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A Guerra de Putin e os Usos do Antissemitismo
| Foto: EFE

Há uma contradição no discurso de Putin. Ele deseja “desnazificar” a Ucrânia, mas seu estilo de governança traz marcas fascistas e antissemitas. Ao mesmo tempo, a ascensão do antissemitismo no mundo eslavo é uma questão real, que o autocrata manipula com interesses geopolíticos. Para nos ajudar a desembaraçar esse novelo, convidamos Igor Sabino, diretor do Philos Project Brasil.

Por Igor Sabino

O mundo ainda assiste perplexo ao que está acontecendo na Ucrânia. Faz mais ou menos uma semana que o país foi invadido pela Rússia. Desde então, mais de um milhão de pessoas já foram forçadas a deixar suas casas, em uma crise de refugiados que pode ser maior do que a da Síria, em 2015. Soma-se a isso a ameaça do emprego de armas nucleares, os impactos econômicos das sanções econômicas do ocidente contra os russos e o temor de um conflito mundial.

As ações do presidente russo, Vladimir Putin, são injustificáveis, sobretudo do ponto de vista do Direito Internacional e das noções de guerra justa, atraindo a condenação de praticamente toda a comunidade internacional. Desse modo, para obter a legitimidade interna, o déspota tem utilizado uma série de recursos discursivos e investido pesado em uma guerra de narrativas e estratégias de desinformação. Uma delas é a afirmação de Putin de que o objetivo da ofensiva é “desnazificar” a Ucrânia.

Para muitos, no Ocidente, isso não faz o menor sentido. Afinal, o atual presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky é judeu, descendente de sobreviventes do Holocausto, e foi eleito democraticamente com 70% dos votos. Outros afirmam que um presidente judeu não é evidência suficiente, apontando a existência de grupos nacionalistas com ligações neo-nazistas no país. Um deles é o Batalhão Azov que, em 2016, até esteve envolvido com células neonazistas aqui no Brasil, no Rio Grande do Sul. O grupo de extrema-direita ucraniano, porém, tem uma influência muito menor do que se atribui a ele. Nas últimas eleições, conseguiu menos de 2% de representação no parlamento, número menor do que os obtidos pela extrema direita em outros países da Europa, como Alemanha e França.

O que se vê, por conseguinte, é uma manipulação hipócrita da pecha de antissemitismo. Se, por um lado, o antissemitismo propriamente dito cresce e se espalha, a própria luta contra o antissemitismo parece ser às vezes usada como arma em situações nas quais há pouco ou nenhum interesse em realmente proteger os judeus. Frequentemente, acusar inimigos de “nazismo” importa mais do que proteger suas vítimas históricas.

Entre tantas questões urgentes, evocadas pela guerra de Putin, a questão do neonazismo e do antissemitismo no mundo contemporâneo demanda atenção especial. É preciso perguntar sobre o que é discurso e o que é fato nesse assunto. E a resposta revela algumas verdades bastante inconvenientes.

De acordo com a Anti-Defamation League (ADL), organização judaica de combate ao ódio, em uma pesquisa conduzida em 2019 em cem países, cerca de 1 bilhão de pessoas possuem opiniões antissemitas. As principais fontes desse ódio aos judeus são o radicalismo islâmico, a extrema direita e a esquerda radical. Nos últimos anos, em virtude da pandemia, é muito provável que esse número tenha aumentado ainda mais, devido, principalmente a comparações infundadas entre medidas sanitárias de combate à COVID-19 e o Holocausto. Soma-se a isso também o sentimento anti-Israel, que cresceu ainda mais após os confrontos entre o Estado judeu e o Hamas, grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza, em maio de 2021.

Nesse contexto, a Aliança Internacional em Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês) define o antissemitismo como sendo “uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus”. Isso inclui manifestações verbais e físicas contra indivíduos ou uma coletividade judaica, inclusive o atual Estado de Israel. A definição, contudo, deixa claro que nem toda crítica a Israel é antissemita, o sendo apenas quando se utiliza de um padrão que não é aplicável a nenhum outro país.

Frequentemente, acusar inimigos de “nazismo” importa mais do que proteger suas vítimas históricas

Essa definição é adotada por mais de 30 países. Dentre eles, a Ucrânia e, desde o fim do ano passado, o Brasil. Lá, porém, devido uma lei adotada em fevereiro pelo parlamento ucraniano, os indivíduos culpados por antissemitismo podem responder criminalmente e as penas variam desde o pagamento de multas até cinco anos de prisão. No Brasil, o antissemitismo também é crime, mas não tipificado em uma lei específica, sendo enquadrado ou como racismo ou violação à liberdade religiosa. Fato que tem dificultado a punição nos casos de ódio aos judeus.

