Peguei para reler o interessantíssimo livro Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social, da filósofa francesa Simone Weil. Infelizmente, muito pouco se fala da crítica única ao marxismo desenvolvida por ela. Weil é uma filósofa para lá de interessante. Entre as curiosidades de sua curta vida, vale mencionar que Simone Weil, cuja vida foi marcada por uma busca incessante por justiça e uma dedicação intensa às causas dos trabalhadores, trabalhou como operária em fábricas, numa tentativa radical de compreender e compartilhar as dificuldades da classe trabalhadora. Ela também se voluntariou na Guerra Civil Espanhola, embora sua participação tenha sido interrompida devido a problemas de saúde. Apesar de ser de origem judia, Weil se afastou do judaísmo e se aproximou do cristianismo, mantendo uma relação complexa e mística com a fé.
Formada em Filosofia na prestigiosa École Normale Supérieure, Simone Weil morreu em 1943, aos 34 anos, em circunstâncias trágicas. Ela estava enfraquecida pela subnutrição, pois se recusava a comer mais do que acreditava que os soldados e civis na França ocupada poderiam consumir. Sua morte foi resultado de uma combinação de tuberculose e inanição. Suas principais obras incluem O peso e a Graça, A Condição Operária, Pensamentos desordenados acerca do amor de Deus e Espera de Deus.
Hoje, gostaria apenas de falar da crítica de Simone Weil ao marxismo. Ela se concentra principalmente na incapacidade de a teoria emancipar os trabalhadores. Ou seja, o marxismo é uma cilada; como diria Raymond Aron, o ópio do intelectual.
Para Simone Weil, mesmo sob um regime socialista, o trabalhador continuaria preso à maquinaria de produção, agora a serviço de um novo Estado – ou de um deus mortal
Para Weil, a mudança na propriedade dos meios de produção não elimina a opressão; esta está entranhada na estrutura da produção industrial moderna, que subordina os trabalhadores à empresa e àqueles que a dirigem. A produção industrial não se trata apenas de um problema de propriedade, mas de uma própria imposição sistêmica do capital sobre o trabalhador. Assim, mesmo sob um regime socialista, o trabalhador continuaria preso à maquinaria de produção, agora a serviço de um novo Estado – ou de um deus mortal.
Outro ponto essencial da crítica de Simone Weil é a ênfase de Marx no desenvolvimento ilimitado das forças produtivas. Ela considera essa crença uma ilusão derivada da influência da filosofia hegeliana e da religião do progresso. Para Weil, esse mito do progresso – pelo qual a expansão da produção industrial traria a liberdade – apenas transforma os homens em serviços da produção, perpetuando a opressão. “A tarefa das revoluções consiste essencialmente na emancipação não dos homens, mas das forças produtivas”, escreve Weil. A fé cega de Marx no progresso técnico é, para ela, uma confissão de servidão à lógica da produção, onde o ser humano é reduzido a um meio para fins que lhe são estranhos.
A Revolução Russa foi um exemplo crucial para Simone Weil. Marx acreditava que a luta pelo poder desapareceria com a implantação do socialismo, mas a história provou o contrário. Em vez de se libertarem, os trabalhadores foram subjugados pelo aparato burocrático do Estado soviético. Weil destaca que a revolução não eliminou a necessidade de explorar os trabalhadores – pelo contrário, intensificou-a em nome da sobrevivência do Estado. O “socialismo científico” criou uma nova elite, tal como a burguesia havia feito. Como ela escreve, “a ética do progresso produtivo e a obsessão pela produção material converteram o socialismo em um novo monopólio, replicando os vícios da sociedade burguesa”.
Um dos pontos mais radicais da crítica de Weil é sua análise sobre a divisão entre trabalho manual e intelectual. A especialização moderna, essencial à produção industrial, cria uma divisão inevitável entre os que executam e os que coordenam. Isso perpetua um regime de dominação, pois quem tem o saber técnico detém o poder, seja numa sociedade capitalista ou socialista. Para Weil, o socialismo fracassa ao não reconhecer que a verdadeira fonte de opressão está na organização do trabalho em si, e não apenas na propriedade dos meios de produção.
Essa crítica de Weil me lembra muito da crítica de Max Weber sobre a racionalização e burocratização da sociedade moderna. Weber mostra como o processo de racionalização, expressa pela burocracia e pela organização técnica do trabalho, cria um sistema onde os indivíduos são aprisionados em funções rígidas, como em um “habitáculo duro como o aço”, dirá Weber.
Weil propõe que a busca pela verdade, pela beleza e pela justiça não pode reduzir o ser humano a um mero agente econômico eficiente para si ou para o Estado
Uma das observações que mais me interessam na crítica de Simone Weil é como ela questiona a crença marxista no destino histórico do proletariado. Aqui, talvez, ressoa a forma mais religiosa do marxismo: a esperança de que o futuro será necessariamente melhor. Noutros termos, é uma ideologia messiânica. Essa ideia de que a história conduz inevitavelmente à liberdade é, para ela, uma ilusão. “Não há nenhuma razão para supor semelhante missão”, escreve Weil. Em vez de uma transformação inevitável, a emancipação deve ser fruto de um esforço consciente para reformar a organização do trabalho e a cultura em geral.
Ou seja, a verdadeira libertação dos trabalhadores exige mais do que a socialização dos meios de produção; exige uma transformação na estrutura da produção e uma revisão do papel da técnica e do progresso. Não há mais saída, exceto para a vida interior. A emancipação verdadeira só poderia ocorrer quando os trabalhadores encontrassem um sentido mais profundo em seu trabalho e em suas vidas. É uma reformulação na ordem das coisas. Weil propõe que a busca pela verdade, pela beleza e pela justiça não pode reduzir o ser humano a um mero agente econômico eficiente para si ou para o Estado.
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