| Foto: Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/Mike_68-10359383/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3979601">Michael Kleinsasser</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3979601">Pixabay</a>
Ouça este conteúdo

Semana passada circularam vídeos de italianos dançando pelas ruas celebrando o começo do retorno de uma vida mais normal por lá. O que vi era de Milão, com a turma bailando à luz do dia pelas vias e calçadas ao som de Sweet Dreams (Are Made Of This), do Eurythmics. O que me fez lembrar de Paris É Uma Festa, de Hemingway. Já leu, leitor ansioso por poder dançar pelas ruas?

CARREGANDO :)

Não se trata de um romance, mas de um livro de memórias da juventude. Hemingway o escreveu na velhice, pouco antes de se matar, e só foi publicado postumamente. Quis com o livro “retratar a Paris dos meus primeiros tempos, quando éramos muito pobres e muito felizes”. Trata-se da década de 1920, os chamados “loucos anos 20” e que, pelo visto, têm muito a nos ensinar para encararmos os novos anos 20 em que mal entramos e já podemos afirmar: serão loucos, mas muito loucos.

Imagine comigo. A humanidade entrou na primeira guerra mundial, em 1914, mais como quem parecia participar das Olimpíadas do que passar por um matadouro. Ninguém achava que seria tão terrível no começo, tampouco que levaria tanto tempo para acabar. Mas foi pior e mais demorado do que jamais foram capazes de imaginar. Para completar, em 1918 veio a pandemia de Gripe Espanhola, dizimando um número estimado entre 17 e 50 milhões de pessoas. Durou dois anos, terminando apenas em 1920.

Publicidade

Continue imaginando comigo. Depois de seis anos devastadores assim, precisaria de mais algum motivo para ficar alegre além do fato de tudo isso ter apenas acabado? E muito dos anos 1920 foi isso: uma celebração sem precisar de motivo nem tendo hora para acabar. Paris foi, como em outras épocas, o palco principal dessa festa. O título original da obra de Hemingway, A Moveable Feast, traduzido literalmente, significa justamente isso, que a cidade era uma “festa móvel”. Por onde quer que se andasse era como se alguma festa estivesse acontecendo ou começando pelo simples fato de você chegar ali.

O filme de maior bilheteria de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, retrata esse mesmo período, inspirando-se nesse livro de Hemingway. Em dois momentos os personagens citam o título do livro, inclusive. Recomendo ler antes e assistir depois. O livro torna os personagens do filme mais próximos do espectador, o qual, por sua vez, permite vivenciar melhor aquela atmosfera festiva dos anos 20, o que não deixa de ser um respiro neste momento, para quem ainda não pode (ainda) dançar nas ruas para comemorar que, ao menos, o surto no seu país está passando.

Mas tanto o filme quanto o livro são recomendados por muito mais do que isso. O filme porque é um remédio para quem acha que tentar escapar de um presente doloroso seria uma solução. Não é, e a nostalgia vivida pelo protagonista ao menos serve para que se conscientize que seu presente é outro e que não encará-lo não é uma alternativa, terminando por mudar o que precisava mudar em sua vida vazia de sentido. E é aqui, nesse vazio de sentido, que temos de voltar à obra de Hemingway. Ele, tal como tantos outros, lutou na primeira guerra e o que resultou dela não foi, em verdade, esperança de um futuro melhor, mas um gigantesco vazio: “Já sabia, então, que qualquer coisa - boa ou má - deixa um vazio quando acaba. Se era má, o vazio se enche por si mesmo.”

E esse encher o vazio por si mesmo é o que Hemingway vai relatando com sua vida diária de trabalho e relacionamentos, na leveza e alegria de situações aparentemente banais, como uma conversa num bistrô, uma caminhada pela cidade, um piquenique no hipódromo, uma viagem com um amigo. É por isso que a leitura desse livro é preciosa neste período de quarentena. Porque nos ajudará não só a reconhecer quanto valor, e portanto sentido, há em poder simplesmente voltar a viver o que antes parecia banal, como conversar num bar com amigos, caminhar pelos parques, fazer compras num shopping, mas também no quanto essas mesmas coisas podem estar, ou estavam, apenas preenchendo um grande vazio. E é nesse vazio, creia, que os ovos da serpente são chocados. Que serpente? A do totalitarismo que naquela década de 1920 já havia nascido na Rússia e estava começando a quebrar a casca do ovo na Alemanha, enquanto Paris era uma festa. Mas para esta coluna não se estender demais, retorno ao assunto na semana que vem.