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Taylor Swift em cena de documentário sobre a gravação de seu álbum folklore.
Taylor Swift em cena de documentário sobre a gravação de seu álbum folklore.| Foto: Divulgação

“Porque se nós teremos de recalibrar tudo, devemos começar pelo que mais amamos. E acho que foi isso, inconscientemente, que fizemos”, disse Taylor Swift no documentário folklore: sessões no long pond studio, disponível na Disney+, que trata da criação do seu oitavo álbum de estúdio composto e gravado durante o isolamento social de 2020, intitulado folklore.

As dificuldades causadas pelo isolamento a obrigaram a deixar de lado não só a parafernália barulhenta da música pop, mas também o entretenimento descartável típico do gênero, encontrando no indie e folk formas mais condizentes para retratar o momento e expressar sua vivência, resultando em canções intimistas e perenes, algo tão diverso do esperado que temia sua gravadora se recusasse a aceitar, o que ainda bem não aconteceu. Como canta nos primeiros versos da primeira música, The 1: “Eu estou bem, estou tentando coisas novas. Ando dizendo ‘sim’ em vez de ‘não’”.

Não que a temática juvenil, com letras repetitivas sobre amores desfeitos ou mal vividos, tenha desaparecido. A maioria das canções mantém-se neste tema, mas com uma diferença decisiva. Até aqui, suas letras falavam basicamente de si, quase como num diário de adolescente chorando as pitangas dos amores fracassados. No novo disco, permitiu-se contar histórias que não são suas, mas criadas pelo desabrochar da ótima compositora que não fica atrás, em talento, da cantora afinadíssima que também é.

Por mais preparados e conscientes que estejamos, certas situações recusamos imaginar de tão terríveis, até vivê-las, e por isso depois são impossíveis de expressar quando terminam

Isso fica mais evidente nas músicas que tratam de outros temas, como Epiphany, com ela mesmo dizendo no documentário que nunca havia feito algo assim antes. À época pesquisava sobre a participação de seu avô na Segunda Guerra Mundial, especialmente na bárbara batalha de Guadalcanal, sobre cujos horrores vividos o avô jamais disse uma palavra. Swift tentou se colocar imaginativamente nesta posição de viver algo tão terrível que não conseguiria sequer falar a respeito; foi quando se deu conta de que a pandemia estava causando traumas semelhantes para tantas pessoas e famílias, especialmente profissionais de saúde atendendo em hospitais.

O horror sendo vivido nesta semana em Manaus, com pacientes morrendo asfixiados porque acabou o oxigênio nos hospitais, serve aqui de exemplo perfeito para entender do que Swift está falando, do quanto, por mais preparados e conscientes que estejamos, certas situações recusamos imaginar de tão terríveis, até vivê-las, e por isso depois são impossíveis de expressar quando terminam. Em Epiphany, ela uniu a história do avô à epopeia de impotência dos médicos durante a pandemia, ao que se amalgamou também a sua própria experiência, que também é a de todos nós até aqui, diante do que está acontecendo: “Mas você sonha com alguma epifania / Apenas um único vislumbre de alívio / Para entender o que você viu”.

A que distância estamos da adolescente chorando pelo ex da vez, não? Aqui estamos diante de alguém que, da experiência do isolamento social e intimidade maior com sua vocação, amadureceu como artista, conseguindo expressar algo universal da condição humana a partir da sua circunstância individual para muito além do solipsismo mimado. Maturidade que se revela na ironia do primeiro verso da música bônus do disco, The Lakes: “É romântico como todas as minhas elegias me elogiam?”

Era para o disco encerrar com a tristeza de Hoax, com Taylor cantando: “Fiquei de pé na falésia gritando: Me dê uma razão. Seu amor infiel é a única farsa em que acredito. Não quero nenhum outro tom de azul além de você. Nenhuma outra tristeza no mundo serviria”. Mas depois de algumas semanas percebeu que o disco precisava terminar diferente, daí a escolha por The Lakes, considerada pela compositora como “um testamento do que eu queria fugir e para onde me vi fugindo”.

Esse lugar era Lake District, na Inglaterra, lugar onde poetas como Keats e Wordsworth se refugiavam do mundo para escrever. Ela conheceu o lugar e, visitando o túmulo de Wordsworth, entendeu perfeitamente o poeta, que aquilo que parecia fuga da realidade para os outros era, na verdade, o encontro da verdadeira realidade sobre a qual os poetas escreviam. Era a fuga para um encontro. E, na impossibilidade de ir fisicamente para lá, decidiu tentar interiormente, levada pela Musa, como canta na esperançosa The Lakes: “Leve-me para os lagos onde todos os poetas foram morrer. Eu não pertenço. E, meu amado, nem você. Aqueles picos de Windermere parecem um lugar perfeito para chorar. Estou partindo, mas não sem minha musa”. E ela realmente foi.

