Detalhe de A moeda do imposto, atribuído a um aluno de Guercino.| Foto: Reprodução
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A Verdade e a política não se misturam, ou pelo menos não deveriam se misturar. A César o que é de César... e embora minha fé cristã não seja mística o suficiente para eu me retirar, com a força da oração, do jejum e da Graça de Nosso Senhor Jesus, completamente do mundo e mergulhar no deserto do meu castelo interior, acredito que este seja um princípio teológico político incontornável depois da revelação cristã: A Deus o que é de Deus.

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Digo que não se misturam principalmente no nível em que o arranjo político moderno foi desenhado, sobretudo: de um lado, indivíduos disputando seus interesses pessoais; doutro, sociedade civil como expressão coletiva desses interesses em disputas; por fim, indivíduo e sociedade mediados pelo Estado como a instituição guardiã do legítimo uso da violência que poderá ser adotada para garantir a segurança dos indivíduos e a estabilidade desse arranjo.

A Verdade deveria circular só e somente só entre indivíduos e sociedade civil. O pluralismo é uma realidade cultural irredutível. Não que eu concorde totalmente com a frase, mas a ideia de que “não há fatos, só interpretações” segue desafiadora tanto para teóricos do conhecimento como para moralistas. Então, pergunto: como em uma sociedade pluralista é possível encontrar uma verdade comum para o pacífico convívio humano?

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A fome de Verdade não pode ser confundida com a necessidade de poder político de alguns, fascinados com o mito fundador de uma nova sociedade

O afeto tem sido a aposta dos identitários; o individualismo, dos liberais; o fim da sociedade capitalista, para os socialistas; e por aí vai. Todas elas são narrativas discursivas que estão aí criando suas imagens e expectativas para um mundo melhor, mais livre e justo.

Em resumo, voltando ao tópico: a Verdade – reparem que estou usando “v” maiúsculo – não deveria ser um problema do e para o Estado. Exceto faraós e simpatizantes, nenhum político que ocupe cargos públicos, e represente a parte ou o todo desse poder soberano, deveria falar – ou pelo menos deveria tentar lutar contra a tentação de falar – em nome da Verdade.

Obviamente estou me referindo aqui à Verdade no sentido de um mistério último, com majestático, glorioso e rococó “v” maiúsculo. Esta “verdade”, para crentes e não crentes, significa o seguinte: única, inequívoca, absoluta e universal. Eu, piedoso que sou, acredito na verdade absoluta, última e universal. Está lá em Deus, o Altíssimo. E o Estado não encarna essa Verdade. Nenhum político, para ser preciso, tem autoridade para falar como se fosse o representante desta Verdade na terra, exceto, obviamente, o papa – para os católicos.

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Entretanto, com relação à experiência política, simpatizo mesmo é com os céticos. Só há uma verdade para o político: aquela que se expressa na Constituição, que, claro, deve se sustentar em princípios anteriores ao próprio exercício político. Explico: algum princípio constitucional – não ouso aqui dizer qual – não pode ser criado ou desfeito por meros acordos e negociações políticas.

Alguns chamam de “direito natural”; outros, de “direito universal”; mas isso pouco importa. O importante é que esse tipo de princípio seja dado (ou conquistado) à própria racionalidade humana. E, se é uma verdade universal, não pode ser um dogma político. Em suma: defendo a tese de que a política se fundamenta na justiça e não o contrário.

O filósofo alemão Ralf Dahrendorf, em Reflexões Sobre a Revolução na Europa, traz uma boa reflexão acerca do problema:

Não há maior perigo para a liberdade humana do que o dogma político, o monopólio de um único grupo, de uma ideologia, de um sistema [...]. Se queremos seguir em frente, melhorar a nós mesmos e às condições em que homens e mulheres vivem neste planeta, temos que aceitar a perspectiva desorganizadora, antagonista, incômoda, mas orgulhosa e estimulante de horizontes abertos.

O que ele quer dizer com isso pode ser expresso da seguinte maneira: o dogma da verdade política é perigoso. Sistemas ideológicos devem circular entre as pessoas na medida em que estão sujeitos à investigação crítica, abertos ao questionamento. A fome de Verdade não pode ser confundida com a necessidade de poder político de alguns, fascinados com o mito fundador de uma nova sociedade.

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Se a grande Verdade com o majestático “v” maiúsculo existe, se faz sentido buscá-la (e eu acredito que sim), então que seja no piedoso ato de fé consagrado pela Graça de Deus fora dos muros do poder político.