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Supremo tribunal Federal STF
Prédio do Supremo Tribunal Federal (STF), iluminado com as cores do orgulho LGBT.| Foto: Nelson Jr./STF

Foi, como argumentamos em nossa coluna anterior, obra do STF a invenção do casamento “heteroafetivo” e, por conseguinte, sua versão “homoafetiva”; ao menos o foi enquanto figura jurídica efetiva. Essa alquimia jurídico-conceitual vinha sendo desenvolvida havia muito pelos assessores jurídicos do campo afetivo brasileiro e, por sua vez, é o reflexo de uma verdadeira transformação da intimidade e da afetividade moderna.

A tese básica dos revisionistas é a de que o casamento e a família se transformaram, irremediavelmente, em instituições afetivas, baseadas no laço sentimental do afeto num sentido positivo, de carinho, identificação e cuidado emocional mútuo, e tendo como razão e propósito de sua existência a felicidade emocional de seus membros individuais. Juristas como Maria Berenice Dias e Ricardo Calderón descreverão esse modelo como o “paradigma eudemonista” da família.

Nosso argumento, que temos desdobrado aqui há algumas semanas, é o de que toda essa operação foi, de um ponto de vista ético e social, uma farsa.

“Nenhum compromisso assumem”

Em oposição ao paradigma afetivo-emotivista e à sua tentativa de reconstruir o imaginário social quanto à família e ao matrimônio, é plausível sustentar que a concepção clássica dessas instituições deve ser mantida paralela e simultaneamente com a concepção afetivo-emotivista, sendo que elas descrevem formas distintas de agregação social, diferenciadas do ponto de vista de suas finalidades e, por isso, de suas dinâmicas internas; e o fato de elas serem confundidas deve ser considerado não um aumento, mas uma perda de capacidade explanatória para a ciência e a prática do Direito.

Havia muito os assessores jurídicos do campo afetivo brasileiro vinham desenvolvendo uma alquimia jurídico-conceitual que, por sua vez, é o reflexo de uma verdadeira transformação da intimidade e da afetividade moderna

Segundo a concepção tradicional, o casamento pode ser descrito como “uma comunidade de amor moral entre um marido e uma esposa, por toda a vida, sobre o fundamento de um vínculo sexual-orgânico durável” (assim o define L. Kalsbeek). Na mesma direção, o jurista holandês Herman Dooyeweerd descreve a função fundante biológica como o ponto de partida natural do casamento: uma união sexual institucional com propósitos reprodutivos. Mas isso não é tudo: essa união é estabelecida de modo permanente, por meio de um compromisso de amor entre marido e mulher, guiado e qualificado por uma dimensão da existência que transcende não apenas a biologia, mas a própria afetividade: a esfera “moral” ou a esfera do “cuidado benevolente”. Essa perspectiva, que não reduz o matrimônio à afetividade, é um exemplo da posição classificada como visão conjugal do casamento, segundo o debate contemporâneo.

Dooyeweerd exemplifica o pensamento jurídico europeu e protestante nesse campo; mas, se passarmos ao campo jusnaturalista e católico, encontraremos algo bastante similar. Em O que é o Casamento? (What is Marriage? Man and Woman: a Defense, de 2012), texto que rapidamente tornou-se um clássico recente sobre o tema, Sherif Girgis, Ryan Anderson e Robert P. George apresentaram uma leitura bastante perspicaz da natureza do conflito contemporâneo, baseada em uma famosa série de artigos publicados por eles na Harvard Law Review.

Segundo os autores, o que agora vemos nos EUA e no mundo ocidental não é a “metamorfose” do instituto social, mas o conflito entre dois modelos opostos de matrimônio (e de família): o modelo abrangente ou conjugal, que podemos também chamar holístico; e o modelo revisionista, com sua concepção afetivo-emotivista, ou eudemonística-emotivista, que chamamos aqui “afetiva” para seguir o uso comum. Na visão revisionista, afirmam Girgis, Anderson e George, o casamento é

“[...] a união de duas pessoas comprometidas com uma parceria romântica e com a vida doméstica: essencialmente uma união emocional, meramente reforçada por quaisquer atividades sexuais ao redor das quais os parceiros concordem. Tais uniões românticas são vistas como valiosas tanto quanto as emoções durem.”

Mas, para expressar o que se passa na mente dos revisionistas, nada melhor do que suas próprias palavras. Para ilustrar a concepção afetivo-emotivista do matrimônio, cito a jurista Maria Berenice Dias, em um artigo popular, “Casamento: nem direitos, nem deveres, só afeto”:

“Quem sabe é de se apropriar do conceito de Savatier à ‘união livre’, até porque a liberdade enseja a forma mais pura para a mantença de um relacionamento afetivo, no qual não há fidelidade, obediência, assistência obrigatória. Tudo isso, dado por amor, não deve durar senão enquanto puder durar esse amor. Os amantes nenhum compromisso assumem para o futuro; a independência de ambos é sagrada. Nas páginas de sua vida nada se escreve com tinta indelével.”

