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Francisco Razzo

Francisco Razzo

Francisco Razzo é professor de filosofia, autor dos livros "Contra o Aborto" e "A Imaginação Totalitária", ambos pela editora Record. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP.

Ideologia woke

Identitarismo é “fascismo de esquerda”, como disse Wagner Moura?

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Wagner Moura comemora o Globo de Ouro de melhor ator por "O Agente Secreto", em janeiro de 2026. (Foto: Chris Torres/EFE/EPA)

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Tenho uma exigência de professor de Filosofia especialista em pragmatismo que me atrapalha mais do que ajuda. Antes de perguntar se uma frase é verdadeira, quero saber o que ela autoriza a fazer em seguida. Um termo vale pelas inferências que permite: o que se conclui dele, do que dispensa quem o usa.

Wagner Moura disse que o identitarismo é um “fascismo de esquerda”. Concordo com metade da frase. A outra metade vem prestando um serviço involuntário a quem ele critica.

Começo pelo erro. “Fascismo” é palavra com endereço histórico. Robert Paxton, que estudou o assunto a vida inteira, descreve o fenômeno melhor do que qualquer outro: uma comunidade obcecada pelo declínio, o culto da unidade e da pureza, um movimento nacionalista de massa, paixões mobilizadores, milícia na rua e expurgo.

Confira o identitarismo contra a lista. A conferência dá errado, mas não do jeito que se espera. Nação a renascer não há: o vocabulário identitário é hostil à ideia. O resto não falta: foi substituído por coisa mais branda e eficiente.

No lugar da milícia, o conselho profissional. Em 2022, o órgão que regula os psicólogos de Ontário, no Canadá, mandou Jordan Peterson fazer um curso de reeducação sobre o que dizia em público; as cortes mantiveram a ordem. No lugar do partido único, um clima moral de perseguição que atravessa siglas, empresas, universidades e editais. No lugar do culto ao líder, uma acefalia de que ninguém consegue se desfazer: não existe autoridade capaz de encerrar um cancelamento e ser obedecida.

Concordo com metade da frase de Wagner Moura. A outra metade vem prestando um serviço involuntário a quem ele critica

Estado, então, também não há. O identitarismo não precisa conquistá-lo: aluga o aparato burocrático policialesco que já está montado. Em 2019 o Supremo enquadrou a homofobia na Lei do Racismo sem que o Congresso legislasse. Em 2025, um humorista pegou oito anos e três meses de prisão por um show. E falta o principal, que não entra em lista porque não chega a acontecer: o roteirista que troca a cena, o professor que tira o livro da ementa, o orientando que muda de tema. Ninguém precisou avisá-los. É autocensura. Servilismo.

A lista de Paxton não explica por que a frase de Wagner Moura incomoda. Isso quem explica é um pressuposto. George Orwell já reclamava, em 1944, no Tribune, que a palavra tinha deixado de significar coisa alguma: andavam chamando de “fascista” a caça à raposa, a astrologia, os cães e os porcos. Ele pedia que ela não fosse rebaixada a xingamento. Foi. E xingamento aponta sempre para a direita. Daí a histeria: com o autor mundialmente conhecido, o predicado atravessou a rua. Fascistas também são os de esquerda.

Ainda assim recuso a palavra, e não por delicadeza ou gentileza. Quem mostrou que ela foi gasta não pode gastá-la mais, e fica sem ela no dia em que precisar.

Rejeitado o nome, sobra o essencial. O identitarismo trocou o critério: deixou de importar se o que foi dito se sustenta, e passou a importar quem disse. Wagner Moura resumiu o que ouve de seus críticos: não é preto e defende preto, não é gay e defende gay. Nenhuma dessas objeções toca no que ele afirmou; todas dizem respeito ao crachá de quem afirma.

Esse deslocamento é o que a defesa moderna contra o totalitarismo foi montada para impedir. Seu principal teórico foi o mesmo Jürgen Habermas que, em 1967, num congresso estudantil em Hannover, propôs a expressão “fascismo de esquerda” e depois recuou dela. O critério da ética do debate que ele passou a vida toda defendendo em milhares de páginas cabe em duas linhas: quem fala não decide se é verdade, e só o argumento decide.

O totalitarismo que Habermas viu de perto também julgava o conhecimento pela identidade de quem o produzia. Não estou comparando regimes. A semelhança está no inimigo dos dois: um regime se derruba em 12 anos, e uma epistemologia sobrevive à queda de qualquer regime.

Falta batizar o que sobra, e aqui abuso da paciência do leitor. Chamo aquilo de “imaginação totalitária”, título de um livro que publiquei há dez anos. Antes do Estado, do partido e da milícia, a imaginação: ela dá unidade às nossas expectativas e faz o mundo aparecer como um todo sem resto, no qual tudo se encaixa, nada escapa, e quem escapa é registrado como defeito. É preciso legitimar a violência redentora. Regime é o que acontece quando essa imaginação consegue polícia para chamar de sua. Aqui ela conseguiu um pedaço.

Escrevi aquele livro sem abrir exceção para mim, e não conheço quem esteja fora. Trata-se de uma tentação querer redimir o mundo dos meus inimigos.

Nada disso é descoberta da direita. Mark Lilla sustenta desde 2016 que a política identitária deixou a esquerda americana sem discurso de bem comum; Yascha Mounk e Antonio Risério dizem o mesmo, cada um do seu canto, e nenhum dos três cabe no rótulo da “direita”. São todos muito progressistas.

Antes do Estado, do partido e da milícia, há a imaginação: ela dá unidade às nossas expectativas e faz o mundo aparecer como um todo sem resto

O que me interessa aqui é o preço que se paga.

João Bosco, aos 80 anos, defendeu Gol Anulado, samba de 1976 com Aldir Blanc, cuja letra narra um marido que espanca a mulher de cinto ao descobri-la flamenguista. A defesa foi curta e correta: obra nenhuma existe para ser obedecida. Quem lê samba com olho de síndico da identidade vai precisar de uma fogueira grande, e pode começar por Machado de Assis.

João Bosco estragou o argumento em seguida, ao dizer que essas pessoas precisam ser medicadas – o que não vou defender. Levou uma semana de execração pública.

Em tese, a crítica ao identitarismo custa zero: ninguém retira nada de circulação e ninguém perde contrato. Bosco tinha um objeto concreto, com uma mulher apanhando dentro da letra, e a conta chegou. Não sei julgar intenção. Registro o padrão: sem objeto, a crítica é de graça.

Escrevo sem expectativa de que a premissa seja revista. A frase de Wagner Moura pode render três semanas de citação e alguns artigos de opinião. Depois, volta para a gaveta; quem tiver uma canção velha para defender segue pagando a conta que ele não pagou. Ou o processo. Eu sigo com a categoria de dez anos atrás, que não impediu nada e não me poupou de nada. Fica dito, que é o que se faz com o que não vai ser respondido.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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