Detalhe de “Lamento pela morte dos primogênitos”, de Charles Sprague Pearce.| Foto: Wikimedia Commons
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Quis a Providência que o princípio da quarentena coincidisse com a Quaresma. Que é o tempo no qual os cristãos desaceleram as coisas, na medida do possível em dias modernos, e se tornam meditativos, com a atenção voltada para a história do Evangelho. A jornada derradeira de Jesus para Jerusalém, onde – dizia ele aos ouvidos incrédulos de Pedro e seus companheiros – ele seria entregue aos sacerdotes e escribas, e morto.

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Domingo passado Jesus entrou em Jerusalém. Foi o Domingo de Ramos. Agora as coisas se processam rapidamente: quando este artigo for publicado, Jesus já terá celebrado a Páscoa com os discípulos na quinta à noite, enfrentado o Getsêmani e atravessado um ignominioso julgamento no escuro da madrugada. Em breve será crucificado – ou talvez até já o tenha sido, a depender de quando você, leitor, estará lendo este texto.

Mas para muitos será difícil dar atenção a essa história, a maior de todas as histórias, enquanto outra história incompreensível se desenrola bem diante de nossos olhos: a tragédia da pandemia da Covid-19. Mas quero sugerir que podemos ler uma história com a outra. E, em tempo de festa religiosa, tomo a liberdade de arriscar essa leitura.

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Um tempo de pragas

Em primeiro lugar, lembro que a nossa Páscoa anual foi instaurada por uma Páscoa judaica, celebrada por Jesus em Jerusalém. E essa Páscoa, por sua vez, era a celebração de uma noite terrível e maravilhosa, quando Yahweh libertou o povo hebreu do Egito para levá-lo ao deserto e lá estabelecer com ele um pacto; e então transportá-lo para Canaã, a terra prometida, “terra que mana leite e mel”. Creia você ou não na história, essa é a história da Páscoa, cheia de reverberações religiosas e políticas, como observou Michael Walzer em Exodus and Revolution.

Mas o que para os hebreus foi uma grande alegria, para os egípcios foi uma desgraça sem fim. A Páscoa, sinal de um grande ato salvador do Deus de Abraão, Isaac e Jacó, deu-se em meio a uma longa série de pragas. Dez pragas pavorosas, que trouxeram pobreza, fome, doença, morte e lamento. Uma série de juízos divinos.

É compreensível que toda a ideia de juízos divinos na história faça pouco sentido para leitores agnósticos ou ateístas. Mas até mesmo para alguns cristãos, acostumados como estão a ler a realidade como um grande sistema de suporte e inclusão de todos, a ideia soa cruel e barbárica. Aspiramos e trabalhamos por democracias liberais, que produzam riqueza e justiça social, e tendemos a pensar em Deus como o candidato ideal à Presidência da República dos homens. Nosso candidato deve ser justo, sentimental, inclusivo e, acima de tudo, respeitar a vontade do povo.

Será difícil dar atenção à maior de todas as histórias enquanto a tragédia da pandemia se desenrola bem diante de nossos olhos. Mas podemos ler uma história com a outra

Apesar de parecer democrática e modernizada, essa visão de Deus deixa de fora muitas coisas. Na verdade, deixa de fora tudo o que nos habituamos a fingir que não existe, e que negamos em nossa civilização. Entre essas coisas, por exemplo, a natureza, com sua implacável combinação de ordem e caos, e a absoluta vulnerabilidade do homem diante dela. Ela também deixa de fora a realidade do pecado, tanto da responsabilidade humana quanto dessa culpa cósmica que nenhuma terapia pode enfim aplacar, e que nenhuma ordem política pode superar, e que nenhuma educação pode desensinar. Essa visão democrático-terapêutica de Deus reforça a negação neurótica da morte, e da voz divina que diz: “tu és pó, e ao pó tornarás”. Voz que, enfim, está definitivamente desinteressada pela “vontade do povo”.

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Retirando a máscara da polis, cá estamos de novo, expulsos do jardim e conscientes de que Deus vem nos encontrar. O que diremos a Ele?

Ora, as pragas do Egito, como todas as pragas da história, tinham o mesmo efeito, sempre: desmascarar os dispositivos de fuga e autoengano que funcionam tão bem, na maior parte do tempo. As pragas expõem os nervos, esfolam a pele, arrancam as roupas e mostram as vergonhas; nos acordam do sono dogmático tal qual água gelada no rosto que sonha.

