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Detalhe de "Cristo carregando a cruz", de Ticiano.
Detalhe de “Cristo carregando a cruz”, de Ticiano.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

Como já afirmei em outros textos nessa coluna, o “cristianismo progressista” é um grupo similar ao antigo movimento gnóstico, que, travestido de politicamente correto, reinterpreta ou nega os ensinos mais básicos da fé cristã. Tendo examinado a compreensão dos “cristãos progressistas” sobre a Escritura, trataremos agora do entendimento que este movimento tem das doutrinas cristãs do pecado e Cristo Jesus. Sirvo-me das percepções de Alisa Childers, em seu livro Another Gospel: A Lifelong Christian Seeks Truth in Response to Progressive Christianity, que será lançado em breve no Brasil pela Editora Fiel, e Michael J. Kruger, Os 10 mandamentos da esquerda cristã, recém-lançado no Brasil pela editora Trinitas.

A Queda e o pecado minimizados

A doutrina do pecado original e pessoal é rejeitada pelos “cristãos progressistas”. Estes não negam que o pecado existe ou que é algo ruim. Mas negam a ideia de que os seres humanos têm algum tipo de natureza pecaminosa que lhes foi transmitida por Adão – que é reduzido a mero mito religioso no ideário desses. E, ainda que reconheçam a fragilidade humana, terminam por ensinar que o pecado não é o que separa os seres humanos de Deus e suscita sua ira e desfavor, mas a própria vergonha autoimposta. Para estes, é preciso que as pessoas percebam que elas nunca foram separadas de Deus. São, na verdade, amadas e aceitas por Deus do jeito que são, não por meio de mudança ou regeneração, mas por meio da aceitação de si mesmas e de ficarem em paz consigo mesmas.

Assim, para os “cristãos progressistas” as pessoas não são realmente pecadoras e não são realmente más. Além de o conceito de pecado ser minimizado e relativizado, toda ideia de quão sério é o pecado e que Deus está irado com os pecadores é descartada. Na verdade, nestes círculos, Deus não é retratado como o totalmente santo e reto, que despreza e julga o pecado. Assim, não há realmente nada que torne as pessoas iníquas ou transgressoras. Na verdade, as pessoas são todas boas e têm a oportunidade de, por meio da mensagem progressista, ser ainda melhores. Para os “cristãos progressistas”, o único pecado verdadeiro é a falta de amor.

Para os “cristãos progressistas” as pessoas não são realmente pecadoras e não são realmente más

Mas, no fim, os “cristãos progressistas” acabam por reproduzir o ensino do herege Pelágio, do século 4.º. De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (§ 406), “Pelágio sustentava que o homem podia, pela força natural da sua vontade livre, sem a ajuda necessária da graça de Deus, levar uma vida moralmente boa; reduzia a influência do pecado de Adão à de um simples mau exemplo”. Portanto, para os “cristãos progressistas”, igrejas que ensinam que o ser humano é pecador são culpadas de “abuso espiritual” e “crueldade” para com seus membros. Mas, como escreve Luiz Felipe Pondé, estes retiram “do homem toda e qualquer capacidade de se ver como responsável pelo mal, a menos que ele seja rico, oprima sua mulher e seja homofóbico”. A conclusão, como Childers descreve, é que “se não somos inerentemente pecadores e separados de Deus por nosso pecado, a morte de Jesus se torna mais um exemplo de amor e perdão a seguir do que um sacrifício expiatório que nos reconcilia com o Pai”.

A divindade de Jesus questionada ou negada

Os cristãos confessam que Jesus é o eterno Filho de Deus, digno de adoração e louvor como o Deus que assumiu a natureza humana (Mt 2,11; 14,33; 28,9; Lc 24,52; Jo 9,38; Fp 2,10; Hb 1,6; Ap 5,8-12). Os “cristãos progressistas” não acreditam nisso. Certamente, nem todos deste movimento negarão a divindade de Jesus, mas ela tende a ser menosprezada. O nascimento virginal e outros eventos miraculosos da vida de Cristo também são minimizados, ignorados ou vistos como menos importantes que as lições de vida que se pode aprender com Jesus. Por exemplo, a ideia de que Jesus ressuscitou é frequentemente considerada menos importante ou significativa do que o que se pode extrair da ideia da ressurreição. O conceito de “Cristo cósmico” às vezes é apresentado como alternativa. Jesus seria um modelo e exemplo de alguém que foi batizado como humano e divino, e os seres humanos podem seguir seu exemplo encontrando o divino dentro de si mesmos. Por isso, nos discursos “cristãos progressistas”, a imagem de Cristo retratada guarda pouca relação com o que é revelado nos Evangelhos sobre o Salvador. Assim, para os “cristãos progressistas”, Jesus é retratado como transexual, indígena, palestino, presidiário, refugiado político, pobre, mulher e negro em desfile de escola de samba, comédia de situação ou discurso político.

