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Francisco Razzo

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Desafios filosóficos da liberdade

  • Francisco RazzoPor Francisco Razzo
  • 29/07/2020 13:36
Desafios filosóficos da liberdade
| Foto: BigStock

Confesso que nunca tive tendências suicidas. Embora o tema sempre tenha me fascinado, filosoficamente falando. Dos autores que meditaram o assunto, li Albert Camus, Ernest Becker, Miguel de Unamuno, Michele F. Sciacca e tantos outros. Incluiria o Fedon, o importante diálogo de Platão sobre a imortalidade da alma. Sim, aquele diálogo que narra a dramática morte de Sócrates.

Recentemente, li o livreto de Stig Dagerman, que foi publicado pela editora Âyiné: A nossa necessidade de consolação. Em Stig Dagerman, a tensão do suicídio é meditada em seu grau máximo, não apenas na forma literária, como experiência filosófica existencial. Há uma boa dosagem entre o poeta e o filosófico; o romântico e o metafísico; o eu lírico e o eu existencial.

De fato, seu texto é um manifesto poético, mas que não pode ser lido apenas como consolo literário. A fragilidade e a grandeza da condição humana são desnuadas; o que o aproxima da reflexão filosófica, de uma tradição que vai do estoicismo ao existencialismo.

Para o exercício romântico, o refúgio da morte não passa de um meio, o instrumento definitivo de ruptura e superação, para qualquer outro fim. Vingança, medo e desespero diante da dor encontrarão repouso eterno no fundo do poço. Na dissolução desta vida, finita e frágil ainda existe a expectativas de alguma vida eterna, no além deste vale de lágrimas.

O peso da humilhação desta vida faz valer a pena saltar para dentro do abismo, ser devorado por ele. No entanto, que tipo de liberdade poderia oferecer o suicídio romântico senão a repugnante ilusão de alívio? Por que continuar depositando esperanças de que, ao experimentar o mundo pelo lado de dentro, a harmonia existencial será reestabelecida?

Para ser preciso com os termos, trata-se da última tentativa de encontrar a condição consoladora. Por esta perspectiva, todo cálculo do suicídio romântico contém, de forma tácita, o desejo primordial de existir: pôr fim à própria vida consiste em maximizar a experiência de alívio em detrimento de tantos e tão absurdos sofrimentos desta vida empírica.

Ler Stig Dagerman é poder ir além dessa luta existencial de existir. Não à toa o autor foi chamado de “Camus Sueco”. Camus é o autor do Mito de Sísifo, o filósofo do séc. 20 que colocou o suicídio em primeiro plano de suas reflexões filosóficas não para legitimar o absurdo da existência, mas pare negá-lo, com toda sua destreza estética. Revolta nunca é política antes de ser metafísica. O consolo em Camus é a solidariedade. Em Dagerman, só há consolo na liberdade.

Não se trata, portanto, de encontrar um meio para pôr fim ao absurdo dessa vida. As reflexões metafísicas aqui se referem à mais elevada consciência de si: a própria morte como a ousadia de ser fim em si. E ao contrário de Camus, em Dagerman todas as contradições são resolvidas quando ele toma consciência e compreende “que o suicídio é a única prova de liberdade humana”. Também não ousaria ir tão longe. Comove-me o exercício filosófico.

Nada de exigências fora dos limites da liberdade, nenhuma expectativa depositada na transcendência. A propósito, não é a aposta na transcendência que salva Sócrates de se lançar ao abismo e se tornar o primeiro mártir da filosofia? Se a alma é imortal e a vida não é uma propriedade dos deuses, tirar a própria vida não é uma opção. Sócrates foi injustamente condenado, a despeito de a morte ter sido a musa inspiradora do filósofo e a filosofia uma preparação para morrer...

Dagerman impõe seu critério e faz pelo menos uma exigência: “a verdadeira consolação, pois, na verdade, para mim não existe a não ser uma, a de ser um homem livre, um indivíduo inviolável, uma pessoa soberana dentro dos meus limites”.

Tive honra de escrever o posfácio do livro, e posso garantir uma coisa: nenhum poeta-metafísico ousou ir tão longe. Dagerman não herdou, como ele mesmo diz, “nem um ponto fixo na terra que pudesse chamar a atenção de um Deus”. Portanto, quando resolve pôr fim à própria existência, não faz esperando nada senão a realização da liberdade.

Ele ama, assim, o mistério que é o nada, e ama simplesmente porque pode suportar o peso desse amor sem pretensão de ser correspondido. Stig Dagerman abraça a morte a fim de se autoafirmar como realização da liberdade incondicional. É o homem medindo-se pela pretensão do absoluto e da gloriosa vontade de se tornar, para a si mesmo, seu próprio deus miserável.

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Comentários [ 6 ]

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  • G

    GUILHERMO BRASIL RASQUIN

    ± 3 dias

    Sofri de depressão desde meu 3 anos de idade. Várias tentativas. Muita filosofia, estudo, religião, música e arte, esportes - para disfarçar a doença. Tudo paliativo. Com 37 anos, vivo, feliz, inteligente, saudável, amando a vida, meu filho e minha família. O remédio: psiquiatra e algumas receitas médicas. Hoje não tomo nada. Sóbrio. Só ficou a parte boa. Recomendo a todos que querem sentir bem.

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    • J

      João Teixeira Pires

      ± 4 dias

      A visão do suicídio como o auge da liberdade, amando o nada, parece o clímax do niilismo. São reflexões como esta que demonstram a complexidade do ser humano...

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      • F

        Fabricio Zandona

        ± 4 dias

        Amo essa coluna

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        • A

          Admar Luiz

          ± 4 dias

          Recomendo a leitura do livro de Yvone Pereira, "Memórias de um Suicida". Toda a encarnação é fruto e resultado de uma longa elaboração no mundo espiritual e não nos cabe o direito de atentar contra ela. Por mais penosa que seja, a vida é uma benção concedida pelo Divino em nosso benefício. O resgate - lei da ação e reação - causa e efeito - serve-nos como aprendizado e evolução a que somos destinados. Por isso devemos aproveitá-la, utilizando-nos dos ensinos do Meste Maior, amar ao próximo como ati mesmo. Respeitando nossas vidas, nossos limites e oportunidades.

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          2 Respostas
          • F

            Francisco Razzo

            ± 4 dias

            Não fui eu, Admar. Abração e obrigado pelo comentário.

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          • A

            Admar Luiz

            ± 4 dias

            Fico pensando cá comigo, que foi que deu um "deslaique" no meu comentário. Isso não me preocupa de modo algum. Gostar ou não gostar quem diz é a liberdade de cada um. mas, o que eu gostaria mesmo era saber a opinião do prezado aí. O que ele ou ela não gostou no meu comentário. Seria a minha doutrina religiosa implícita no texto? Algo que fere suas crenças? Diz aí?

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