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A guerra contra os fracos
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Por um complexo, trágico e até compreensível percurso histórico — e, por favor, compressível aqui não significa moralmente justificável —, o termo “eugenia” vem sempre associado com os ideais e métodos médico-políticos que foram adotados e amplamente praticados pelos nazistas. De fato, a tribo de Hitler deve ser responsabilizada pela engenharia de destruição de milhares de pessoas que foram jogadas em campos de extermínio para morrerem como dejetos. Porém, o que os nazistas fizeram não foi nada mais nada menos do que levar às últimas consequências lógicas ideias eugênicas que eles emprestaram de teóricos e cientistas ocidentais.

A eugenia moderna, como demonstrou Edwin Black em seu volumoso livro A guerra contra os fracos, não foi inventada por Hitler e pelos nazistas. Os ideais científicos eugênicos foram amplamente difundidos por médicos e ativistas americanos e ingleses e ainda hoje são defendidos por pessoas cientificamente dispostas a desumanizar pessoas em nome da realização de uma vida saudável e perfeita. Não precisamos ser nazistas para sermos espirituosamente eugênicos. O nazismo foi apenas uma “bem-sucedida” (com o perdão do termo) máquina de matar aquilo que maculava o povo e, segundo eles, impedia o desenvolvimento saudável, econômico e estético, de uma grande nação.

Como explicou recentemente Jean-Louis Vullierme em Espelho do Ocidente — o nazismo e a civilização ocidental (Record, 2019), nenhuma das ideias de supremacia racial científica recepcionadas pelos nazistas era inédita, pois “uma longa tradição de supremacismo racial se desenvolvera desde pelo menos Arthur de Gobineau (que não era antissemita), ratificada e popularizada por Houston Chamberlain, um autor introduzido por Guilherme II, seu discípulo, nos manuais escolares”. Vullierme não tem dificuldade de demonstrar que a eugenia moderna remonta a pelo menos o primo de Darwin, Francis Galton, e como se desenvolveu nos EUA com Madison Grant, autor de O desaparecimento da grande raça ou as bases raciais da história europeia.

De qualquer forma, vale ressaltar que hoje em dia acusar alguém de defensor de eugenia só causa um certo desconforto em virtude do que fora perpetrado pelos nazistas. Em outras palavras, eugenia nazista está associada ao antissemitismo e às pilhas de mortos produzidas pela sofisticada logística dos campos de extermínio. Como nazismo significa regime político totalitário que, por meio de uma variedade de técnicas eugênicas, instaurou o mal absoluto ao buscar o espaço vital para a autodeterminação da raça nórdica, ninguém em sã consciência quer ser associado ao nazismo. Por isso existe uma grande dificuldade de denunciar ideias eugênicas sem cair na Lei de Goldwin.

De fato, há uma distância considerável entre ser nazista e defender práticas eugênicas. Agora, a mentalidade eugenista médico-político, não necessariamente nazista, seria inconcebível sem as características que Vullierme chamou de “anempatismo” de “acivilismo”, cujo subproduto não precisa ser exatamente um campo de concentração.

Para ser considerado um nazista redondamente perfeito, ainda segundo Vullierme, seria necessária a seguinte combinação: supremacismo racial, eugenismo, nacionalismo, antissemitismo, propagandismo, militarismo, burocratismo, autoritarismo, antiparlamentarismo, positivismo jurídico, messianismo político, colonialismo , terrorismo de Estado, populismo, juvenilismo, historicismo, escravismo, anempatismo e acivilismo.

Sendo assim, podemos ficar tranquilos ao olharmos no espelho, porque não vamos nos deparar com um bigodinho esquisito crescendo. O problema, portanto, não é exatamente fazer a famosa saudação com a mão, balançar a bandeirinha vermelha em grandes comícios, formar organização paramilitar uniformizada com belos coturnos e marcha flamingo, tatuar uma suástica no peito e bradar “Deutschland, Deutschland über alles”, nada disso, pois o problema é desenvolver aquele caráter anempático de desprezo aos fracos, velhos e doentes.

Resumindo: o anempatismo é essencial ao extermínio, pois é ele que designará “a instalação de um sentimento necessário de distância absoluta em relação ao outro”.

Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz e autor de É isto um homem —um dos livros mais marcantes que já li e reli na vida —, explica o peso desse movimento lógico que visa, acima de tudo, limpar os dejetos da sociedade Ele descreve do ponto de vista de quem viveu na própria carne o processo de desumanização anempática.

Ele escreve: Muitos, pessoas e povos, podem chegar a pensar, conscientemente ou não, que ‘cada estrangeiro é um inimigo’. Em geral, essa convicção jaz no fundo das almas como uma infecção latente; manifesta-se apenas em ações esporádicas e não coordenadas; não fica na origem de um sistema de pensamento. Quando isso acontece, porém, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, como último elo da corrente, está o Campo de Extermínio. Este é o produto de uma concepção do mundo levada às últimas consequências com uma lógica rigorosa.

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