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Cena do filme Sétimo Selo, de 1956.
Cena do filme Sétimo Selo, de 1956.| Foto: Divulgação

Comecei a jogar xadrez na adolescência. Durante anos, fui apenas alfabetizado na capacidade de mover as peças no tabuleiro. Um aventureiro inconsequente. Há uns quatro anos, resolvi estudar o jogo dos mestres Capablanca, Bobby Fischer, Karpov, Kasparov e a Morte. Sim, isso mesmo, dentre todos os grandes mestres, a Morte se impõe como um jogador que me aterroriza em estratégia, talento e trapaça.

Jogar xadrez com a morte pode ser interpretado como uma das melhores analogias para a nossa condição humana: cheia de estratégias racionais para evitar o inevitável. Nesse sentido, o clássico filme do cineasta sueco Ingmar Bergman – um dos meus diretos prediletos – precisa sempre ser colocado em primeiro plano quando o assunto é a consciência humana acerca de sua finitude e a espantosa situação existencial diante da morte.

Sétimo Selo é um filme de 1956 e conta a história de um cavaleiro medieval que ao retornar da cruzada tem sua fé em Deus abalada diante da pandemia de peste negra. O cavaleiro é Antonius Block, interpretado por ninguém menos do que Max von Sydow – sim, ele mesmo, o padre de o Exorcista (1973). O cenário de Sétimo Selo é apocalíptico, isto é, análogo ao cenário infernal em que o filme foi lançado após a Segunda Guerra Mundial. Não falo deste filme à toa, portanto.

Sim, isso mesmo, dentre todos os grandes mestres, a Morte se impõe como um jogador que me aterroriza em estratégia, talento e trapaça

A expressão “sétimo selo” é bíblica e foi retirada do capítulo 8 do livro do Apocalipse: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu por mais ou menos meia hora. Então vi os sete anjos, que se acham em pé diante de Deus, e vi que lhes foram dadas sete trombetas”. É assim que o diretor escolheu abrir o filme. Quem já assistiu certamente se lembrará da impactante música de abertura.

Antonius Block se ajoelha próximo ao mar e em gesto de contrita oração tenta rezar. Não consegue. Em vez de Deus, a Morte, em pessoa, aparece para ele. No ousado ímpeto de coragem, propõe a Morte uma partida de xadrez. A cena é clássica. Se você não viu, sinta-se obrigado a ver. O que mais me chama atenção no primeiro diálogo de Antonius Block com a Morte é isto aqui. A Morte pergunta: “Por que quer jogar xadrez comigo?”, e Block responde: “Isto é problema meu”. Ora, mesmo com sua fé abalada, Block luta por um propósito. Embora ele, nesse momento, aparentemente desconheça.

A história segue com a jornada de Block e seu escudeiro Jöns, um personagem sui generis, relativamente cômico, que prefere gin para matar a sede do que água, mas de uma sagacidade que despreza o mundo de superstição e crendices medievais e se coloca, de certa forma, como o prenúncio do homem moderno. Há tantos elementos simbólicos no filme que encheríamos a memória de um Kindle com livros a respeito do assunto.

Eu gostaria de ficar apenas com a força de segundo diálogo de Antonius Block com a Morte. É quando Block entra numa pequena capela para se confessar. É impossível descrever a força do cenário que só a sensibilidade genial de Bergman conseguiu criar. Block se aproxima do confessionário e acredita que fará sua confissão para um padre. De início, o espectador já sabe que se trata de uma trapaça da Morte.

Quero confessar com sinceridade, mas meu coração está vazio. O vazio é um espelho que reflete no meu rosto. Vejo minha própria imagem e sinto repugnância e medo. Pela indiferença ao próximo, fui rejeitado por ele. Vivo num mundo assombrado, fechado em minhas fantasias. Disfarçada de padre, a Morte pergunta: Agora quer morrer? Block, sem se abalar, responde: Sim, eu quero. E Morte, com certa ironia, sugere: Mas pelo que espera?

A sequência da conversa girará em torno do conflito entre fé e razão cujo campo de batalha é o interior de Block. Ele responde: Pelo conhecimento. A Morte, como se estivesse jogando o xadrez dialético, o provoca: “Quer garantias? ” A resposta de Block é uma das mais belas discussões teológicas que eu já li a respeito da fé e razão, ele diz:

Chame como quiser. É tão inconcebível tentar compreender Deus? Por que Ele se esconde em promessas e milagres que não vemos? Como podemos ter fé se não temos fé em nós mesmos? O que acontecerá com aqueles que não querem ter fé ou não tem? Por que não posso tirá-lo de dentro de mim? Por que Ele vive em mim de uma forma humilhante apesar de amaldiçoá-lo e tentar tirá-lo do meu coração? Por que, apesar de Ele ser uma falsa promessa eu não consigo ficar livre? Você me ouviu? Quero conhecimento, não fé ou presunção. Quero que Deus estenda as mãos para mim, que mostre seu rosto, que fale comigo. Mas Ele fica em silêncio. Eu O chamo no escuro, mas parece que ninguém me ouve.

A Morte, lembrando o Diabo no deserto na tentação de Cristo, o provoca: “Talvez não haja ninguém.

Será? Pessoalmente, considero esse o problema metafísico por excelência. Se não houver “ninguém” lá – a propósito, a expressão “lá” já foi usada pelo próprio Platão para apontar o que depois ficou conhecido em filosofia como “mundo das ideias” – qual o sentido da vida? O deserto de sentido nos oprime. E, como diz Block para morte, se não houver ninguém lá, “A vida é um horror. Ninguém consegue conviver com a morte e na ignorância de tudo.

Enfim, essa é a minha sugestão para esse momento de guerra, pandemia e, claro, quaresma. Sendo assim, eu gostaria de encerrar com as palavras do próprio Antonius Block a respeito de uma vida cuja morte será inevitável: “Minha vida tem sido de eternas buscas, caçadas, atos, conversas sem sentido ou ligações. Uma vida sem sentido. Não falo isto com amargura ou reprovação como fazem as pessoas que vivem assim. Quero usar o pouco tempo que tenho para fazer algo bom.

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