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Igreja destruída por ataque russo na cidade de Yasnogorodka, a oeste de Kiev.
Igreja destruída por ataque russo na cidade de Yasnogorodka, a oeste de Kiev.| Foto: Atef Safadi/EFE/EPA

Nessa semana tenho o privilégio de publicar nessa coluna entrevista com o pastor batista ucraniano Anatoliy Shmillikhovskyy. Ele tem 47 anos, é casado com Iryna há 17 anos. Ambos tem um casal de filhos: Zlata, 6 anos, e Lucas, 5 anos. Ele nasceu na antiga República Socialista Soviética Ucraniana (que era parte da União Soviética), atual Ucrânia, na cidade de Lviv. É formado em Teologia pela Universidade Cristã em Kiev e pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil (STBNB), em Recife. Atualmente, está trabalhando no leste europeu com plantação de igrejas e formação de DNA missionário. Como missionário, seus campos de atuação são a Ucrânia, a Rússia, a Ásia Central, a Polônia e a Moldávia. Agradeço ao pastor Luiz Sayão, da Igreja Batista Nações Unidas, em São Paulo, por ter me colocado em contato com o pastor Shmillikhovskyy.

Qual a origem do cristianismo na Ucrânia e como os evangélicos chegaram ao país?

Se falarmos no cristianismo em geral, temos de destacar o ano de 988, quando o knaz (rei) do Reinado de Kiev, Vladimir, batizou toda a população da região no Rio Dnipro. Antes disso, ele havia enviado espiões para Constantinopla e Roma para ver as diferenças entre os dois ramos do cristianismo. Eles ficaram tão impressionados com a beleza dos templos bizantinos que compreenderam que o povo do Reinado de Kiev deveria seguir o estilo oriental do cristianismo. Assim, a Igreja Ortodoxa dominou a região por quase um milênio.

Quando falamos do protestantismo, podemos destacar alguns momentos. O templo atual da Igreja Batista Central, em Lviv, antigamente era um templo luterano. A primeira placa colocada no templo é datada de 1527, ou seja, apenas dez anos depois da Reforma de Martinho Lutero, na Alemanha. Isto significa que a igreja protestante sempre foi bem representada na parte ocidental da Ucrânia, devido aos impérios que a dominavam, como o Austro-Húngaro, sob a Casa de Habsburgo. Entretanto, a presença católica na parte ocidental da Ucrânia é muito forte. Já a parte oriental da Ucrânia sempre foi dominada pela igreja tradicional ortodoxa. A presença dos protestantes foi enfraquecida pelo catolicismo polonês.

A história diz que o movimento evangélico foi iniciado pelos menonitas alemães que vieram a estas terras a convite da imperatriz russa Catarina, a Grande, no século 18. Por serem excelentes agricultores, eles ofereceram emprego bem pago às pessoas da localidade. A maioria desses menonitas eram crentes. Por isso, a cada domingo, eles começaram a realizar os cultos com os estudos bíblicos em suas fazendas, convidando os seus funcionarios eslavos. Interessante que estes cultos eram iniciados sempre às 13 horas, depois do culto na igreja tradicional. O povo local logo deu nome de stunden (do alemão “horas”) às pessoas que se converteram ao evangelho, pois eles frequentavam os cultos à uma da tarde. Até hoje, em muitos lugares da Ucrânia, os protestantes são chamados de stundas.

“O secularismo e o materialismo, que abalaram tanto o continente europeu, chegaram também à Ucrânia.”

Anatoliy Shmillikhovskyy, pastor batista ucraniano

Quais os desafios das igrejas evangélicas na Ucrânia até pouco tempo atrás, antes da invasão russa?

Com a queda da União Soviética, a igreja ucraniana era uma das mais fortes. Em 1991 havia 800 igrejas batistas. Em dez anos, o número de igrejas batistas triplicou e o número de crentes duplicou, chegando a 150 mil pessoas. Em comparação, na Rússia, eles tiveram “apenas” 90 mil membros, tendo um território infinitamente maior. Pela estatística atual, o número de evangélicos na Ucrânia era de 3,62% dos cerca de 40 milhões de habitantes. As denominações mais fortes são as batistas e pentecostais (Assembleia de Deus); depois, as igrejas carismáticas e independentes; e, por fim, algumas igrejas luteranas e presbiterianas.

Se na década de 1990 as igrejas evangélicas viveram um grande crescimento, quando cada igreja batizava de 100 a 200 pessoas anualmente, os anos 2000 se carecterizaram pelo enfraquecimento dessa dinâmica. Mas, na última década, os evangélicos se adaptaram e começaram a entender a importância da obra missionária nacional e internacional.