Durante as grandes crises históricas, os fundamentos, tanto da nossa existência individual quando da própria civilização, ficam cruelmente expostos para serem vindicados ou abalados. As grandes crises históricas são diacrisis históricas, momentos de revelação e de encontro com os limites da realidade, os limites da própria lei natural. São os juízos divinos na história, diante dos quais os homens têm a oportunidade de encontrar a si mesmos, e de responder à pergunta: onde estás?

Deuses humilhados

Os egípcios tinham suas próprias fabricações da divindade. Seus deuses eram suportes ideológicos para suas práticas sociais e seu sistema de civilização. O Nilo, o Sol, a Noite e o Faraó eram honrados como divindades, e seu sistema religioso legitimava a escravidão do povo hebreu. E assim devemos entender as dez pragas, e o juízos de Deus contra o Egito: não, em primeiro lugar, contra o povo, mas, em primeiro lugar e acima de tudo, contra os falsos deuses. E esse foi o propósito da décima praga.

No capítulo 12 do livro do Êxodo, temos o relato de quando Yahweh ordena a Moisés e a Aarão a instituição da Páscoa, quando um cordeiro deveria ser morto e uma ceia ser preparada para a família e os vizinhos. O sangue desse cordeiro deveria ser espalhado nos batentes e na viga da porta. E assim os hebreus estariam livres da última praga, a morte dos primogênitos:

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11 E vós o comereis assim: com vossos cintos na cintura, vossos sapatos nos pés e vosso cajado na mão; e o comereis às pressas. Esta é a Páscoa do SENHOR.
12 Porque naquela noite passarei pela terra do Egito e ferirei de morte todos os primogênitos na terra do Egito, tanto dos homens como dos animais; e executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR.
13 Mas o sangue servirá de sinal nas casas em que estiverdes. Se eu vir o sangue, passarei adiante, e não haverá praga entre vós para vos destruir, quando eu ferir a terra do Egito.
14 E este dia será um memorial. Vós o celebrareis como uma festa ao SENHOR e como estatuto perpétuo através de todas as vossas gerações.

Chamo atenção para o versículo 12: “executarei juízo sobre todos os deuses do Egito”. O Nilo, o Sol, a Noite e Faraó lhes asseguravam de que eles eram invulneráveis, e que hebreus serviam para ser escravos. Falsos deuses estavam por trás do comportamento desumano do faraó e da segurança arrogante dos egípcios. E é assim na tradição judaico-cristã: deuses falsos são escudos para a inautenticidade e perversidade humana. Pelo bem dos homens, os ídolos devem ser, simbolicamente falando, quebrados. Despossuídos de seus arbustos, os homens nus podem deixar de fugir e encarar o seu Criador.

Mas como Yahweh nos põe nessa condição? Achemos isso justo ou não – tanto faz, no que tange ao choque da experiência – quando as pragas nos alcançam, seja levando nossos primogênitos, seja enfraquecendo a mão de nossos opressores sobre nós. Hebreus e egípcios se encontraram com o Deus verdadeiro, ainda que uns o tenham visto abrindo os braços, e outros o tenham visto dando-lhes as costas.

O “negativo” da Páscoa

E cá estamos, 2 mil anos depois de Cristo, e cerca de 3,4 mil anos depois da noite terrível da morte dos primogênitos. Estamos celebramos a Páscoa do Senhor, já com o entendimento teológico de que Cristo é o cordeiro pascal, e que como o Mar Vermelho foi aberto para os hebreus passarem, a ressurreição de Cristo é um penhor de esperança para os que morrem como seus discípulos. Esse é o lado “positivo” da Páscoa.

Mas há um lado “negativo”: celebramos essa Páscoa bem no meio de outra praga.

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Certamente não me prestarei aqui ao esforço fútil de apontar entre as vítimas culpados e inocentes diante da mão divina. Alguns que sofrerão com a Covid-19 são santos, como o era Jó; outros tantos indivíduos perversos lucrarão temporariamente com a pandemia. Não sou um deus para emitir vereditos dessa monta, nem espero que Deus proteja os fiéis dessa doença tão somente por celebrarem a Páscoa, como ele fez no tempo de Moisés. Até porque, como entendemos agora, a verdadeira doença do mundo não é um coronavírus, mas o pecado, a revolta do homem contra Deus, contra a realidade e contra si mesmo. Com muito mais segurança, no entanto, digo que os juízos divinos têm sempre um objeto claro e indisputável: os falsos deuses. Contra estes a guerra divina não tem trégua.

