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“Digo a vocês, meus amigos: não temam os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vou mostrar a quem vocês devem temer: temam aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo que a esse vocês devem temer. Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? Entretanto, Deus não se esquece de nenhum deles. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Não temam! Vocês valem bem mais do que muitos pardais. [...] Por isso, digo a vocês: não se preocupem com a sua vida, quanto ao que irão comer, nem com o corpo, quanto ao que irão vestir. Porque a vida é mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as roupas. Observem os corvos, que não semeiam, não colhem, não têm despensa nem celeiros; contudo, Deus os sustenta. Vocês valem muito mais do que as aves! Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? Portanto, se não podem fazer nada quanto às coisas mínimas, por que se preocupam com as outras? Observem como crescem os lírios: eles não trabalham, nem fiam. Eu, porém, afirmo a vocês que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, muito mais fará por vocês, homens de pequena fé! Portanto, não fiquem perguntando o que irão comer ou beber e não fiquem preocupados com isso. Porque os gentios de todo o mundo é que procuram estas coisas; mas o Pai de vocês sabe que vocês precisam delas. Busquem, antes de tudo, o seu Reino, e estas coisas lhes serão acrescentadas. Não tenha medo, ó pequenino rebanho; porque o Pai de vocês se agradou em dar-lhes o seu Reino.” (Lucas 12,4-7.22-32)
Vivemos em uma época profundamente marcada pelo medo. A política aprendeu a mobilizar pelo medo; ideologias constroem sua força anunciando ameaças; empresas descobriram que pessoas inseguras consomem; e os meios de comunicação sabem que tragédias, crises e catástrofes atraem muito mais atenção do que boas notícias. Todos os dias somos expostos a guerras, epidemias, violência, crises econômicas, caos político e previsões sombrias sobre o futuro. Algumas dessas ameaças são reais; outras, exageradas; outras desaparecem assim que surge o próximo motivo de alarme.
Há uma assimetria inevitável nas notícias. Milhares de aviões pousam com segurança todos os dias, mas isso não ocupa as manchetes. Um acidente, porém, atravessa o mundo em minutos. Milhões de pessoas chegam bem em casa, famílias permanecem unidas, crianças crescem, pessoas se recuperam de doenças, comunidades seguem prosperando. Quase nada disso é notícia. A ruptura é notícia. O desastre é notícia. A ameaça é notícia. E, pouco a pouco, podemos começar a perceber o mundo apenas por aquilo que nele há de mais assustador.
A Escritura, contudo, não responde ao medo com ingenuidade. O cristianismo não é uma religião de pensamento positivo. As Escrituras reconhecem que vivemos em um mundo caído, no qual existem guerras, doenças, perseguição, sofrimento e morte. Jesus nunca prometeu aos discípulos uma vida protegida de todas essas coisas. Ainda assim, repetidamente ouvimos da boca de Deus uma pequena expressão: “Não temam”.
O “não temam” de Jesus não nasce da negação do sofrimento, mas da certeza de que o poder dos homens é limitado e o cuidado de Deus, absoluto
Como essa ordem pode ser possível num mundo em que há tantas coisas temíveis? A resposta da Escritura não é simplesmente que tudo dará certo. É muito maior do que isso. A resposta é uma pessoa. Jesus Cristo é a boa notícia.
Jesus não nega a existência do perigo
Em sua última viagem para Jerusalém, onde seria rejeitado e morto, Jesus disse aos discípulos, como registrado em Lucas 12: “Não temam os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer”. A frase é ainda mais impressionante quando lembramos quem a pronunciou e para onde estava indo. Jesus não minimiza a ameaça: os homens podem matar. Seus discípulos seriam perseguidos, presos e mortos – e muitos deles de fato o foram. Portanto, o “não temam” de Jesus não nasce da negação do sofrimento, mas da certeza de que o poder dos homens é limitado e o cuidado de Deus, absoluto.
A coragem cristã não consiste em fechar os olhos para o mal, mas em enxergar o mal dentro de uma realidade maior. Por isso Jesus prossegue: “Temam aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno”. Ele estabelece uma hierarquia dos temores. Há coisas que podem ferir o corpo, mas há uma realidade ainda mais decisiva: comparecer diante do Deus santo.
