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Escolas fechadas são o maior custo oculto da pandemia
| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

O fechamento de escolas tem sido uma medida comum na batalha da maioria dos países contra o coronavírus. A ideia das autoridades é evitar as aglomerações em sala de aula e, com isso, colaborar para a manutenção do distanciamento social. Diferentemente de outras atividades, porém, a paralisação da educação não traz um custo imediato e por isso a reabertura de escolas tem ficado no fim da fila das prioridades em alguns lugares. É o caso do Brasil.

Há um debate forte em diversos países sobre a duração do fechamento das escolas e seu custo-benefício. Do lado dos custos, especialistas tentam demonstrar que estudantes em casa, mesmo aqueles com algum acesso a métodos de ensino a distância, têm perdas cognitivas que terão efeitos de longo prazo. E os benefícios do fechamento prolongado das salas de aula para o controle do vírus não são absolutamente claros.

Uma das dificuldades de se discutir de forma objetiva os limites do fechamento das escolas é que seu custo não é mensurável. Estamos falando de uma possível redução na renda ao longo dos anos devido a um atraso na absorção de conteúdo. Isso não se transforma em renda imediatamente e é por isso que as autoridades acreditam ser melhor permitir a abertura de bares do que de escolas no momento de relaxar as restrições ao convívio social.

A perda cognitiva tem sido estimada a partir de estudos sobre os períodos de férias. Está bem documentado na literatura que nessas fases do ano há perda de conhecimento e que ela é mais intensa em matemática do que em linguagem, e maior entre estudantes de comunidades mais pobres. Um estudo a partir dessa literatura feito por pesquisadores da Universidade Brown, nos Estados Unidos, calcula uma perda durante a pandemia de até 37% em linguagem e 63% em matemática - essa seria a regressão de estudantes americanos para o retorno das aulas no segundo semestre (outono no Hemisfério Norte), em relação ao conteúdo do ano letivo anterior.

No Brasil, os economistas do Insper Ricardo Paes e Barros e Laura Müller Machado criaram um modelo para estimar a perda de renda provocada pelo atraso educacional devido ao coronavírus. Eles criaram duas hipóteses: uma na qual há perda de conteúdo de um ano letivo, mas não é retardada a entrada no mercado de trabalho, e outra na qual o conteúdo é reposto, mas os jovens entram mais tarde no mundo do trabalho. A perda estimada para a primeira hipótese é de 23% do PIB, caindo para 5,3% no segundo caso.

Uma outra conta feita pelo Instituto Brookings colocou um valor de 12,7% do PIB para uma redução de quatro meses no tempo total de aprendizado dos estudantes que hoje estão matriculados em escolas nos Estados Unidos. Essa é uma perda que se dilui na renda mensal média de cada uma dessas pessoas ao longo das próximas décadas e, por isso, não aparece de forma clara no debate público. Mas é uma cifra assombrosa quando extrapolada para todo o mundo: US$ 10 trilhões.

Evidentemente, a perda não recairá sobre todos os estudantes da mesma forma. No Brasil, por exemplo, muitas redes privadas conseguiram colocar no ar seus sistemas de educação a distância. Algumas redes municipais e estaduais de ensino também conseguiram criar mecanismos para manter o acesso ao conteúdo, como videoaulas. Não devemos esperar, no entanto, que essas iniciativas tenham resultados similares ao do ensino presencial. Fatores como o improviso das aulas, falta de acompanhamento da evolução do estudante e falta de acesso à internet para muitos jovens são obstáculos claros ao sucesso dessas ações, quando elas existem.

Se o custo do fechamento das escolas existe e é alto, precisamos nos perguntar sobre os benefícios. Aqui, entramos em um debate que não foi concluído por especialistas. O único ponto consensual é que as crianças estão pouco sujeitas às complicações da Covid-19. Mais inconclusiva é a percepção de que elas também transmitem menos a doença.

Um estudo publicado na revista Lancet mostra que não há evidências que embasem uma escolha sobre o que fazer com as escolas durante a pandemia de Covid-19. Em casos anteriores de coronavírus, o fechamento de escolas não foi decisivo no controle de doenças como Sars e Mers. Os pesquisadores chamam a atenção para o fato de que o novo coronavírus tende a provocar poucos sintomas nas crianças, o que pode limitar a disseminação da doença em escolas. Mesmo assim, essas informações não são suficientes para descartar o fechamento das salas de aula ou a adoção do distanciamento social dentro das escolas.

Na falta de dados, é preciso olhar para países que já trilharam o caminho de abrir escolas. A Suécia manteve parte significativa dos serviços escolares abertos e não se encontrou evidência de que essa escolha tenha disseminado a doença – no país, o principal problema foi o descuido com casas de repouso e asilos, o que tem sustentado críticas ao modelo menos restritivo de combate ao coronavírus adotado por lá. Outros países que fecharam escolas estão usando medidas de contenção, como barreiras plásticas nas carteiras e testes semanais de todos os alunos. De qualquer forma, não há registros importantes de retorno da doença por causa da reabertura de escolas.

Na Austrália, um estudo feito em 15 escolas encontrou evidências de que a transmissão no ambiente escolar é limitada, sendo menor para a Covid-19 do que para outras doenças respiratórias. Metade dos casos iniciais foi registrada entre funcionários das instituições de ensino, o que também ressalta a necessidade de se encontrarem meios de proteção aos trabalhadores.

Ainda não existe um protocolo único para a reabertura das escolas. Um relatório feito por especialistas em parceria com autoridades canadenses, por exemplo, sugere a manutenção de menos alunos dentro das salas, ao mesmo tempo em que dispensa medidas como máscaras e distanciamento social por serem impraticáveis.

No Brasil, essa discussão está longe de produzir um modelo de reabertura que reduza os danos da pandemia sobre as crianças. As autoridades vêm retardando o processo de reabertura dos equipamentos de educação e priorizando bares, estádios e shopping centers. Em muitos lugares, esse sistema de reabertura tem sido ineficiente, feito muitas vezes sem que a curva de novos casos esteja baixa o suficiente.

O retorno das aulas deveria ser um ponto prioritário para a política pública de contenção ao coronavírus. O custo invisível da parada na educação está sendo passado de forma injusta para os mais jovens, que não participam das decisões sobre como segurar a curva de crescimento no número de casos. Não é algo estranho para um país que nem ministro da Educação tem.

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