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Ameaça comunista

Chamada de inofensiva por Trump, Coreia do Norte amplia testes de armas e parcerias com outras ditaduras

Trump e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, em encontro na Zona Desmilitarizada da Coreia, em junho de 2019 (Foto: YONHAP/EFE/EPA)

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o mundo no fim de semana, ao chamar a ditadura comunista da Coreia do Norte de “inofensiva e respeitosa”.

O comentário foi feito em um momento em que o regime de Kim Jong-un, um dos mais repressivos do mundo, amplia seus testes de armas e incrementa suas parcerias com outros governos autoritários.

O think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) mantém uma ferramenta para contabilizar os testes de armas e outros atos de provocação norte-coreanos.

Os dados indicam que Pyongyang realizou 17 ações desse tipo entre o começo do ano e a primeira quinzena de agosto. No mesmo período em 2025, haviam sido dez registros.

O caso mais recente foi no último dia 12, quando a Coreia do Norte disparou um míssil balístico em direção ao Mar do Japão que percorreu cerca de 700 km, embora o tipo específico de projétil não tenha sido identificado.

Coreia do Norte amplia parceria com Rússia e Irã

Além de ameaçar os vizinhos Japão e Coreia do Sul, Kim está ampliando parcerias militares com outras ditaduras.

Mais de 14 mil soldados norte-coreanos lutaram contra forças da Ucrânia na região russa de Kursk e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, alertou que mais 30 mil militares do país asiático devem ser enviados para a frente de combate em breve. Pyongyang também ajudou Moscou com envios de armas.

Em entrevista este mês à Radio Free Europe/Radio Liberty, financiada pelo governo dos Estados Unidos, o contra-almirante da reserva da Marinha americana Mark Montgomery, coautor do livro “Axis of Aggressors” (“Eixo dos Agressores”, em tradução livre), disse que a Coreia do Norte faz parte de um grupo integrado também por Rússia, China e Irã, que já resultou em mais de 600 casos de cooperação entre esses países nos segmentos militar, tecnológico, econômico e cibernético.

“[Da Rússia,] a Coreia do Norte recebe assistência relacionada ao setor espacial, o que apoia diretamente o desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais capazes de, um dia, atingir os EUA. A Coreia do Norte já compartilhou tecnologia de mísseis com o Irã anteriormente e poderia fazê-lo novamente”, exemplificou Montgomery.

Na terça-feira (18), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que Rússia e Coreia do Norte buscam juntas construir “uma nova ordem mundial”.

“A Coreia do Norte constitui hoje uma ameaça militar muito significativa, não apenas para a Coreia do Sul e o Japão, mas também, por sua capacidade nuclear e seus mísseis balísticos intercontinentais, para o próprio território continental dos Estados Unidos. É difícil conciliar essa realidade objetiva com a caracterização do país como ‘inofensivo’”, disse em entrevista à reportagem o coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo.

O especialista afirmou que, além do robustecimento das capacidades nucleares de Pyongyang, a parceria da Coreia do Norte com a Rússia na guerra da Ucrânia gera uma deterioração ainda maior do ambiente de segurança regional.

“Há o temor de que essa experiência de combate aumente significativamente a capacidade operacional das forças norte-coreanas, especialmente pela exposição a uma guerra moderna marcada pelo emprego maciço de drones, guerra eletrônica, artilharia e mísseis”, explicou Gomes Filho, citando que a recente visita do ditador russo, Vladimir Putin, às Ilhas Curilas, disputadas com o Japão, piorou ainda mais o ambiente de segurança no Pacífico.

Especialista alerta para risco da deterioração da confiança nos EUA

No seu comentário sobre a Coreia do Norte no fim de semana, Trump anunciou a redução “substancial” de um exercício militar conjunto com a Coreia do Sul, alegando que tal ação “não é apenas dispendiosa”, mas também “envia um sinal totalmente inadequado e hostil a um país que, durante todo o mandato de Donald J. Trump como presidente, tem sido inofensivo e respeitoso”.