Na verdade, os “cristãos progressistas” reduzem Jesus apenas a um exemplo a ser seguido. Ele seria como se fosse um irmão mais velho, que estabelece um padrão para que os adeptos sigam seus passos. Em termos cristãos, isso é parcialmente verdade, é claro: os cristãos seguem o exemplo de Jesus. Mas os “cristãos progressistas” emulam uma existência idealizada de Jesus que não guarda semelhança com os relatos evangélicos, relativizando sua morte, sepultamento e ressurreição. Jesus seria apenas uma imagem do que as pessoas podem ser e do que se pode fazer, e o foco na vida de Cristo é ser apenas um bom exemplo para as pessoas. Mas, tais como os pelagianos, os progressistas caem na mesma falácia de identificar a graça de Cristo em “seu exemplo, e não no dom de sua presença”, como escreveu Agostinho de Hipona.

Frequentemente, os “cristãos progressistas” se referem ao sacrifício de Jesus na cruz como horrível ou desnecessário. A ideia de que Deus Pai exigiria a morte de seu eterno Filho para perdoar completamente os pecados é vista como uma acusação ao caráter de Deus, transformando-o em um tipo de abusador divino. Isso às vezes é chamado por “cristãos progressistas” de “abuso infantil cósmico”. De acordo com Childers, “em círculos progressistas, [...] a ideia de que Deus exigiria o sacrifício de sangue de seu único Filho faz com que Deus, o Pai, seja algum tipo de abusador divino de crianças. Assim, eles frequentemente negam a expiação substitutiva de Cristo. [...] Essa mudança é importante porque, sem a expiação substitutiva de Cristo, não há meio para o indivíduo se reconciliar com Deus. Na visão progressista, Jesus [...] nos dá um exemplo a seguir, mas não nos dá solução para os pecados que realmente cometemos”.

Assim, banalizando a Escritura e rejeitando a expiação, a ressurreição de Cristo passa a ser tratada como uma metáfora útil e não como um fato ocorrido na história, na medida em que, para os “cristãos progressistas”, “as histórias não precisam ser factuais para falar a verdade”. Como Childers escreve: “Nem todo cristão progressista nega a ressurreição corporal de Jesus. No entanto, [...] a ação é mais enfatizada que a crença. Portanto, o que alguém realmente acredita sobre a ressurreição torna-se menos importante. [...] Frequentemente, a ênfase é mudada [de a ressurreição] ser uma realidade histórica para as lições que podemos aprender com a história [da ressurreição]. [...Mas] a verdade do cristianismo permanece ou cai com base no fato da ressurreição de Jesus ser um evento histórico real. A Escritura nos diz que, se isso não aconteceu, então não temos esperança de salvação”.

É importante destacar que a negação ou relativização da divindade de Jesus é uma rejeição do próprio ensino bíblico de que Deus é revelado na Escritura como Pai, Filho e Espírito Santo, o Deus Uno e Trino. Por isso, alguns “cristãos progressistas” defendem o panenteísmo, que seria a crença de que Deus estaria em toda a criação e toda a criação estaria em Deus, numa inter-relação. Segundo Childers:

“De acordo com essa visão, Deus habita o universo da mesma forma que uma alma habita um corpo. O panenteísmo nega que Deus criou o universo ex nihilo e vê o mundo como parte de Deus que está constantemente em processo e mudança. [...] Líderes progressistas [...] dão a entender isso comparando o Espírito de Deus a uma ‘força vital’, uma ‘energia criativa’ e uma ‘vitalidade divina sem fim’ [...] [assim como pela afirmação de] que devemos reconhecer a presença de Jesus em todas as coisas, inclusive em outras pessoas e nos elementos da Terra [... e de que o] universo [seria] como o ‘corpo de Deus’”.

