Não cabe a governos determinarem que é a verdade e o que é o amor. Isso não representa democracia, mas autoritarismo. Governos autoritários são conhecidos por tratarem o assunto da verdade como problema de governo. Tirania do amor e da verdade não deixa de ser uma tirania. Na verdade, é o contrário: toda tirania precisa de um discurso a respeito do quanto ama e do quanto diz a verdade.
A respeito deste assunto, trago comigo uma reflexão do filósofo Ralf Dahrendorf, em seu livro A Nova Liberdade:
“Não há maior perigo para a liberdade humana do que o dogma político, o monopólio de um único grupo, de uma ideologia, de um sistema [...]. Se queremos seguir em frente, melhorar a nós mesmos e às condições em que homens e mulheres vivem neste planeta, temos de aceitar a perspectiva desorganizadora, antagonista, incômoda, mas orgulhosa e estimulante de horizontes abertos.”
Não sou relativista. Isso significa que defendo a possibilidade de conhecermos a verdade dos fatos e, mais do que isso, também somos capazes de compreender os fundamentos da realidade. É um esforço constante da liberdade. Porém, um esforço que deve ficar longe de partidos políticos e governos. Quando Dahrendorf diz que o maior perigo para a liberdade humana é o dogma político, ele se refere a isso.
Governos representam uma facção da verdade. Quando falam em nome da verdade e do amor, governos passam a ser tiranias
Política de governo é, por definição, partidária. Por ser partidária, necessariamente representa um viés da realidade, não o todo. Por mais que um governo esteja no poder, o poder de um governo deve ser sempre tratado como provisório e limitado. A relação com parte da sociedade consiste numa relação de antagonismos e limites.
Democracia funciona em virtude do conflito social de ideias, ideais e interesses. Ou seja, de uma pluralidade de perspectivas acerca de questões referentes à administração pública, mas também da possibilidade de cada indivíduo e grupo de indivíduos buscar intimamente a verdade e ser corrigido no ambiente da discussão pública. Governos representam uma facção da verdade. Quando falam em nome da verdade e do amor, governos passam a ser tiranias.
Em vista disso, criamos uma estrutura política para colocar limites nas ações de quem manda. O poder precisa ser limitado. O poder político não pode determinar o que é a verdade, pois será sempre um ato dogmático e limitador do questionamento social. Como diz Dahrendorf, essa é uma condição incômoda e para todos os seres humanos. Diferentemente das tiranias, a boa política é a arte de administrar as incertezas.
Infelizmente, vivemos numa era de muitas certezas e dogmatismos políticos. Reafirmo: não sou relativista e acredito na capacidade humana de compreender a verdade das coisas. Meu problema é com uma facção política assumir para si a tarefa de dizer o que é ou não verdadeiro. Dou um exemplo: a nova campanha do governo federal contra fake news. Não sou a favor da disseminação de notícias falsas. Entretanto, sou contra, por princípio, que um governo – seja qual for – assuma a tarefa de ser o agente do “combate da desinformação”. No vídeo campanha, o texto alega o seguinte:
“O Brasil não suporta mais o ódio, a intolerância e a violência, alimentados todos os dias pelas notícias falsas compartilhadas nas redes sociais e mensagens por celular. Esta campanha é um chamado a cada brasileiro, para que reflita sobre os efeitos destrutivos das fake news nas famílias, na sociedade e no país. Vamos mudar essa história. É hora de checar as notícias e suas fontes e de combater a disseminação de notícias falsas; de promover o respeito, a democracia, a união e a reconstrução.”
Na prática, essa campanha do governo federal está alegando o seguinte: se você criticar o governo federal petista, você espalha ódio, intolerância e violência
Aparentemente parece tudo muito correto e muito bonito. Contudo, o problema semântico está aqui: “O Brasil não suporta mais o ódio, a intolerância e a violência”. Do ponto de vista democrático, não existe o Brasil. Politicamente, existem brasileiros. Cada um pensa diferente sobre uma infinidade de assuntos. Em termos ideológicos, o governo não representa o Brasil, mas um determinado grupo que administra, provisoriamente, e a partir de seus interesses, uma parte – o poder Executivo – do Estado. O Brasil não é o Estado e nem o todo da sociedade.
Quem diz que o Brasil não suporta mais o ódio, a intolerância e a violência não é o Brasil, que não existe politicamente, mas a própria facção chamada governo. No caso, o governo petista. Nesse sentido, trata-se de uma facção ideológica determinando não só o que é a verdade, mas o que é o amor. Na prática, essa campanha está alegando o seguinte: se você criticar o governo federal petista, você espalha ódio, intolerância e violência. Não se trata de uma campanha contra fake news, mas de uma campanha contra críticos do governo.
Com STF politizado, fugas de réus da direita se tornam mais frequentes
Empresas de parentes de Toffoli tiveram fundo ligado a fraudes do Master como sócio, diz jornal
Número de mortos em protestos no Irã passa de 500, diz ONG
Estatais batem recorde na Lei Rouanet enquanto contas públicas fecham no vermelho