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Massachusetts derrubou este mês o prazo para o aborto: caiu o limite de 24 semanas; a decisão passou ao julgamento do médico – em qualquer semana. É o décimo estado norte-americano a abrir mão de prazo. Até 2022 valia para todos os Estados Unidos a jurisprudência de Roe v. Wade, o famoso julgamento de 1973 em que a Suprema Corte americana tratou o aborto como matéria constitucional e tirou o assunto das mãos dos legisladores. Quando a Suprema Corte derrubou o próprio precedente, a discussão voltou às assembleias estaduais, aos pedaços.
Li a notícia e fiz contas antes de rezar. Quantos por ano, quanto isso pesa na pirâmide etária de um país que já não repõe a própria população. Levei um tempo constrangedor para ver o que estava fazendo: o sujeito que gastou um livro inteiro sustentando que o embrião é pessoa desde a concepção acabara de avaliá-lo pela contribuição previdenciária futura. Que horror, tornei-me um utilitarista. Minto, caro leitor. Nada disso passou perto da consciência, resolvida nesse assunto há muito tempo. Foi vício de polemista.
Afinal, a tentação é forte porque a conta funciona. Ela circula, ela rende, ela cala o interlocutor. E perde a discussão antes de chegar ao número.
O caso mais puro continua sendo o de Chelsea Clinton, filha de Bill e Hillary. Num comício contra a indicação de Brett Kavanaugh por Donald Trump à Suprema Corte, ela disse que a entrada das americanas no mercado de trabalho entre 1970 e 2009 teria gerado US$ 3,5 trilhões à economia. Aquilo, emendou, “não é um fato desconectado” de Roe. Antes de chegar ao número, era preciso esperar que as pessoas se importassem com “a dignidade de fazer as próprias escolhas”.
Há um teste para saber o que um argumento econômico faz dentro de uma discussão moral. Pergunte a quem o usa se mudaria de posição caso a conta desse ao contrário
O número é real. Ela o citou corretamente. Um relatório da consultoria McKinsey atribui às quase 38 milhões de mulheres que entraram no mercado naquelas quatro décadas cerca de um quarto do PIB americano. É por ter lido direito que o argumento desmorona. A série começa três anos antes de Roe. O relatório trata de carreira feminina dentro de empresas sem mencionar aborto uma única vez.
Repare na palavra que ela usou primeiro. Dignidade, em Kant e na Constituição que o copiou, tem sentido técnico e inconveniente: no reino dos fins, tudo tem ou preço ou dignidade. O que tem preço se troca por outra coisa do mesmo valor. O que tem dignidade não se troca. Ela invocou a palavra e, no mesmo respiro, ofereceu a cotação.
Há um teste para saber o que um argumento econômico faz dentro de uma discussão moral. Pergunte a quem o usa se mudaria de posição caso a conta desse ao contrário. Se mudaria, acredita na conta; a discussão agora é de contabilidade. Se não mudaria, não acredita e entregou ao público um critério que ele próprio não usa. Ela responde pela segunda hipótese na mesma frase em que oferece o trilhão: se aquilo não bastar para persuadir, espera que os outros argumentos bastem. Como disse, não sou utilitarista. Portanto, não caio nessa.
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Porém, o teste vale para mim. Logo, não vou terminar em público a conta que comecei sozinho: quanto os que não nasceram teriam produzido, quanto pagariam da Previdência que me espera. Não porque o número seja pequeno: deve ser monstruoso. Sigo contra o aborto.
A cena que resume tudo é de 2022, numa audiência do Senado, dias depois de vazar o rascunho que derrubaria Roe. Janet Yellen, secretária do Tesouro de Joe Biden, disse que eliminar o direito de decidir sobre ter filhos teria efeitos muito danosos sobre a economia. O senador republicano Tim Scott não contestou o número. Contestou o lugar de onde era dito, que lhe soava insensível. Acrescentou que fora criado por uma mulher negra na miséria absoluta. Estava ali, senador dos Estados Unidos. Yellen respondeu: “Isto não é duro. Isto é a verdade”.
Numa conta sobre epidemia, os que morreram entram na coluna das perdas. Naquela, os que não nasceram entravam na das economias. Ele era um deles e falava ao microfone. A escolha do sinal foi feita antes da conta. É ela que a conta esconde.
Uma vida humana não cabe em uma planilha ao lado do PIB e do rombo da Previdência
Volto a Massachusetts. Defendeu-se a lei com o caso de uma mulher de 33 semanas que soube de um acidente vascular no feto e ouviu que poderia interromper, se tivesse como viajar. A angústia é real. Nada nela altera o que a lei fez. A lei reconhecia um fato numerável sobre quem estava ali: as semanas. Passou a reconhecer o juízo de um terceiro sobre a situação dele. O valor continua onde sempre esteve. O que saiu da lei foi a obrigação de contá-lo.
Esse repertório chega aqui traduzido.
Guardei a minha conta. Era boa, teria rendido. Só que, para usá-la, eu precisaria admitir que aquilo de que falo cabe numa planilha ao lado do PIB e do rombo da Previdência. Não cabe. É pouco para uma coluna inteira. É tudo o que tenho e não abro não do que me resta de consciência.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Razzo é professor e mestre em Filosofia. Autor de “Contra o Aborto” e “A Imaginação Totalitária” (Record), reuniu seus ensaios mais recentes na coletânea “Minha contribuição para tornar o mundo um lugar ainda pior” (Noétika), uma reflexão sobre a banalidade do heroísmo em uma era de incertezas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