Não podemos deixar de notar, aqui, a cândida reprodução, pela jurista, da lógica interna abúlica e ambivalente do paradigma da autenticidade emocional. Abulia, o conceito introduzido pela socióloga Eva Illouz para descrever a hesitação e a fuga de compromisso, que se tornou uma patologia social generalizada a partir da revolução sexual e da desregulamentação dos mercados afetivos, descreve um hábito moral da sociedade de hiperconsumo – um vício. E a nossa jurista se esforça, talvez sem o saber, para submeter o direito de família a essa patologia social. O pequeno trecho acima deixa patente a inadequação da tese afetivista como chave organizadora do Direito de Família.

A estrutura da relação conjugal

Radicalmente diferente é a concepção conjugal de casamento. Podemos apontar ao menos três dimensões constitutivas dessa união holística ou conjugal: 1. uma base natural, na ontologia funcional reprodutiva, 2. uma dinâmica afetiva complementar ou estereoscópica, associada ao encontro interpessoal caracterizado pela diferença mútua e irredutível de gênero (que enraíza a experiência de alteridade moral numa base psíquica) e 3. um foco normativo “moral”, conectado à constituição de um espaço de formação humana e, portanto, um foco meta-emocional.

Segundo a concepção tradicional, o casamento pode ser descrito como “uma comunidade de amor moral entre um marido e uma esposa, por toda a vida, sobre o fundamento de um vínculo sexual-orgânico durável”

Notem bem: o fato de uma relação ser ética não implica que não seja afetiva. Cabe aqui lembrar Soren Kierkegaard: a experiência estética não é dissolvida nos stadier superiores da existência; ela é diferentemente interpretada e regulada. No caso do casamento conjugal, esse foco ou função-guia ético é o que faz do casamento uma fonte de “capitais morais”, ou seja, de competências, hábitos e procedimentos carregados de virtudes morais confirmados por atribuições de confiabilidade. Promessas e hábitos de lealdade, de persistência, de paciência, de presença, de cuidado. O foco ético torna possível (ainda que não infalivelmente) ao casamento tornar-se uma estrutura de antifragilidade moral.

“Base da sociedade”?

E é assim que o casamento conjugal pode se tornar uma célula espiritual para a sociedade. Contextos aos quais se pode atribuir confiabilidade moral conferem condições ótimas para a geração e a formação de crianças.

Reza a nossa Carta Magna, no artigo 226, que “a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado”. A Constituição não nos dá os porquês, mas eles ainda são tacitamente assumidos pelos brasileiros comuns, por conta de sua racionalidade intrínseca, que os escoceses chamariam de common sense. O fato é que a família – incluindo-se nela o casamento e a parentalidade natural – ordena ou desordena a vida social de formas que nenhuma outra instituição pode fazer.

Para destacar a importância de um espaço de alto capital moral – ou seja, de elevada atribuição de confiabilidade quanto às virtudes morais – para a educação de crianças, eu lembraria, como exemplo, as observações de Anthony Giddens sobre o lugar imprescindível da segurança ontológica para a constituição identitária. Giddens nota que uma fé fundamental é necessária para a consciência prática, pois é preciso crer na “realidade”, na coerência da vida cotidiana, no valor das relações, no autovalor, para que o comprometimento pessoal e a ação se efetivem. Essa fé é alcançada, no desenvolvimento psicológico, “através da atenção amorosa das primeiras pessoas a cuidarem da criança”, e pela criação de um sentido de segurança que “transportará o indivíduo pelas transições, crises e circunstâncias de alto risco”. Mas como essa fé fundamental emerge? Giddens responde em Modernidade e Identidade:

“A confiança no fundeamento existencial da realidade num sentido emocional, e de certa forma também no cognitivo, se funda na crença na confiabilidade das pessoas, adquirida nas primeiras experiências da criança [...] a confiança básica liga de maneira decisiva a auto-identidade à apreciação dos outros.”
“O estabelecimento da confiança básica é a condição de elaboração tanto da auto-identidade quanto da identidade de outras pessoas e objetos.”

Por natureza, portanto, uma família não pode ser organizada por vínculos puramente afetivo-emocionais, sendo necessário o cultivo intencional de estruturas morais e a mantença de promessas independentes da volubilidade sentimental. A construção de uma situação de alta confiabilidade desde a tenra infância até a adolescência é imprescindível; de modo que a legitimação de um modelo de matrimônio e de família cujo eixo é afetivo-emocional e não moral, com expectativa de incluir crianças, é uma contradição em termos.

Legislando em vez de julgar, o STF e inúmeros agentes de nosso Judiciário têm confirmado, de certo modo, o que diz a nossa Constituição. Afinal, se a família e o casamento formam as bases da sociedade, será preciso destruí-los para construir o seu mundo melhor. O problema é que esse mundo melhor não pode ser derivado da nossa Constituição de 1998. A não ser por meio de feitiços linguísticos e alquimias conceituais.