Tais exercícios, que começaram na segunda-feira (17), serão concluídos na sexta (21). Originalmente, estavam planejados para terminar no dia 27.

O presidente americano também citou o fato de a Coreia do Sul não ter ajudado na guerra contra o Irã como justificativa para reduzir os exercícios militares.

Na segunda-feira, em conversa com jornalistas na Casa Branca, Trump voltou a falar sobre o tema, ao dizer que teve uma resposta “muito positiva” de Kim sobre conversas futuras e alfinetar novamente Seul.

“Temos 39 mil soldados lá, protegendo vocês de Kim Jong-un, seu vizinho de porta, e vocês não vão nos ajudar em uma operação militar muito simples no Irã? Isso é estranho”, disse o presidente americano.

Em artigo para o jornal The Korea Times, o tenente-general da reserva Chun In-bum, ex-comandante do Comando de Guerra Especial do Exército da Coreia do Sul, disse que a “decepção” de Trump com o país é “compreensível”.

“Washington espera, cada vez mais, que os aliados contribuam para enfrentar desafios que os Estados Unidos consideram importantes para a segurança internacional”, escreveu Chun.

O militar alertou, porém, que as conversas diretas de Trump com Kim, sinalizadas pelo presidente americano, precisam ser acompanhadas com atenção e gerar resultados concretos.

“Para a Coreia do Sul e o Japão, a preocupação mais profunda é saber se as decisões que afetam a dissuasão serão coordenadas com os aliados e acompanhadas por medidas recíprocas por parte do adversário. A Coreia do Norte não deve receber concessões em troca de nada”, alertou.

Por sua vez, Paulo Roberto da Silva Gomes Filho disse à Gazeta do Povo que a justificativa de Trump de que a Coreia do Sul não ajudou na guerra contra o Irã é “injusta”, já que o conflito foi iniciado por israelenses e americanos em 28 de fevereiro sem consulta a Seul ou mesmo aos aliados americanos na Otan. “Exigir uma participação em um conflito para o qual nem mesmo foram consultados não faz nenhum sentido”, disse o analista.

“O que está ficando cada vez mais evidente é o caráter transacional que Trump atribui às alianças. Gastos com defesa, comércio, investimentos e apoio diplomático ou militar às iniciativas americanas passam a fazer parte de uma mesma negociação. O problema é que uma aliança militar depende também de previsibilidade e confiança. Se um aliado passa a temer que a garantia de segurança possa ser reduzida porque recusou apoiar os Estados Unidos em um conflito ocorrido em outra região do mundo, essa confiança inevitavelmente se deteriora”, afirmou Gomes Filho.

Sobre a intenção sinalizada por Trump de reabrir o canal diplomático com Pyongyang, o analista afirmou que o presidente americano parece apostar novamente na relação pessoal que estabeleceu com Kim no seu primeiro mandato (2017-2021).

“O problema é que as condições são hoje muito diferentes das existentes em 2018 e 2019: a Coreia do Norte possui um arsenal mais desenvolvido e conta agora com uma parceria estratégica muito mais profunda com a Rússia, o que reduz os incentivos para que Kim faça concessões. É hoje extremamente improvável que a Coreia do Norte aceite abandonar seu arsenal nuclear”, alertou Gomes Filho.

Nesse sentido, o especialista afirmou que o diálogo com Kim pode até ser útil para a gestão de crises e para reduzir o risco de erros de cálculo, mas não constitui, por si só, dissuasão.

“A dissuasão depende da capacidade militar e da credibilidade de que essa capacidade será empregada. Nesse sentido, há até uma contradição: ao mesmo tempo em que Trump tenta melhorar a comunicação com Pyongyang, reduz exercícios que são importantes exatamente para a capacidade e a credibilidade militar da aliança [com a Coreia do Sul]”, destacou, citando os exercícios militares com os sul-coreanos que foram reduzidos por ordem de Trump.

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