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Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central| Foto: Raphael Ribeiro/BCB

Em março, quando a economia travou por causa das restrições impostas para segurar a contaminação pelo coronavírus, a previsão para a inflação neste ano despencou. Agora, o cenário é o inverso: o mercado prevê que em meados de 2021 o IPCA, índice oficial de preços, vai estourar o teto da meta antes de voltar a cair e encerrar o ano bem comportado.

E se a inflação não cair? E se nosso histórico de inércia inflacionária se repetir no ano que vem? Essas são duas questões políticas importantes porque podem definir como estará o clima econômico no início do ano eleitoral de 2022.

Inflação é impopular, reduz o poder de compra e leva a uma sucessão de notícias ruins na economia: os juros sobem, a atividade econômica cai, o desemprego cresce. Esse ciclo foi um dos fatores que tornaram o impeachment de Dilma Rousseff tão popular.

É por isso que o presidente Jair Bolsonaro conta com seu nome mais forte na economia - que, sem surpresa a essa altura do governo, não é Paulo Guedes. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, é hoje quem dá as cartas na economia e, para sorte de Bolsonaro, ele terá condições de entregar uma combinação de inflação e juros baixos no início de 2022.

Pode ter passado despercebido para a maioria das pessoas quando, entre o fim de setembro e o começo de outubro deste ano, Campos Neto deu declarações que ajudaram a enterrar uma péssima ideia do time de Guedes. Na época, a equipe econômica tentava viabilizar o Renda Cidadã com uma combinação de furo no teto de gastos e calote em precatórios.

Para agentes de mercado, Campos Neto declarou que o Banco Central retiraria sua orientação sobre o médio prazo (chamada de forward guidance) no caso de abandono da âncora fiscal. O recado era de que imediatamente o BC poderia mudar sua política e elevar os juros por entender que a política fiscal saiu do controle.

A gestão de Campos Neto na crise do coronavírus foi eficiente em várias frentes. Primeiro, o BC proveu liquidez para o sistema bancário. Diante das incertezas sobre a qualidade do crédito e a inadimplência, o sistema financeiro resistiu bem. Também houve uma ação para limitar a desvalorização do real, e a redução dos juros básicos da economia para o menor nível da história.

O BC, sob Campos Neto, adotou o modelo de forward guidance para deixar mais transparente sua comunicação com agentes de mercado. É claro que a autoridade monetária não atravessou o ano sem receber críticas. No início da crise, muitos economistas acreditavam que a redução dos juros precisava ser mais rápida e até mais profunda. Outros se incomodaram com alguma falta de clareza nas orientações do BC sobre sua visão de médio prazo.

E, agora, temos a questão ainda em aberto sobre a inflação. A alta de preços foi impulsionada por fatores que escapam à ação do BC, como a parada de fábricas no início da pandemia, o que reduziu estoques, o choque de demanda criado pelo auxílio emergencial (que evitou uma contração maior da economia ao mesmo tempo em que foi mais amplo e caro do que o necessário) e questões climáticas. Soma-se a isso a desvalorização do real, este sim um fator que o BC influencia, mas que é um efeito colateral da própria redução da taxa básica de juros.

A inflação mais alta do que se imaginava já está fazendo o mercado refazer algumas previsões. A alta de juros no segundo semestre de 2021 entrou na conta nas últimas semanas, ainda para níveis historicamente muito baixos. Seria um ajuste que deixaria os juros reais ainda perto de zero. Mas, para a inflação, há quase consenso de que, mantido o teto de gastos, não existe risco de estouro da meta.

O BC se baseia em alguns fatores para vender a tese de que o ciclo inflacionário será curto, controlado e sem a necessidade de juros muito altos. Primeiro, é o fato de haver muita capacidade ociosa na economia - cujo número mais triste é o desemprego em dois dígitos. Além disso, o modelo do BC demonstra que o carregamento da variação cambial para a inflação é limitado, o mesmo ocorrendo com a inércia inflacionária - para embasar essa comunicação, a autoridade monetária divulgou recentemente seu modelo estatístico para prever a inflação.

Se o BC diz isso, o que poderia dar errado? Um novo choque de oferta provocado pelo coronavírus, talvez, ou um repasse acelerado da inflação atual para serviços e, em seguida, preços administrados. A inflação em meados do ano que vem vai encostar em 6% ao ano. Não é algo confortável, e vale como um teste final para Campos Neto.

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