Agostinho de Hipona, meditando sobre esse mesmo ensinamento, resume esse ensinamento com uma frase luminosa: “Temamos para não temer” (Sermão 65, sobre Mt 10.28). Ou seja, temamos aquele que pode destruir corpo e alma no inferno, para que nenhum outro medo nos domine. Quem teme a Deus de verdade já não precisa temer a morte nem os poderes deste mundo. O temor de Deus coloca todos os demais medos em seu devido lugar.
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É por isso que a Escritura afirma: “Quem tem medo dos outros cai numa armadilha, mas o que confia no Senhor está seguro” (Pv 29,25). Grande parte de nossas decisões erradas nasce do medo: medo da opinião alheia, da perda, da solidão, da doença, do futuro e da morte. Jesus nos lembra, porém, que nenhuma dessas coisas é soberana. Governos não são soberanos. Mercados não são soberanos. Doenças não são soberanas. Guerras não são soberanas. Nem mesmo a morte é soberana. Deus é soberano. Essa é uma das grandes consolações da providência divina. Não vivemos num universo governado pelo acaso. Nada acontece fora do governo sábio e santo de Deus. Isso não torna o sofrimento irreal; torna-o limitado. O mal existe, mas não reina.
O “não temam” repousa na providência do Pai
Jesus, então, oferece uma das imagens mais belas da passagem de Lucas 12: “Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? Entretanto, Deus não se esquece de nenhum deles. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Não temam! Vocês valem bem mais do que muitos pardais”. A lógica é simples e profunda. Jesus não diz: “Não temam porque vocês são fortes”. Também não diz: “Não temam porque vocês controlam seu futuro”. Ele diz, em essência: não tenham medo, porque o Pai conhece e cuida de vocês. O Deus que governa as galáxias conhece os pardais. O Deus que conduz a história das nações conhece os cabelos da cabeça de seus filhos. Nada é pequeno demais para sua providência. Aqui temos a doutrina da soberania de Deus transformada em conforto e confiança.
Mais adiante, Jesus fala dos corvos, que Deus alimenta, e dos lírios, que Deus veste. Então repreende seus discípulos: “Homens de pequena fé”! A ansiedade muitas vezes nasce de nossa tentativa de carregar aquilo que pertence exclusivamente à providência de Deus. Queremos controlar o amanhã, garantir nossa saúde, assegurar o futuro de nossos filhos e saber antecipadamente como a vida se desenrolará. Mas não controlamos o amanhã. Nunca controlamos. A Escritura nos oferece algo melhor: conhecemos aquele que governa o amanhã. E Jesus o chama de nosso Pai.
Jesus Cristo é a boa notícia
O coração da passagem está em Lucas 12,32: “Não tenha medo, ó pequenino rebanho; porque o Pai de vocês se agradou em dar-lhes o seu Reino”.
“Pequenino rebanho” não é uma descrição de força. É a imagem de um povo frágil, vulnerável, aparentemente pequeno diante do mundo. Jesus não promete que seus discípulos controlarão todas as instituições nem que seus inimigos desaparecerão. Ele simplesmente afirma: “O Pai de vocês se agradou em dar-lhes o seu Reino”. O Reino não é conquistado por nossa força; é recebido como dom. E quem anuncia essa promessa é o próprio Rei.
Os poderes deste mundo não têm a palavra final. Cristo tem as chaves. É por isso que ele pode dizer ao seu povo: “Não tenham medo”
Essa ligação entre o “não tenha medo” e o evangelho aparece desde o nascimento de Cristo. Quando o anjo se dirige aos pastores em Belém, suas primeiras palavras são: “Não tenham medo! Estou aqui para lhes trazer boa-nova de grande alegria”. E qual é a boa notícia? “Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2,10-11). A boa notícia não era uma ideia, uma melhoria das circunstâncias ou um programa de reforma social. Era uma pessoa: o Salvador havia nascido.
