– “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.”
– Sabia que isso daí não é do Maiakovski?
– Não?!
– Não, é de um brasileiro; Eduardo alguma coisa, não lembro o sobrenome.
– Tem uma foto da minha mãe em uma manifestação pelas “Diretas Já” usando uma camiseta com esse poema.
– Ele ficou famoso pela ditadura, dessa covardia que calou tantos antes que fossem calados pela censura.
Hoje todos dizem tudo. A internet deu um megafone pra cada um mesmo. Ninguém fica em silêncio
– Baita poema, não?
– É uma carta passável, não mais do que isso. Tanto que se você ler em prosa fica melhor do que em verso.
– Acho que estamos repetindo a história. Estamos na fase da flor roubada, talvez do cão morto.
– Com a diferença de que hoje todos dizem tudo. A internet deu um megafone pra cada um mesmo. Ninguém fica em silêncio.
– Será?
– Se roubarem tua flor, você não postaria algo em alguma rede social?
– Sim.
– Imagine, então, se matarem o teu cão.
– É. Mas não acho isso ruim.
– Talvez, mas se é assim o poema não se aplica mais. Nosso problema seria outro.
– Não sei se entendi.
– É uma Babel virtual, todos cheios de intensidade apaixonada, até os bons sem convicção se tornam furiosos virtualmente.
– Babel? Mas não tem a ver com Deus aqui.
– Você não conhece a história de Babel, né?
– Por cima.
– Pesquise.
Todo mundo acha menos pior ser o sujeito covarde do poema que demora a tomar uma atitude contra o mal. Mas a verdade é que nosso comportamento atual está mais para quem pisa nas flores mesmo
– Você acha inútil dizer as coisas, reclamar, botar a boca no trombone?
– Todo mundo acha menos pior ser o sujeito covarde do poema que demora a tomar uma atitude contra o mal do que aqueles que roubam as flores. Mas a verdade é que nosso comportamento atual está mais para quem pisa nas flores mesmo. Me pergunto quando começaremos a matar os cães também.
– Eu jamais faria isso.
– Faria, todos faríamos. Ou você acha que na Alemanha nazista os alemães eram todos maus?
– Acho que não, não sei.
– Assista a um filme chamado Um homem bom, com o Viggo Mortensen. Aliás, o diretor é brasileiro, Vicente Amorim. Conta a história de um professor universitário cujas pesquisas serviriam para construírem a câmara de gás. Durante o filme, nos momentos mais decisivos para ele, em que tinha de escolher se aceitaria ajudar o governo, aparecem uns músicos tocando que só ele vê e escuta. É um símbolo da sua consciência moral, alertando do erro de aceitar. Mas ele aceita, sem se dar conta de que isso o transformava, pouco a pouco, num monstro, mesmo sem intenção maldosa no que fazia. Até o fim ele se considerava um homem bom.
– É a banalidade do mal que aquela filósofa lá falava, né?
– Acho que ainda não, a banalidade viria depois.
– Não sei se entendi seu ponto, sinceramente.
Os cafés chegaram. Alguns instantes de silêncio. O suficiente para o som da tevê ligada invadir a conversa: “Por que uma menina é obrigada a ter um filho de um cara que estuprou ela? Que monstro vai sair do ventre dessa menina?”
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