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Francisco Razzo

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Descida ao inferno

  • Por Francisco Razzo
  • 26/02/2020 14:22
T.S. Eliot em 1923.
T.S. Eliot em 1923.| Foto: Lady Ottoline Morrell/Domínio público

Depois do carnaval, a ressaca. Depois da abundância, o deserto. Se bem que no Brasil, com essa chuvarada toda, a paisagem está mais para dilúvio. Mas não foi dessa vez. O mundo não acabou. Os sonhos utópicos de transformar o Brasil em uma nova Roma ainda prometem. Agora, o país que se orgulha de ser o maior país cristão se prepara para os 40 dias de deserto, não? Começamos bem o tempo da Quaresma com duas notícias apropriadas para essa data tão simbólica: um primeiro caso de coronavírus registrado e o presidente incitando os bajuladores de sempre para manifestação contra o Congresso.

Por falar em ironia, como escreveu meu amigo Martim Vasques da Cunha no seu perfil do Twitter, sugestão de leitura para os próximos dias após a pausa que foi o carnaval: Complô contra a América, de Philip Roth; A Peste, de Albert Camus. Confesso que ri. E um segundo depois lembrei da tragédia. Por isso aproveito a oportunidade de fazer a minha sugestão de leitura – bem mais melancólica – para a chegada do novo tempo litúrgico, Quarta-feira de cinzas, do T.S. Eliot.

De certa forma, o poema trata do ato de contrição. A contrição é, antes, a tomada de consciência de culpa. Mas culpa do quê? Não me refiro aqui à culpa no sentido de problemas sociais e políticos. O problema de misturar religião e política é justamente interpretar o político como um drama teológico e, ao fazer isso, reduzir a experiência da fé a um nutriente do exercício do poder. Um exemplo banal disso é a quantidade de perfis nas redes sociais que usam a declaração de fé cristã para interpretar o presidente da República como um mito redentor do país. Nada como “Deus vult!” deslocado de seu genuíno sentido religioso para sustentar os ataques ao Congresso. Antes fosse só uma crise estética.

O problema de misturar religião e política é justamente interpretar o político como um drama teológico e, ao fazer isso, reduzir a experiência da fé a um nutriente do exercício do poder

Volto a Eliot e o real sentido da contrição. Russell Kirk, ao comentar o poema de Eliot, escreve o seguinte: “Por intermédio da contrição, a culpa poderia ser purificada ou consumida pelo fogo. A ‘dúbia face de esperança e desespero’ poderia ser abandonada. O Verbo ainda poderia ser ouvido no mundo”. Vale a pena ler um trechinho do poema para lembrar que a doença que nos aflige é de outra natureza:

Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam

Todos os anos, quando chega o tempo da Quaresma, procuro meditar sobre Cristo no deserto. Porque é no deserto que Jesus sofreu as tentações cujo cerne é colocar Deus de lado e construir um mundo segundo pão, poder e glória. Ele podia fazer isso. Melhorar o mundo com autonomia e liberdade, resolver problemas urgentes que nos afligem. Estancar a dor dos aflitos. Se tem fome, pão. Se é Cristo, tem poder. Toda iniciativa recai, portanto, no próprio poder do homem. Deus nada além de uma ilusão. O desejo de poder político é a doença que Santo Agostinho chamava de amor sui. A mais perigosa das doenças, sem dúvida. Pois “dois amores fazem duas cidades: uma é terrestre, obra do amor de si até ao desprezo de Deus; a outra, celeste, obra do amor de Deus até ao desprezo de si”.

Não adianta a gente se fazer de vítima, se fantasiar de Cristo no carnaval a fim de imaginar que Jesus, um homem sábio, seria o maior exemplo de vítima para nossa causa política. Fácil botar uma fantasia e achar que a culpa é da sociedade. Fácil usar uma coroa de espinhos que não machuca e desconsiderar as tentações que Cristo sofreu no deserto, o flagelo e a morte de cruz, a descida ao inferno, a glória da ressurreição e, por fim, o anúncio de um Reino que não é deste mundo.

Os paladinos da justiça e do poder redentor querem um Jesus para chamar de seu, mas se esquecem – ou fingem esquecer – dos compromissos existenciais que a fé exige. Jesus não penetrou no drama da existência humana para se fazer de coitado perseguido. Ele foi ao fundo do poço para buscar a ovelha abandonada e não para reclamar que sofria de preconceito orquestrado por romanos e fariseus.