Não por acaso Swift não conseguiu parar de compor depois de terminar o disco e, no encontro com seus colaboradores no álbum, Jack Antonoff e Aaron Dessner (The National), para gravar o documentário, compuseram várias outras canções que se tornaram outro álbum, lançado em dezembro último, chamado significativamente Evermore, “Sempre”.

Nestes álbuns, com essas músicas, Taylor Swift abriu fendas de luz nas quais os ouvintes também podem fazer uma pausa de tanto sofrimento, tanta loucura, tanta tragédia, tanta estupidez à nossa volta, inclusive a nossa, que vem nos desumanizando a cada dia um pouco mais

As letras aqui me parecem mais maduras, mais bem acabadas e encaixadas com a parte musical, com Taylor Swift levando o ouvinte para o interior de sua intimidade, ainda um templo cheio de ecos amorosos celebrando o que poderia ser, mas não foi, como na triste Tolerate It: “Eu fiz de você meu templo, meu mural, meu céu. Agora estou implorando por notas de rodapé na história da sua vida. Desenhando corações na assinatura. Sempre ocupando espaço ou tempo demais. (...) Eu sei que meu amor deveria ser celebrado, mas você o tolera”.

Mas é justamente pelo despertar interior da verdadeira vocação que o vazio desse templo interior começa a ser preenchido, como raios de sol entrando pelas vidraças. Em Happiness, a tristeza desse templo vazio é ainda mais nítido, aos poucos sendo preenchidos pela melodia de notas singelas do piano, depois acompanhados num crescendo com um arranjo de cordas, enquanto ela canta: “Haverá felicidade depois de você. Mas houve felicidade por sua causa. Ambas as coisas podem ser verdadeiras. Existe felicidade”.

Existe felicidade. O templo foi preenchido de vida, onde nem o que morreu permanece morto. Como na serena e luminosa Marjorie, homenagem a sua avó, que foi cantora de ópera e grande inspiração para Taylor, cujo videoclipe vale assistir, com fotos e vídeos dela bebê e da avó jovem, que veio a falecer quando Taylor tinha 13 anos: “Eu devia ter te feito perguntas. Eu devia ter te perguntado como ser. Pedido para você escrever para mim. Devia ter guardado todos os recibos de mercearia. Porque cada pedaço seu seria tirado de mim. Assistido enquanto você assinava seu nome, Marjorie. Todos os seus armários de sonhos acumulados e como você deixou todos eles para mim. O que morreu não permaneceu morto. O que morreu não permaneceu morto. Você está viva, você está viva na minha mente”.

No lançamento de Evermore, Taylor disse que: “Com este [disco] sinto algo como uma calma conclusão e uma estranha serenidade advinda de que fizemos o que queríamos ter feito e estamos realmente orgulhosos disso, e isso é uma sensação muito, muito boa.” Estranha serenidade é o que define a última música (foram lançadas duas faixas bônus depois), que leva também o título dado ao disco, em que canta: “E quando naufraguei (não consigo pensar em todo o custo) / Eu pensei em você (e nas coisas que serão perdidas) / Nas fendas da luz (podemos apenas fazer uma pausa?) / Eu sonhei com você (para garantir que vamos ficar bem novamente)”.

Fazer uma pausa nas fendas da luz... Não é isso o que Taylor fez nestes álbuns, com essas músicas? Abriu fendas de luz nas quais os ouvintes também podem fazer uma pausa de tanto sofrimento, tanta loucura, tanta tragédia, tanta estupidez à nossa volta, inclusive a nossa, que vem nos desumanizando a cada dia um pouco mais? Escutar essas canções é acompanhar Taylor para os lagos de seu refúgio imaginativo, escapando por algum tempo da realidade insuportável do lado de fora, para encontrar na vida interior as nossas fendas de luz que consolam e devolvem a esperança, dando significado ao sofrimento, recalibrando nosso amor.

E se ali permanecermos, aí onde mora nosso coração, poderemos escutar os passos do poeta Wordsworth caminhando em torno do lago, recitando um trecho de seu famoso poema A Ceifeira Solitária, como se respondesse, e de fato respondendo, a Taylor Swift, que ela tem razão, que o que morreu não permanece morto, mas vivo. Sem falar, quieto, siga nesta pausa de toda essa loucura e escute:

Quem me dirá do que canta?
Será que o que ela deplora
é antigo, triste e distante,
como batalhas de outrora?
Ou coisas simples são
do quotidiano viver?
Essas dores de coração,
que já foram e hão-de ser?

Seja o que for que cantara
é como infindo cantar,
que a vi cantando na seara,
no trabalho de ceifar.
Sem falar, quieto, eu escutava
e, quando o monte subia,
no coração transportava
o canto que não se ouvia.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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