Falando em geral, podemos destacar alguns desafios básicos de cunho interno e externo que a igreja vivia, antes da invasão russa. Primeiro, o secularismo e o materialismo, que abalaram tanto o continente europeu, chegaram também à Ucrânia. Segundo, o desafio da teologia da missão, em que se percebia o crescimento da membresia nas igrejas focadas em missões, e a diminuição da membresia nas igrejas que ignoram a obra missionária. Terceiro, o desafio da migração para os países ricos do ocidente. Conheço uma igreja batista em Lviv em que mais de 50% dos membros emigraram para os Estados Unidos.

Há liberdade de culto na Ucrânia? Como é a relação da igreja evangélica com o Estado?

Por incrível que pareça, a Ucrânia desenvolveu a melhor relação entre Estado e Igreja nos países da extinta União Soviética e, podemos dizer, em toda a Europa. Passando pelas duas revoluções, de 2004 e 2013, o povo ucraniano defendeu o seu direito a ter uma democracia, o que promoveu uma forte liberdade para a pregação do Evangelho. Pela Constituição ucraniana, todas as igrejas têm total liberdade para promover ações religiosas. Em muitos casos, o próprio governo solicita a ajuda das igrejas para resolver os problemas da sociedade, como por exemplo no trabalho infantil ou no ministério em presídios. Tive a oportunidade de estar em muitos lugares do leste europeu e da Europa; considerando a influência da igreja romena e moldava, não encontrei uma outra igreja tão sólida, numerosa e tão focada em missões como a igreja ucraniana. Até podemos dizer que a igreja evangélica ucraniana se tornou uma das mais fortes e mais importantes para a evagelização do mundo de fala russa.

Quais são os desafios que a igreja cristã está enfrentando nesse momento na Ucrânia?

O dia 24 de fevereiro mudou para sempre a vida da igreja e de todo o povo ucraniano. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, havia planejado tomar a Ucrânia em três dias, por isso enviou “apenas” 200 mil soldados para tomar um país com 40 milhões de habitantes. Ele achava que o povo ia recebê-lo com flores, mas encontrou uma resistência sem precedentes. No momento em que respondo suas perguntas, a guerra já está no seu 51.º dia consecutivo. O fato de que a Ucrânia não perdeu a guerra já significa certa vitória, embora com muitas lágrimas e mortes. Dizem que Putin errou em quatro pontos estratégicos em relação à Ucrânia: primeiro, supervalorizou o poder do seu exército; segundo, desvalorizou o poder do exército ucraniano; terceiro, não esperava a reação forte do ocidente; e último, ele não esperava a imensa solidariedade do povo ucraniano, que levou a forte movimento de voluntariarismo. A igreja de Cristo na Ucrânia se tornou um dos mais fortes agentes sociais no momento mais tenebroso da nossa história recente. Toneladas de alimentos, milhares de lugares para dormir, acolhimento de crianças e órfãos, e tantas outras coisas se tornaram cenários comuns em milhares de igrejas ucranianas. Neste momento perdemos o senso da “nossa” propriedade. Tudo se tornou para uso aberto de todos. Algumas casas recebiam até 25 pessoas em dois quartinhos, entre tantas outras iniciativas semelhantes.

Neste segundo momento de guerra podemos destacar outros desafios para a igreja de Cristo. Primeiro, continuar a servir aos refugiados com alimentação, abrigo e remédios, entre tantas outras necessidades. Segundo, dar apoio espiritual e emocional no meio da morte, da dor, da injustiça. Já temos muitas pessoas necessitadas de ajuda psicológica, pessoas que passaram por torturas, estupro e outras situações dramáticas e dolorosas. Terceiro, superar o ódio pelo “mundo russo”. Quarto, servir aos 5 milhões de refugiados que estão espalhados pela Europa e pelo mundo. Quinto, não perder o foco, procurando servir a Cristo, em vez de lutar contra o seu próximo. Sexto, servir com cuidado pastoral ao exército ucraniano na linha de frente. E, por último, não se cansar e continuar a servir de forma amorosa.

“Putin achava que o povo ia recebê-lo com flores, mas encontrou uma resistência sem precedentes. O fato de que a Ucrânia ainda não perdeu a guerra já significa certa vitória, embora com muitas lágrimas e mortes.”

Pastor Anatoliy Shmillikhovskyy

Quais são os riscos para a igreja na Ucrânia no caso de uma eventual conquista pela Rússia ou a instalação de um governo fantoche?