Ela continua, afirmando que alguns “cristãos progressistas” chegam “ao ponto de escrever que cada um de nós e às vezes a ‘criação’ é o ‘quarto membro da abençoada Trindade’, o que implica que a plenitude de Deus não está completa até que nos tornemos parte dela”. Assim, como escrevem Peter Kreeft e Ronald Tacelli, “o panenteísmo é claramente uma heresia, pois acolhe como parte de sua doutrina a ideia de que o universo material não exige um Criador, e apenas um vivificador; um tipo de ‘alma do mundo’. Isso não é apenas não ortodoxo, mas parece totalmente irracional”.

Tal compreensão panenteísta, que reduz a divindade a uma força ou energia criadora, marca um abandono da distinção bíblica do Criador e da criatura, presumindo que Deus é de alguma forma dependente da criação – uma clara ruptura do ensino cristão sobre Deus: “E a fé católica consiste em venerar um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, sem confundir as pessoas e sem dividir a substância. Pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade”.

Moralismo, não salvação

Em sua reinterpretação dos ensinos cristãos tradicionais sobre pecado e salvação, os “cristãos progressistas” terminam por acreditar que os seres humanos podem se restaurar se apenas seguirem o exemplo de Jesus. Assim, a mensagem “progressista” é mais sobre o que os seres humanos fazem do que o que Cristo fez na cruz. Em uma palavra, a salvação, para os “cristãos progressistas”, é alcançada por meio do moralismo.

Assim, o maior objetivo da vida para o “cristão progressista” é que o ser humano apenas tem de ser uma boa pessoa, seguindo as regras do politicamente correto e aderindo aos dogmas inflexíveis dessa heresia: as agendas abortista, negra, queer, feminista, da libertação, indígena etc. Nesse sentido, para esse movimento, obras estão acima da fé. Como resume Krueger, para estes “o comportamento gracioso é mais importante do que crer na verdade”. Assim, a ênfase será inflexivelmente moralista. Se os “cristãos progressistas” não têm nenhum tipo de percepção de Jesus como aquele que deve ser adorado, então Cristo é apenas alguém a ser imitado. Com isso, os “cristãos progressistas” abandonam o evangelho da salvação em Cristo Jesus. Resta apenas um código moral, e isso reduz o “cristianismo progressista” a uma religião moralista politicamente correta.

Os “cristãos progressistas” assumem um ar de superioridade moral que os torna incapazes de conviver com quem pensa diferente deles

Mas, “curiosamente”, como nota Kruger, este moralismo “não aparece em assuntos relacionados a sexo”, e os progressistas postam-se “a favor da liberdade [sexual] e da escolha moral” – pois se preocupam “mais com amor e menos com sexo”. Esta é defendida por meio: 1. da apresentação das “virtudes morais daqueles que se encontram em pecados sexuais”; 2. da ênfase de “que Deus tem coisas mais importantes com que se preocupar”; 3. de retratar “aqueles que se levantam contra certas práticas sexuais como pessoas insensíveis e crueis”; e 4. da insistência de que Jesus está do lado “progressista”. Como Kruger conclui, essa argumentação “segue o manual clássico da justificação do pecado sexual”. Assim, os “cristãos progressistas” assumem um ar de superioridade moral que os torna incapazes de conviver com quem pensa diferente deles. Quando contrariados ou ofendidos, se portam como crianças birrentas, querendo autoritariamente impor suas vontades sobre todos, independente das consequências.

Como na antiga heresia pelagiana, toda a ênfase dos “cristãos progressistas” são imperativos: “faça”, “seja”, “mude”. Ironicamente, o próprio sistema religioso “progressista” que deveria ser libertador é profundamente escravizador. O “cristianismo progressista” cativa seus adeptos com uma caricatura da lei sem a Lei revelada no Sinai, e sem o Evangelho de Jesus Cristo, revelados na Escritura. Assim, como se lê na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, “quem se conforma a esta mentalidade pelagiana ou semipelagiana, embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, ‘no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas [...]’. Basicamente costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, onipotente”. Bento XVI também afirmou dos pelagianos: “Eles não querem ter nenhum perdão e, em geral, nenhum verdadeiro dom de Deus. Eles querem estar em ordem: não perdão, mas sim justa recompensa. Eles querem não esperança, mas sim segurança. [...] Assim, esse pelagianismo é uma apostasia do amor e da esperança, mas, em profundidade, também da fé”. Tais palavras se aplicam ao raivoso, implacável e triste moralismo dos “cristãos progressistas”.

