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Os personagens Julia e Winston no filme 1984, baseado no livro de George Orwell.
Os personagens Julia e Winston no filme 1984, baseado no livro de George Orwell.| Foto: Divulgação

“Como deixar de ser refém dessa dinâmica de medo e ódio que nos sequestrou?”, perguntou-me um leitor da última coluna. Se formos considerar o que vai em 1984, de Orwell, isso seria possível? Pelo que disse o protagonista, Winston Smith, na frase que emprestei como título, não. O que restaria seria escolher uma derrota menor, como disse em seguida: “Alguns tipos de fracassos são melhores do que outros. Só isso.”

Quais tipos de fracassos temos na obra? Winston e Júlia, embora unidos como casal, representam tipos diferentes. Para Julia, o sexo (que era proibido) era a válvula de escape: “Quando você faz amor, está consumindo energia; depois se sente feliz e não dá a mínima para coisa nenhuma. E eles não toleram que você se sinta assim. Querem que você esteja estourando de energia o tempo todo. Toda essa história de marchar para cima e para baixo e ficar aclamando e agitando bandeiras não passa de sexo que azedou. Se você está feliz na própria pele, por que se excitar com esse negócio de Grande Irmão, Planos Trienais, Dois Minutos de Ódio e todo o resto da besteirada?”

Estar feliz na própria pele era tudo o que Júlia queria. Não pretendia derrubar o regime, preocupar-se com o apagamento do passado, como Winston, ou ter alguma perspectiva de futuro. Seu ato de rebeldia era uma espécie de carpe diem, aproveitar o dia quando conseguia escapar da realidade sufocante para assim se sentir feliz ao menos por alguns instantes. É a razão pela qual se aproximou de Winston e não desejava mais do que isso da relação deles, entediando-se facilmente com qualquer outra coisa e não se interessando pela realidade.

Quando passamos por uma situação “sem saída” na vida, quão fácil e até inevitável não é optar por essa fuga, por esse escape hedonista aliviando o sofrimento e nos distraindo do que se passa na realidade?

Mas o que acontece quando a fuga da realidade se torna a própria realidade? Winston nos respondeu: “Conversando com ela, ele percebeu como era fácil exibir um ar de ortodoxia sem fazer a menor ideia do que fosse ‘ortodoxia’. De certa maneira a visão de mundo do Partido era adotada com maior convicção entre as pessoas incapazes de entendê-la. Essas pessoas podiam ser levadas a acreditar nas violações mais flagrantes da realidade porque nunca entendiam por inteiro a enormidade do que se solicitava delas, e não estavam suficientemente interessadas nos acontecimentos públicos para perceber o que se passava. Graças ao fato de não entenderem, conservavam a saúde mental. Limitavam-se a engolir tudo, e o que engoliam não lhes fazia mal, porque não deixava nenhum resíduo, exatamente como um grão de milho passa pelo corpo de uma ave sem ser digerido”.

Não é preciso descrever mais o tipo de fracasso de Júlia, pois se torna apenas uma forma de aceitação e conformidade com o totalitarismo, não sendo, portanto, uma vitória sobre ele. Por outro lado, quando passamos por uma situação “sem saída” na vida, quão fácil e até inevitável não é optar por essa fuga, por esse escape hedonista aliviando o sofrimento e nos distraindo do que se passa na realidade? Quem aí, nesta pandemia, por várias vezes não se desligou do noticiário, do que estamos vivendo, escapando por algo que desse algum prazer fugidio qualquer, fosse bebida, jogos eletrônicos, lives de artistas, filmes, séries etc., numa tentativa epicúrea de tentar se distrair do medo e tentar conservar a sanidade mental? Isso nos ajuda a sobreviver, mas não a viver.

Winston, por sua vez, reconhecia que esse tipo de fracasso talvez fosse melhor do que outros, mas não conseguia se contentar com tão pouco. Seu processo de despertar do totalitarismo havia começado antes de conhecer Júlia, mas foi com ela que isso se tornou um princípio de libertação, de tentar escapar de fato, chegando a construir um refúgio para ambos que lhe fez muito bem: “O processo de viver deixara de ser intolerável, ele já não sentia o impulso de fazer caretas para a teletela ou de gritar insultos a plenos pulmões. Agora que possuíam um esconderijo seguro, quase um lar, nem parecia uma provação o fato de se verem só de vez em quando, e por um par de horas de cada vez. O importante era que o quartinho nos altos da loja existisse. Saber que estava lá, inviolado, era quase o mesmo que estar nele. O quarto era um mundo, um bolsão do passado onde animais extintos podiam se mover”.

Esse “bolsão do passado” simbolizava bem o desejo maior de Winston que era voltar a se sentir humano, a espécie em extinção que já havia perdido sua liberdade de se mover. Por isso mesmo ele tinha plena consciência de que o que vivia era algo temporário, que mais cedo ou mais tarde iria acabar por ser descoberto, o que significaria a sua morte. Como ele volta e meia repetia: “Nós somos os mortos”. E quanto antes aceitasse que sua tentativa de viver era antecipar sua morte, mais cedo se libertaria da tirania à custa de ser derrotado por ela, como de fato aconteceu no momento de maior esperança no livro, quando ele e Júlia observavam uma “proleta” pendurando roupas no varal do quintal, ambos invejando sua liberdade impotente.

Orwell, embora tenha sido um denunciador do totalitarismo comunista, nunca deixou de ser um homem de esquerda, acreditando ainda no ideário marxista de que a salvação viria pelos proletários, e é este o sentido de vida que fornece aos seus personagens: “Onde há igualdade pode haver sanidade mental. Mais cedo ou mais tarde aconteceria: a força se transformaria em consciência. Os proletas eram imortais; não havia como duvidar disso diante daquela figura destemida no quintal. Algum dia eles despertariam. (...) Winston e Júlia eram os mortos; o futuro pertenceria aos proletas. Mas poderiam compartilhar desse futuro se mantivessem viva a mente como mantinham vivo o corpo, e desde que passassem adiante a doutrina secreta de que dois e dois são quatro”.

Ou seja, em 1984 não havia como deixar de ser refém da dinâmica de medo e ódio que dominava os personagens, mas, ao manter viva a mente, como mantinham vivo o corpo nos seus encontros sexuais, os personagens dariam um sentido ao sofrimento, o que significaria dar sentido à vida. Entretanto, dessa resposta encontrada nasce nova pergunta: como manter viva a mente? Teria o romance esta resposta? Talvez, mas a isso retorno na próxima coluna.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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