Tornamo-nos escravos existenciais e, frequentemente, sociais, de nossas criações. Até que nos seja enviada uma praga e vejamos mortos os nossos primogênitos

E não estão sendo envergonhadas as nossas seguranças temporais? A ciência, que oferece nossas melhores esperanças de cura e prevenção, pôde apenas correr atrás da natureza, e teve sua infalibilidade gravemente questionada. Estados nacionais, parlamentos e presidências falham miseravelmente em apontar direções seguras e consistentes, contradizendo-se pela incerteza; e se por um lado reforça-se a visão soberanista de “cada um por si”, especialmente no que tange ao acesso a equipamentos médicos e medicamentos, por outro alguns apostam em uniões transnacionais. As potências tremem as pernas; a China erra terrivelmente, mas não pode ser imediatamente punida, já que todos precisam dela. E os que confiam na Organização Mundial da Saúde têm sua fé crescentemente disputada.

E quanto à economia? A confiança no dinheiro abalou-se novamente. Indivíduos temem por seus empregos; prefeituras, por suas arrecadações; ministros da Economia, por seu futuro político. Igrejas também não sabem o que fazer: como se manterem de pé, sem reuniões e ofertórios? E como se protegerão as mulheres e as minorias, com todos confinados em suas casas? Como ficam as liberdades fundamentais e os direitos humanos em uma pandemia?

Não quero dizer, de forma alguma, que tais institutos humanos seriam ruins ou desprezíveis. Pelo contrário, eles devem ser cultivados com todo o cuidado e gratidão. No entanto, são obras nossas. Coisas feitas. Não podemos ter neles a nossa esperança final, pois tal seria, simplesmente, hybris: o crime que os deuses não podem suportar. A idolatria humana consiste nessa arrogância radical, que emerge de novo e de novo quando coisas boas do mundo e respeitáveis conquistas humanas tornam-se o novo fundamento para a nossa espiritualidade, a nossa vida moral, o nosso sistema de valores, e o nosso destino. E assim nossa humanidade é esquecida em nome do espelho que a reflete. Tornamo-nos escravos existenciais e, frequentemente, sociais, de nossas criações: escravos da ciência, ou da economia, ou do Estado, ou do movimento político, ou até do projeto eclesiástico, e nesses deuses encontramos a justificativa para sermos imorais.

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Deuses falsos são escudos para a inautenticidade e perversidade humana. Pelo bem dos homens, os ídolos devem ser, simbolicamente falando, quebrados

Até que nos seja enviada uma praga e vejamos mortos os nossos primogênitos; até que o machado da realidade atinja a raiz da existência.

O que é abalado, nesses momentos, não é apenas a nossa segurança; é a confiança na capacidade de controle. Subitamente ganhamos a consciência de quão frágil é o poder que temos sobre o nosso destino. A realidade é sempre maior do que podemos suportar. Ora, é claro que a dúvida e a ansiedade, diante da crise, não é per se defeito ou crime. Tudo se revela na resposta que damos à crise. Se mantemos a serenidade, agimos com valores, nos mantemos humanos, aceitamos a nossa mortalidade, abrimos mão de sobreviver a qualquer preço, a crise nos purificou. Se nos desesperamos e odiamos, se nos tornamos extremamente dogmáticos e unilaterais, se exigimos sacrifícios humanos (dos outros) para que nosso modo de vida seja preservado, e se a razão de viver começa a se desfazer no ar, então podemos dizer com toda a certeza: é a mão de Yahweh, executando o seu juízo sobre os nossos deuses falsos.

Uma quarentena melhor

Daí a intuição de muitos, como a vi emergir aqui e ali: vivemos uma curiosa e incomum quarentena quaresmal. Deus soprou, e um vírus pôs o mundo de joelhos. Gostando ou não, estamos em tempo de repensar a vida; em tempo de perplexidade e nudez. Em tempo de perder dinheiro, emprego, festas, liberdades, e até entes queridos. Em tempo de tédio e de ver faltar as coisas.

“Bobagem! Daremos a volta por cima!” Não, meu caro leitor. Você poderá se esquivar da morte e do vazio absoluto apenas por um tempo; dias, meses, anos. Mas Deus o espera na próxima esquina; a realidade o espera na próxima esquina. Lutemos o melhor que pudermos para manter nosso modo de vida, e para cuidar uns dos outros. Mas não percamos a oportunidade de escapar dessa grande neurose narcísica coletiva, na qual a finitude é odiada como um vício, e o ser humano é cultuado como o demiurgo de seu próprio destino. Que essa quarentena seja para você, ao menos uma vez, uma quaresma. E que nesse fim de semana, sua alma escape do Egito.

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