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Francisco Razzo

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Sonho feminista

  • PorFrancisco Razzo
  • 18/07/2018 14:38
Pixabay
Pixabay| Foto:

No país, os dados da violência são notórios. Sessenta mil homicídios por ano não é pra qualquer um. Experiência aterradora para quem vive no Brasil, para quem visita o Brasil, para quem pensa morar no Brasil. Aliás, como se vive num país sabendo que essa quantidade de pessoas foi morta por outras pessoas? Para as estatísticas, pouco importa os motivos. Estatísticas são cegas para os motivos da violência. De qualquer forma, adota-se o termo “homicídio” para todos esses casos — sem distinção de gênero, orientação sexual, classe social, condição econômica ou religião. A violência é coisa bem democrática entre nós. Mais do que palmeiras e sabiás, essas também são terras de sangue e desgraça.

A necessidade humana de classificar e distinguir ajuda a compreender, a julgar e, sobretudo, a condenar — não necessariamente nessa ordem. Enfim, hoje, quando mulheres são violentadas ou assassinadas em virtude de crime passional, em sua natureza perverso e covarde, fala-se em “feminicídio” — seria uma subcategoria do homicídio? Não faço ideia. Só sei que, no feminicídio, a mulher violentada é violentada na condição de mulher, mas não por ser mulher. Não é a sua condição humana que importa, pesa e choca, mas o lugar que ocupa na hierarquia social. Não importa os motivos, os motivos são invisíveis para ideólogos, que decretaram: os canalhas que violentam mulheres violentam mulheres por elas serem simplesmente mulheres — e eles, simplesmente homens. O ódio de um agressor de mulher é o ódio contra o gênero “mulher”, não ódio contra a própria impotência e fracasso. O ódio de si do homem frustrado e impotente só pode ser ódio contra mulher, todas.

Quais as causas? Decretou-se ainda mais alto e em bom som: a “cultura machista”. Nada como um bode expiatório, uma estrutura significativa oculta por detrás do absurdo, um padrão cultural, uma lógica, “a lógica de dominação masculina e a um padrão cultural de subordinação que foi aprendido ao longo de gerações”. Pronto! Nossos dramas estão quase resolvidos e os porcos já estão devidamente marcados. A responsabilidade pelo feminicídio é de todos — e, consequentemente, de ninguém. Todos os homens contra todas as mulheres. Sem face, sem nome, sem endereço específico, o termo “feminicídio” fornece uma “ideia” poderosa e atraente, uma abstração, uma chave que permite identificar, interpretar, marcar e condenar nossos pesadelos machistas.

Atualmente, é até bem compreensível o feminismo despertar o interesse de tantas pessoas. Pelo menos em seu apelo, em sua vocação, em seu prosaico efeito de alerta. Sim, há machistas e há mulheres que morrem, que apanham — há as que batem e matam, mas deixo isso pra lá. A força da intuição de mulheres que se dizem “feministas” não precisa ser desprezada, sobretudo quanto aos gravíssimos problemas relacionados à obscura natureza humana. Só erram no diagnóstico e, por isso, na receita. Constatar e experienciar um fenômeno não significa compreender suas razões, quem dirá prometer a terra dos justos. Quando o feminismo se tornou messiânico e político, ficou bobo e vulgar.

Independentemente da guerra ideológica que se lute, mulheres efetivas — as de carne e osso, que são invisíveis a abstrações, estatísticas e ideólogos — continuarão sendo violentadas. Mulheres de carne e osso não serão violentadas por homens abstratos. Mulheres abstratas não combatem homens abstratos, porque homens abstratos não violentam mulheres abstratas. O mundo da abstração, por natureza, é pacifista. Um reino de comunhão ideal. No mundo real, pé no chão, mundo cão, impera a guerra de todos contra todos. O erro do feminismo é presumir a bondade natural… das mulheres — que é erro comum de toda ideologia ao ver só o seu lado como virtuoso e imaculado.

Um parêntese. Quando vejo feministas lutando por um mundo melhor e mais justo para as mulheres, não consigo deixar de pensar neste parágrafo do Heinrich Heine: “Eu sou o ser mais pacífico possível. Meus desejos são: uma modesta choupana com cobertura de palha, mas possuindo uma boa cama, boa mesa, leite e manteiga bem frescos, com flores na janela; diante da porta, algumas belas árvores. E, se Deus misericordioso quiser me deixar realmente feliz, que me conceda ver uns seis ou sete, mais ou menos, dos meus inimigos enforcados nessas árvores. Com o coração comovido, perdoarei, antes de morrerem, todas as ofensas que me fizeram em vida — pois, é claro, os inimigos devem ser perdoados, não antes, porém, de estarem enforcados”.

Não é demais lembrar que o mundo sempre foi perigoso — brutalmente perigoso. Por mais que as pessoas consigam criar espaços de convivência pacíficos, a insistência da violência entre pessoas é constante na história humana — e está bem longe de ser privilégio de machistas. Ao longo da história, homens precisaram lidar diretamente com essa hostilidade do mundo, que se expressa em formas complexas e variadas. Não só a vida em sociedade, a vida interior também esconde seu lamaçal. Mas quem se importa com a vida interior quando se pode ver com clareza quem são os culpados de toda desgraça do mundo.

Penso que o erro mais comum desse feminismo reativo e vulgar que acusa toda “cultura” como responsável pelo feminicídio é justamente recorrer ao ideal difuso de sociedade igualitária e atuar nele como se, de repente, o mundo todo fosse corresponder às demandas de paz, justiça social, fraternidade e liberdade. O fato é que não se cria um ambiente efetivo de convívio presumindo que “o homem é bom por natureza, mas a cultura machista que o corrompe”.

Reconheço que não se deve falar do “feminismo” no singular, como unidade, um bloco. Há pessoas. Há mulheres feministas. Há simpatizantes, não necessariamente feministas ou mulheres. Há muitas vertentes de “feminismo”, ondas históricas. Há feminismos, portanto. A história do feminismo é uma longa história. Há histórias das várias vertentes de feminismos, que de alguma forma, se fosse possível uma síntese, representa a história do apelo de mulheres sobre a própria situação na história ou sobre a própria situação imaginada e sentida. A dificuldade é compreender realidades. E, por isso, vejo pelo menos uma razão para o feminismo.

Conheço muitas mulheres que se identificam com a ideia geral do feminismo. Penso que estão erradas a respeito de uma série de coisas sobre a história da condição das mulheres e sobre os feminismos. Nem tudo é histeria inconsequente. Interpretação sobre as ideias se discute. Apelo se escuta. Sendo assim, a defesa responsável e a tomada de posição prudente diante desses apelos exige pelo menos uma condição: abrir mão dos métodos de perseguição, das poses, dos dramas irracionais, do jogo de dissimulação, do ressentimento e do sonho de feministas radicais.

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