A imagem do deserto e as ofertas do demônio impõem recolhimento interior. Como diz Bento XVI em sua primeira parte da biografia de Jesus – Jesus de Nazaré –, “o recolhimento interior precede à ação, e este recolhimento também é necessariamente uma luta pela sua missão, uma luta contra as deturpações da missão que oferecem como suas reais realizações. A missão consiste em descer aos perigos do homem, porque só assim o homem caído pode ser levantado”. Nesse sentido, o deserto simboliza o lugar privilegiado de reconciliação.

Os paladinos da justiça e do poder redentor querem um Jesus para chamar de seu, mas se esquecem – ou fingem esquecer – dos compromissos existenciais que a fé exige

Obviamente, não sou Eliot, mas arrisquei uns versinhos para esta quarta-feira:

Qual o caminho de reconciliação
Senão o deserto?
No céu, o sol do meio dia.
Nenhuma sombra,
A pedra não é pão,
Pedro não é rei.

O mundo faz sua oferta:
Qual o caminho da reconciliação
Senão o deserto?
Bastava só uma palavra
Mas a iniciativa não pode ser minha.
O silêncio de Deus.

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Comentários [ 9 ]

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    Giovani Domiciano Formenton

    ± 12 dias

    O mais engraçado dos textos do Razzo é que os comentários comprovam suas teses.

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  • J

    Jorge Dias

    ± 13 dias

    Gostei muito do artigo, mas me preocupo com a sanidade do Razzo, pois se para si o Bolsonaro não basta, quem bastará?

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    1 Respostas
    • G

      Giovani Domiciano Formenton

      ± 12 dias

      Este é o fato. Este é o caso que ele aponta. Bolsonaro não é Jesus. Só Jesus Basta.

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    João Choucair Gomes

    ± 13 dias

    Assustado com seu comentário, Razzo. Você também caiu na historia de ataque contra o congresso? A imprensa, de maneira irresponsável, inventou "disparos de whatsap" pouco tempo antes da eleição, inventou um porteiro no condomino numa clara tentativa de golpe dada pelo maior veículo de comunicação do país (em horário nobre , com o Presidente no exterior), e ainda no governo Temer também tentou dar um golpe com a história (toda desmentida) do caso Joesley. Agora estão preparando um impeachment com a COLABORAÇÃO DE PESSOAS COMO VOCÊ. Leio artigos magníficos que você escreve. Mas agora este. O ser humano realmente é muito complexo. O único apoio do presidente é o povo. Triste.

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  • A

    Admar Luiz

    ± 13 dias

    Deus vult!, servia pro Lularápio, né? Russel Kik no seu livro "A Política da Prudência", dedica oito páginas para um grande poeta e homem de seu tempo, T.S. Eliot. T S Eliot dizia que se a fé cristã se for, toda a nossa cultura irá com ele. jesus como base moral deve ser lembrado na quaresma não com promessas, jejuando ou fazendo penitências, num contexto de culpa e expiação. Mas sim na prática da caridade em toda a sua plenitude. "Todo cristão deve saber que nem um ritual externo será capaz de apagar nossos erros perante a Lei Divina. Somente uma reflexão profunda de nossas atitudes, através do autoconhecimento, para auxiliar em nossa transformação moral". (DE)

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    Admar Luiz

    ± 13 dias

    " O presidente incitando os bajuladores de sempre para manifestação contra o Congresso". Como? É chamar milhões que votaram no presidente de estúpidos, né, prezado? Como se ir às ruas e demonstrar apoio ao governo fosse ato ati democrático, hein? O Congresso só existe por causa do eleitor. E é ele que dá o mandado ao seu representado. Oras, porque não posso usar meu direito a manifestação para demonstrar meu repúdio a essa cambada? Os políticos - como sabemos nós - só se mexem quando o povo vai as ruas. Pressão do eleitor, é isso o que move esses digníssimos que na sua maioria estão lá pra se locupletar. Agora até isso gera mimimis. O fo da-se do presidente dá até impeachment.

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    LEONARDO RIBAS GOMES

    ± 13 dias

    quanta besteira. E depois tem gente que se preocupa com criança de 14 anos que ainda acredita em papai noel.

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  • D

    Diego Leite de Oliveira

    ± 13 dias

    Que artigo inspirador! Uma ótima quaresma à todos.

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    Decio mango

    ± 13 dias

    Razo como sempre a falta de critérios..de escrúpulos, fazem dos pensamentos de terceira,virarem mais uma falta de critérios...a falta de fé leva os comunalistas a crer que em nome da classe, que deus atrapalha..politica e religião para estes néscios...uma vez que para eles a coisa e exercício de poder...e poder vem do partido, da forca, da corrupção, da dominação..religião não serve aos ideológicos de esquerda porque a religião onde o estado e o deus e para deficientes mentais...

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