Nesse quesito, um elemento comum aos dois países é a atuação de grupos de extrema-direita, um desafio enfrentado por praticamente todas as democracias modernas. No Brasil, apenas nos últimos três anos, os grupos neonazistas cresceram 270%, e o padrão se repete em vários cantos do globo. Isso ajuda a explicar o motivo pelo qual várias pessoas na direita têm sido inclinadas a apoiar Putin e a razão pela qual o presidente russo tem apostado no discurso de “desnazificação” da Ucrânia.

Como escreveu o filósofo Jason Stanley, especialista em fascismo, para o The Guardian, Putin é um dos principais líderes da extrema direita mundial e tem insistido na ideia antissemita de que os judeus não foram as principais vítimas do Holocausto. Uma das características do nacionalismo defendido por ele e abraçado por muitos cristãos na Europa é a crença de que o ocidente está em declínio devido à imigração islâmica, à força dos movimentos LGBTQIA+ e a uma crise de masculinidade. Por trás disso tudo estariam os judeus, os principais defensores do chamado globalismo. De acordo com essa visão, as verdadeiras vítimas do Nazismo hoje seriam os cristãos brancos, cada vez mais ameaçados pelo liberalismo e pelas instituições internacionais com suas agendas progressistas, como a ONU e a União Europeia.

Segundo a ADL, cerca de 34% da população do leste europeu acredita em estereótipos que fortalecem essa narrativa; 72% dos ucranianos, por exemplo, acreditam que os judeus têm muito poder no mundo dos negócios; 50% dos russos acreditam na mesma coisa. Na Polônia, onde estão os campos de Auschwitz, esse número chega a 56%. Isso, porém, não é uma exclusividade dos europeus. A região do mundo mais hostil aos judeus continua sendo o Oriente Médio, devido principalmente ao conflito palestino-israelense: 74% dos norte-africanos e médio orientais têm algum tipo de percepção antissemita.

No Brasil, o número chega a 25%. Até mesmo os EUA, onde historicamente a comunidade judaica sempre floresceu, vem lidando com casos crescentes de antissemitismo. Ainda segundo a ADL, em 2021, houve mais de 350 casos de propaganda antissemita no país. E, de acordo com o FBI, os judeus, que compõem 2% da população americana foram alvo de 60% dos crimes de ódio por religião. As principais causas disso são os movimentos progressistas contrários a Israel, sobretudo nas universidades, bem como a popularidade da extrema direita, especialmente movimentos conspiratórios como o QAnon.

O contexto brasileiro, infelizmente, tem vivido um cenário semelhante. O episódio no mês passado envolvendo um podcaster que defendeu a legalização do nazismo no país mostrou nas redes sociais o quanto que a extrema direita e a esquerda radical brasileira estão unidas na propagação de estereótipos antissemitas. O conflito na Ucrânia, portanto, ressalta o quanto que o antissemitismo tem ressurgido no mundo, se tornando um problema verdadeiramente global, com consequências sérias para toda a sociedade. Afinal, os judeus são como canários em uma mina, um termômetro do nível de oxigênio.

Tudo isso deveria soar um alerta aos cristãos, principalmente neste período de quaresma. Eduard Dolinsky, um judeu ucraniano que luta contra o antissemitismo em seu país de origem, tem documentado extensivamente no Twitter como que grande parte do ódio aos judeus no país é alimentado por meio do cristianismo e de imagens anti-judaicas difundidas em eventos do calendário litúrgico.

Enquanto jejuamos em memória ao sofrimento de Cristo, fazemos bem ao refletir sobre como interpretações erradas do Novo Testamento contribuíram ao longo da história - e ainda o fazem - para a perseguição e morte de milhares de judeus. Precisamos ser lembrados que Jesus é um homem judeu e que o fato de que algumas lideranças judaicas o entregaram para ser crucificado pelos romanos não torna os judeus de hoje culpados pela sua morte.

Um dos maiores perigos do antissemitismo é o fato de ele sempre crescer em silêncio e em meio à ignorância. Muitas vezes repetimos estereótipos anti-judaicos que foram usados até mesmo pelos nazistas, sem nos darmos conta disso. O discurso de Putin, nesse sentido, nos desafia a ir além das guerras de narrativas e dos vieses ideológicos, para enxergar com o máximo de clareza o fenômeno do antissemitismo e discernir usos hipócritas da luta contra ele. Devemos ter clareza sobre a natureza do problema, sem admitir sua manipulação com propósitos políticos injustos e imorais. Enquanto cristãos, temos a obrigação de fazermos esse exercício. Pois, como afirma o apóstolo Paulo, no capítulo 11 de sua Carta Romanos, não podemos nos tornar ignorantes sob o “mistério de Israel”.

Igor Sabino é mestre em Relações Internacionais (UEPB) e doutorando em Ciência Política (UFPE). É autor do livro “Por Amor aos Patriarcas: reflexões brasileiras sobre antissemitismo e sionismo cristãos” e líder do The Philos Project no Brasil.

Siga Igor Sabino no Twitter: @igorhsabino

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