Se a Ucrânia perder a guerra, a igreja de Cristo ucraniana irá mergulhar no “mundo russo” que a ideologia putinista construiu ao longo dos anos. Perseguição severa, limitação das atividades missionárias e evangelísticas, com todas as agências missionárias e sociais sendo consideradas “agentes estrangeiras”, tidas como espiões ocidentais. Se a Ucrânia perder, pela lei russa as igrejas serão tidas como marginais da sociedade. E, para piorar, se a Ucrânia perder, a igreja ucraniana irá perder sua identidade missionária que Deus moldou ao longo dos últimos 30 anos, levantando missionários para muitos países da Europa e do mundo. Ironicamente, somente na década de 1990 Deus levantou cerca de 600 missionários ucranianos para a própria Rússia, que evagelizaram a Sibéria, o extremo leste e tantas outras regiões distantes. Se a Ucrânia perder, Putin terá de assassinar todos 40 milhões de ucranianos, pois, quando você experimenta a liberdade, jamais será escravo de alguém. Por isso eu creio que Deus irá nos dar a vitória. A igreja ucraniana vai lutar até a morte. A Verdade vai nos libertar.

Como os cristãos brasileiros podem ajudar os ucranianos e, especialmente, os cristãos ucranianos nessa hora?

Antes de tudo, em nome de todo o povo ucraniano e igreja ucraniana, queria agradecer a todos os brasileiros por estarem conosco. Sentimos este apoio como nunca. Mas, por favor, não parem de orar. A oração não precisa de visto, da passagem aérea, ou de um fuzil Kalashnikov AK-47 (muitos cristãos estão na linha de frente, defendendo com a arma as suas casas). A oração vai direto ao coração das pessoas. A oração da igreja de Cristo faz diferença. Podem crer: ainda conheceremos muitos milagres que Deus tem feito agora na Ucrânia. Segundo, apoiem a igreja com os recursos financeiros. Necessitamos de alimentos para refugiados, medicamentos aos feridos, combustível para levar ajuda humanitária, transporte para os voluntários, materiais para construção de abrigos, entre tantas outras coisas. Terceiro, necessitamos de voluntários para trabalhar com os refugiados na Europa, principalmente com crianças e mães. Quarto, vocês podem abrir as suas casas para receber refugiados. Entre tantas outras coisas que Deus pode colocar no seu coração.

“Se a Ucrânia perder a guerra, a igreja de Cristo ucraniana irá mergulhar no ‘mundo russo’ que a ideologia putinista construiu ao longo dos anos, com perseguição severa e limitação das atividades missionárias e evangelísticas.”

Pastor Anatoliy Shmillikhovskyy

O leitor pode pensar: “puxa, a Ucrânia fica tão distante, a mais de 10 mil quilomentros de nós. O que eu tenho a ver com esta guerra?” Meu caro amigo, cinco semanas atrás nós vivíamos vida tranquila e sem dificuldades. De um dia para o outro tudo mudou. A única coisa que ficou válida não foram os bens que acumulamos ao longo dos anos, nem os diplomas que conseguimos, mas o entendimento do valor da vida que Deus nos deu. Tenho certeza de que Deus está escrevendo a história na Ucrânia, que mexe com todo o mundo, e somos privilegiados de sermos testemunhas de Sua atuação.

Na segunda semana da guerra pude estar em uma igreja batista polonesa na cidade de Chelm, que fica a 40 quilômetros da fronteira com a Ucrânia. Quando entramos na igreja vimos algo inesperado: no meio do templo, começando do púlpito e até o último banco na galeria, vimos mais de 200 pessoas dormindo. Na cozinha havia umas 15 mulheres preparando comida. Dezenas de crianças fazendo barulho insuportável. E, no pátio, mais um ônibus chegando com refugiados da Ucrânia. Quando falamos com o pastor Henryk, e perguntamos “como você aguenta toda esta situação?”, ele, com voz cansada, porém tranquila, nos falou: “Nunca pensamos em fazer este tipo de trabalho. Mas, de um dia para outro, Deus mudou tudo. Jamais seremos os mesmos”. Somente a história vai mostrar que mudanças Deus iriá fazer neste mundo com a Sua igreja e com o Seu povo. Não sei você, mas eu não quero estar fora destes acontecimentos. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8,32).

Aqueles que se dispuserem a contribuir devem entrar em contato com a Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira, que fará com que os recursos cheguem aos missionários na Ucrânia.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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