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Estava aqui assistindo às entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos à Presidência e me perguntando há quanto tempo não assistia ao JN. Não lembro da última vez, provavelmente em 2022, e pela mesma razão eleitoral. Salvo a parte da entrevista, certamente não assisti ao restante, como agora.
Será que ainda existem famílias que param tudo para assistir ao Jornal Nacional? Era um horário sagrado. As crianças, proibidas de fazer o menor barulho, o volume da tevê era aumentado consideravelmente; os pais, hipnotizados. Duvido que exista, mas, se houver, espero que saia um Globo Repórter explicando como vivem, onde comem e o que fazem.
Piadinhas nostálgicas à parte, acho intrigante como o outrora mais relevante telejornal do país se deixou ficar encalacrado na tevê aberta. Comparado com o canal de notícias do mesmo grupo, a GloboNews, o JN mal produz os indispensáveis “cortes” para a internet. É por onde a maioria das pessoas se informa hoje, aposto.
Muitos especialistas acham decisivas essas entrevistas na Globo e principalmente o tradicional debate final na emissora. Já foram; hoje, sei lá…
Basta um breve passeio pelas redes sociais para perceber que a GloboNews rende cortes a rodo (contra si, é verdade, porque 90% é para falar mal da emissora), mas o Jornal Nacional é quase como se não existisse na internet. Curioso, não? Significaria que não precisaria das redes para se manter relevante?
Fui até conferir o histórico de audiência. Depois do auge na virada do século, chegando a dar mais de 40 pontos, agora orbita em torno de 22, 23, com raras exceções, como dizem ser o período de eleição presidencial. Mas, se isso fosse mesmo exceção, era para a audiência com as entrevistas atuais obter números melhores. E não estão tendo. Zema chegou a 24, Caiado menos, Renan Santos apenas 19 e Lula não chegou a 21, em dados ainda não consolidados.
Infelizmente, preciso entregar este texto antes das entrevistas com Flávio Bolsonaro e Augusto Cury, mas apostaria dinheiro que não trarão resultados melhores de audiência. Se algo rendem, é justamente nos tais cortes. Nem sequer havia terminado a entrevista com Lula e as redes estavam entulhadas desses recortes, especialmente a mentira deslavada dita por Lula de desconhecer a cuidadora das finanças do seu filho, sendo que existem diversas fotos de ambos juntos.
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Muitos especialistas acham decisivas essas entrevistas na Globo e principalmente o tradicional debate final na emissora. Já foram; hoje, sei lá… Se alguma relevância se mantém, é pelos cortes que são feitos, não por si. Creio que a maioria desses especialistas ainda analisam eleições dando peso desmedido ao que era mais decisivo no passado. A de 2018, que foi disruptiva nesse sentido, não parece ter ensinado muita coisa.
Os debates, aliás, estão se tornando completamente irrelevantes. São inúmeros os casos de candidatos que não têm participado dos atuais, em todos os estados e nas mais diversas emissoras de rádio, tevê e mesmo na internet. Se continuassem importantes, não valeria o risco da ausência. O horário eleitoral é outro que, se funciona, é apenas naqueles cortes curtos martelados durante o dia. Duvido que muita gente pare para assistir na televisão ao horário obrigatório, tendo tantas opções mais divertidas para se entreter e mesmo se informar a respeito das eleições.
Se a política brasileira já foi um grande romance épico assistido por todos em conjunto na sala de tevê, hoje ela está mais para uma sucessão de capítulos tragicômicos assistidos individualmente no banheiro. O horário sagrado não acabou, embora tenha se tornado segundos sagrados. Mas quem decide quando isso se dá já não são mais os donos da tevê.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