Para os “cristãos progressistas”, os seres humanos podem ser regenerados não pela obra do Espírito Santo, mas por meio da implementação raivosa dos valores da esquerda, da agenda da justiça social e do politicamente correto

O “cristianismo progressista” é um moralismo religioso enfurecido, que minimiza ou ignora a obra de Cristo na salvação dos pecadores. Assim, a ideologia esquerdista e os valores da cultura contemporânea impulsionam a maior parte de sua reflexão e ação. Como resultado, o “cristianismo progressista” se torna um lobby político ou “caixa de ressonância” dos partidos de esquerda e extrema-esquerda. Pois, para os “cristãos progressistas”, a política é central e redentiva, na medida em que eles supõem que os seres humanos podem ser regenerados não pela obra do Espírito Santo agindo por meio da Palavra na Igreja, mas por meio da implementação raivosa, em conluio com as elites políticas e culturais, dos valores da esquerda, da agenda da justiça social e do politicamente correto.

Como saber se uma igreja aderiu a pautas progressistas?

Childers lembra que os adeptos desse grupo resignificam não apenas o que é pecado e quem é Jesus Cristo, mas as palavras-chave da fé cristã. Childers toma como exemplo “amor”. E destaca que, quando retirada de seu contexto bíblico, a palavra “amor” torna-se para os “progressistas” um termo abrangente para tudo que é não confrontador, agradável e afirmativo. Então, entre os “cristãos progressistas”, ouve-se comentários como: “Deus não pune pecadores, pois Deus é amor”, “não é nosso trabalho falar do pecado para as pessoas, nosso trabalho é apenas amar os pecadores como eles são”, ou “não precisamos pregar o evangelho, só precisamos mostrar amor, levando justiça aos oprimidos e provisão aos necessitados”.

Se nossa salvação depender de nós, essa, então, é uma má notícia. Pois o ser humano não tem como perdoar e salvar a si mesmo. Essa perversão da fé não é Evangelho

Assim, o cerne da mensagem “progressista” muda do pecado e redenção para a reforma da sociedade por meio da justiça social, da política e da repressão. Como Childers destaca, “não há dúvida de que a Bíblia nos manda cuidar dos desafortunados e defender os oprimidos. Esta é uma parte muito real e profundamente importante do que significa viver nossa fé cristã. No entanto, a mensagem central do cristianismo – o evangelho – é que Jesus morreu por nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou e, assim, nos reconciliou com Deus. Esta é a mensagem que realmente trará liberdade aos oprimidos”. Muitos “cristãos progressistas” acham que o conceito de Deus entregando seu eterno Filho à morte na cruz é embaraçoso, apavorante ou repulsivo. Portanto, a justiça social e ações políticas são colocadas no lugar da cruz. Com isso, pode-se ouvir dos “cristãos progressistas” comentários do tipo: “o pecado não nos separa de Deus, somos criados à sua imagem e Deus nos chamou de bons”, “Deus não requer um sacrifício pelos nossos pecados”, “os primeiros cristãos viviam em meio à prática pagã do sacrifício de animais e contaram a história de Jesus em termos similares”, ou “a Bíblia tem autoridade, mas foi mal-interpretada durante 2 mil anos de história da igreja”.

Opiniões como essas – algumas vezes proferidas de forma sutil e misturadas com afirmações biblicamente verdadeiras – revelam que clérigos, comunidades ou infiltrados têm aderido ao “cristianismo progressista”. Mas este é um ataque direto à fé cristã, ao eliminar o pecado, a necessidade da morte vicária de Cristo e sua ressurreição. Se não há Queda ou pecado real, então a Cruz é reduzida a nada. Assim, Cristo seria apenas um bom exemplo de boa pessoa que nem tem poder para salvar pecadores e toda a vida é reduzida a um moralismo opressor. E isso é que é realmente revelador sobre o “cristianismo progressista”: no fim, tudo depende do ser humano. Mas, se nossa salvação depender de nós, essa, então, é uma má notícia. Pois o ser humano não tem como perdoar e salvar a si mesmo. Assim, essa perversão da fé não é Evangelho. O verdadeiro Evangelho, como revelado na Escritura e preservado na tradição, é a boa nova de que tudo foi feito e concluído na impressionante e consumada obra de Cristo na cruz. Portanto, como Michael Kruger afirma, “o cristianismo liberal e progressista não é cristianismo”.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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