| Foto: Jan Vasek/Pixabay
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Nada mobiliza mais o meu interesse em escrever do que a opinião sincera de críticos. Quem dá as caras no debate público deve estar preparado para desagradar gregos e troianos. Escrevo neste espaço desde 2018 e nunca respondi um único comentário aos meus textos. Hoje será diferente; colocarei alguns comentários neste quadro de honra. Por questões de polidez, chamarei a todos de “o Leitor”.

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No texto A aventura do grande debate, o Leitor comenta: “Para o articulista, a filosofia se resume à busca pela verdade absoluta como discurso da razão e não em múltiplas possibilidades de verdades. A filosofia se resume a quem seguiu esse curso: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás, Descartes, Kant. Falar de niilistas ou existencialistas, nem pensar. Nietzsche, que horror! Sartre, vade retro! E o título do artigo fala em debate...”

Não há cultura democrática sem a liberdade de você poder não só votar em quem quiser, mas criticar livremente qualquer ideia que lhe aborrece

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Gostei. No entanto, há uma injustiça aqui. Eu terminei o texto com um “Temos a obrigação de nos aventurarmos no grande debate entre Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás, Descartes, Kant etc.” O et cetera não poderia ser suprimido arbitrariamente pelo Leitor. Se usei, foi por uma razão de espaço. Aliás, se eu tivesse dito apenas Platão e Aristóteles já teria exemplificado o meu texto a respeito de um grande debate. Não negligenciei o debate com os niilistas; quem me acompanha sabe o quanto o tema me persegue.

Em Apenas uma dúvida com relação à educação familiar, recebi alguns comentários interessantes do Leitor. Ele diz: “o autor parte do pressuposto errado de que educação familiar é sinônimo de crianças trancadas em casa, sem contato com a sociedade, outras famílias e outras instituições. Ensinar cidadania, como cuidar do bem comum, e a relacionar-se com diferentes pessoas em contextos diversos não é um superpoder reservado à escola. Pelo contrário, a escola chega a ser um fator limitante por apresentar ao aluno relação somente com seus pares na mesma faixa etária, e com o professor em relação de autoridade. A convivência na sociedade real, com a família, é uma experiência muito mais completa e significativa, fora da bolha da escola. Fica a sugestão ao autor para um artigo sem esse falso pressuposto.”

Diferentemente do que ele me acusa, eu não parto desse pressuposto alegado por ele. Eu reconheço que a educação domiciliar não significa “crianças trancadas em casa, sem contato com a sociedade”. Minha indagação a respeito da educação domiciliar era de outra natureza: assumir uma visão republicana da liberdade e da cidadania e perguntar – com sinceridade – como os defensores da educação domiciliar trabalhariam a construção do espaço de reflexão que a escola promove. Não era exatamente uma crítica à educação domiciliar, à qual sou bastante favorável, mas apenas uma observação no tocante à função social da família e da escola como instituições para além do “liberalismo individualizante”.

Por outro lado, não posso deixar de dar vozes aos comentários jocosos acerca do meu sobrenome. No texto Ensaio sobre a minha mediocridade, o Leitor manda o seguinte: “Aluno medíocre confesso, ‘jornalista’ medíocre de fato. Normalmente seus artigos combinam com o nome, ou seja, sempre rasos. Sinto pena dos seus alunos”. Sinceramente, eu também sinto pena dos meus alunos. Mas por outros motivos: você imagina ser privado da possibilidade de ter aula com um Leitor tão perspicaz na arte de fazer trocadilhos? Lamento profundamente...

Desviando ligeiramente de assunto, por falar em eleições e espaço crítico, vocês têm acompanhado a mais nova criatividade dos defensores da democracia? Eles começam assim: “se você votar no Bolsonaro, você é fascista”. Em seguida, dão mais uma esticadinha: “se você votar no candidato que tira voto do Lula, então é fascista”. Apoteoticamente, terminam o dia assim: “se você não votar no Lula, então você só pode ser mesmo um fascista”. Lembrando, claro, que tudo isso é em nome dos mais elevados valores democráticos.

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Enfim, o fato é que não há cultura democrática sem a liberdade de você poder não só votar em quem quiser, mas criticar livremente qualquer ideia que lhe aborrece. Faça isso, caro leitor, critique e vote em que quiser.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]