolvido ao que vivi, ao que me tornei, ao que sou, ao escutar seu álbum recém-lançado, Western Stars, cuja forma é justamente a de uma viagem de carro, num símbolo perfeito do que é viver: entramos na existência de carona no ventre materno e morremos em algum lugar qualquer da estrada da vida que prossegue sem nós.

O disco se divide em duas perspectivas dessa viagem. A do caroneiro ou viajante, com que o álbum inaugura em Hitch Hikin’e The Wayferer, que tratam a viagem como ensolarada, alegre, descompromissada, com o viajante querendo conhecer o mundo, viver experiências, amar e ser amado, tendo a estrada por lar. Há um tempo para tudo nessa vida, como o de acreditar que ser uma pedra rolante, vivendo sem mapa, sem pensar no amanhã, bastaria, como canta o ator dublê em Drive Fast (The Stuntsman): “dirija rápido, caia com força, mantenha-me em seu coração; não se preocupe com o amanhã, não se importe com as cicatrizes”. Mas o desacelerar do ritmo e o anoitecer da melodia, já indicados em Western Stars, algumas faixas antes, revelam que este tempo se foi.

A partir daqui, do meio do disco em diante, a perspectiva não é mais de quem parte viver na e pela estrada, mas de quem viajou o suficiente por ela e começa a olhar para o caminho percorrido, fazendo um exame de consciência quase forçado, como na dylanesca Somewhere north of Nashville: “acordo no meio da noite fazendo uma lista das coisas que não fiz direito, com você no topo de uma longa página inteiramente preenchida; pelo negócio que fiz, o preço foi alto, te troquei por esta canção”.

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Mas também o tempo do acerto de contas passa e o que vem depois, se o acerto é bem feito, é a perspectiva da sabedoria. Não costumamos assim considerá-la, mas sabedoria não é apenas “saber”, conhecer. Há também um sentido na etimologia da palavra em latim que se refere ao “sabor” das coisas, ou seja, “sentir o gosto”. Qual é o sabor de viver e de ter vivido? Há o sabor adocicado da juventude, há o sabor amargo da maturidade e há o sabor azedo da má velhice ou o agridoce da boa, que é como o disco se encerra com as belíssimas Hello Sunshine e Moonlight Motel.

É só nesta solidão interior que somos de fato irmãos de sangue, amigos parceiros nessa viagem que é a vida

Hello Sunshine enxerga o fim não como um pôr-do-sol, mas um novo nascer, com um sol outonal, mais distante, mas tão presente quanto antes, apenas parecendo mais fraco. Mas quando há sabedoria toda fraqueza é, na verdade, serenidade, paz de espírito. Aqui há o sabor doce do acerto de contas de quem, apesar de tudo o que sofreu, recebe a solidão final não como antes, como derrota a ser evitada, mas a abraça, tornando-a seu lar definitivo e encontra ali uma espécie de renascer, a quem saúda, perguntando: “olá, raio de sol, você não ficará?”

Não, não ficará. E aí o disco se encerra com Moonlight Motel servindo de excelente metáfora da vida e da morte, confundidas ao final. Durante a vida é possível considerar a morte como um motel estranho de beira de estrada para onde “ninguém viaja e ninguém vai” e pelo qual gostaríamos de passar direto, ir adiante, sem olhá-lo. Mas ali temos de parar em algum momento, e nessa hora conheceremos o motel cuja “piscina está cheia de vazio, com dentes-de-leão nascendo por entre as rachaduras do concreto; uma cerca de arame farpado enferrujado com um cartaz dizendo: ‘crianças, tenham cuidado em como brincam’.” Nesta hora o amargo da vida volta a ser saboreado, mas a doçura não foi esquecida e no último suspiro ela renasce no coração daquela solidão que, com sorte, foi compartilhada em vida, estando repleta de memórias de nossos amores dando sentido ao fim: “Da minha cama solitária, despertei para algo que você me disse, que é melhor ter amado; sim, é melhor ter amado”.

Todo o disco tem a forma dessa memória de quem amou e foi amado, numa serenidade comovente de quem está vencendo o bom combate que se aproxima do fim. Em Springsteen na Broadway, seu trabalho anterior, uma autobiografia contada através de algumas de suas canções mais significativas que virou um especial da Netflix e tem o álbum também disponível, Bruce retornou às ruas desertas da sua infância, reintegrando tudo que viveu, desde a complicada relação com o pai, todas as dificuldades vividas, as lutas recorrentes com a depressão, as batalhas da fé, com a religião católica, com o próprio Cristo, enfim, a quem se rendeu com um belíssimo Pai Nosso rezado ao fim do show. Pois Western Stars é o disco que veio depois desse acerto de contas, um disco de quem faz uma pausa na viagem, parando no acostamento no velho lugar de sempre para mirar não apenas o caminho percorrido, mas também as estrelas que voltaram a brilhar no céu. A perspectiva da sabedoria.

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Eis o presente que Bruce nos deu com este disco, convidando a pegar carona em sua viagem interior que nos fará, como o poeta, ouvir estrelas. Todas as vozes, todos os “eus” das canções, falam desde dentro de si, daquele centro da alma, daquela solidão inescapável em que raramente nos permitimos ficar, mas que, quando conseguimos pela carona tomada, transfiguramos em comunhão com a solidão de quem para lá nos levou e com quem mais lá estiver ou chegar. É só nesta solidão interior que somos de fato irmãos de sangue, amigos parceiros nessa viagem que é a vida. Só lá entendemos o que foi que prometemos como soldados na noite de inverno e descobrimos do que não aceitamos recuar, nem desistir, nem nos render.

Obrigado por isso, Bruce, muito obrigado.