Jesus Cristo é a boa notícia porque veio enfrentar aquilo que mais deveríamos temer: nosso pecado diante de Deus. Na cruz, ele tomou sobre si a culpa de seu povo. O Justo morreu pelos injustos. O Filho suportou o juízo que merecíamos. No terceiro dia ressuscitou, venceu a morte, ascendeu aos céus e reina à direita do Pai.
Por isso, a mensagem da Escritura não é que nada de ruim acontecerá conosco. A mensagem é muito mais sólida: Cristo morreu, Cristo ressuscitou, Cristo reina e Cristo voltará triunfante – para consumar o Reino.
“Não tenha medo. Eu sou”
Essa verdade aparece com força extraordinária em Apocalipse 1. João estava exilado na pequena ilha de Patmos, no Mar Egeu, “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1,9). A igreja enfrentava oposição, e o próprio apóstolo sofria por sua fidelidade a Cristo. É nesse contexto de aflição que ele contempla o Cristo glorificado e cai aos seus pés “como morto”. Então Jesus coloca sobre ele a mão direita e diz: “Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive. Estive morto, mas eis que estou vivo para todo o sempre e tenho as chaves da morte e do inferno” (Ap 1,17-18).
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O fundamento do “não tenha medo” está no próprio Cristo. Ele é o primeiro e o último; esteve morto, ressuscitou e vive para sempre; possui as chaves da morte e do inferno. A morte não tem a palavra final. Satanás não tem a palavra final. Os poderes deste mundo não têm a palavra final. Cristo tem as chaves. É por isso que ele pode dizer ao seu povo: “Não tenham medo”.
Talvez temamos o futuro de nossos filhos, uma doença, a perda de alguém, a instabilidade econômica, a crise política, a ameaça de guerra, o envelhecimento ou a própria morte. Jesus não nos revela tudo o que acontecerá amanhã. Ele nos oferece algo melhor: a si mesmo.
O mundo continuará produzindo más notícias. Algumas serão verdadeiras, outras exageradas, outras logo serão esquecidas. Mas existe uma notícia que nunca envelhece: Jesus Cristo morreu pelos pecadores, ressuscitou dos mortos e reina sobre todas as coisas.
“Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o seu poder! [...] Não tenhais medo! Abri antes, ou melhor, escancarai as portas a Cristo!”
João Paulo II, na missa de início do seu pontificado, em outubro de 1978.
Por isso, quando o medo vier, não precisamos dizer: “Nada de ruim acontecerá”. Podemos dizer algo muito mais seguro: de acordo com a Escritura, meu Salvador vive, meu Pai governa, meus pecados foram perdoados, minha vida está nas mãos de Deus e nem mesmo a morte poderá me separar de Cristo – e o Reino virá em todo o seu poder. A última palavra não pertence ao medo. Pertence àquele que disse: “Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive”.
Foi exatamente esse “não tenha medo” que João Paulo II, no início de seu pontificado, em 1978, lançou como um apelo que atravessou as décadas: “Irmãos e irmãs! Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o seu poder! [...] Não tenhais medo! Abri antes, ou melhor, escancarai as portas a Cristo! Ao seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas econômicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem ‘o que está dentro do homem’. Somente ele o sabe! [...] Permiti, pois – peço-vos e vo-lo imploro com humildade e com confiança –, permiti a Cristo falar ao homem. Somente Ele tem palavras de vida; sim, de vida eterna”.
Esse chamado permanece atual. Não devemos abrir a Cristo apenas os recantos privados de nossa existência, mas toda a vida: nossa consciência, nossa família, nossa vocação, nossa cultura e nossa esperança para o futuro. Não porque desconheçamos os perigos deste mundo, mas porque sabemos quem reina sobre eles.
Não tenham medo. Cristo ressuscitou. Cristo reina. Cristo é a boa notícia.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Franklin Ferreira é bacharel em Teologia, pós-graduado em Bíblia e Teologia, mestre em Teologia e doutor em Divindade. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI (Estados Unidos), e consultor acadêmico. Autor de vários livros sobre teologia e história do cristianismo. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