Supremas tautologias

A compreensão apropriada do casamento lança luz sobre as antinomias básicas do movimento dos “direitos afetivos” e sobre os votos no STF acima considerados. As invectivas do ministro Ayres Britto, por exemplo, em seu voto fatídico lido em 4 de maio de 2011, segundo as quais as uniões afetivas marcas pela “perdurabilidade” merecem reconhecimento, são efetivamente vazias de significado; são farsas históricas, independentemente das intenções do ministro.

Pois é fato público e notório suas palavras não demonstrarem qualquer percepção crítica de que, com respeito a tais uniões, nada pode ser dito quanto à sua estabilidade, “perdurabilidade” ou confiabilidade, além da asserção perfeitamente tautológica de que elas durarão enquanto durarem – noção confessada de modo muito direto pela jurista Maria Berenice Dias. Ignorando o fenômeno da abulia generalizada, resultante da configuração moral emotivista e da lógica do capitalismo de hiperconsumo, o STF não apenas indevidamente legislou, mas legislou sobre uma ficção social. E essa tautologia cumpre a função de ocultar o discurso e a prática social real, que originou toda a discussão. Trata-se de uma fabulosa embromação jurídica.

Legislando em vez de julgar, o STF e inúmeros agentes de nosso Judiciário têm confirmado, de certo modo, o que diz a nossa Constituição. Afinal, se a família e o casamento formam as bases da sociedade, será preciso destruí-los para construir o seu mundo melhor

A redefinição da união conjugal para acomodar as relações homoeróticas nesses termos é o golpe final em uma progressiva liquefação afetivo-emocional das proteções jurídicas do casamento e da família, que já vinha se processando havia muito tempo no imaginário moral brasileiro.

Pode-se retrucar, sem dúvida, que muitos casais heteroafetivos e homoafetivos vêm se esforçando para praticar o compromisso matrimonial e obter a perdurabilidade fantasiada pelo ministro Ayres Britto em seu voto histórico; quando isso ocorre, no entanto, o que temos é ainda a emulação, a mimese do casamento conjugal, e não mais a união afetiva preconizada pelos juristas afetivistas e que originalmente pressionou a nossa jurisprudência. Nesse caso, admite-se a normatividade da visão conjugal, mas de modo tortuoso, inconfesso e trapacento.

Cadáveres no armário

A despeito da retórica, a tese afetivista se cala sistematicamente quanto ao sofrimento inerente à alegada “liberdade do amor” e oculta um cadáver: a insegurança ontológica e, com ela, a insegurança comunitária generalizada, como foi indicado por Eva Illouz em Why Love Hurts:

“... o que foi perdido na experiência moderna do sofrimento romântico é a segurança ontológica que deriva da organização do cortejo amoroso em uma ecologia moral de escolha, compromisso e ritual e do enraizamento do autovalor no tecido social da comunidade. A insegurança ontológica que acompanha o sofrimento romântico é desigualmente distribuída.”

No entanto, esse fenômeno não pode ser ignorado; o descarte funcional de seres humanos nos mais variados contextos é parte integrante da lógica do capitalismo, e o descarte generalizado de bens, cada vez mais programados para a rápida refugação, atinge o mundo das relações familiares devido à interpenetração de campo econômico e campo afetivo. E aqui Gilles Lipovetsky, em A Felicidade Paradoxal, é irreparável:

“É assim que, no coração do planeta do bem-estar, aumenta o sentimento de ser inútil no mundo, de ter sido ‘usado’ e depois ‘jogado fora”, de ter falhado em tudo.”

Os argumentos apresentados acima são suficientes para reforçar nosso ponto aqui e no artigo anterior desta coluna: de que o casamento abrangente, ou conjugal, ou holístico, não é uma união essencialmente “heteroafetiva”, segundo postulado por Dias e pelo STF, exceto como definição estritamente metonímica.

A união conjugal que historicamente fundamenta o casamento, a despeito do pobre reconhecimento e proteção jurídica, não pode, sob quaisquer circunstâncias, ser definida legalmente como um encontro “heteroafetivo”, embora possamos sem dúvida falar em relações heteroafetivas ou heteroeróticas e, obviamente, em uma dimensão afetivo-emocional da união heterossexual. Pois sendo holística, tendo um caráter naturalmente funcional, e demonstrando fertilidade e potencial biopsíquico para constituir uma união doméstica durável – uma união capaz de servir como contexto de geração e formação humana que transcende a felicidade emocional dos cônjuges –, a união conjugal não pode ser racionalmente equacionada às uniões afetivo-emocionais que não têm de modo intrínseco a mesma funcionalidade em sua base ontológica ou a mesma intencionalidade meta-emocional, materializada no gesto moral do compromisso.

Dando às coisas seus nomes próprios

A distinção entre os dois modos de associação desfruta assim, tanto de fundamento biológico (posto que só uniões heterossexuais são biologicamente férteis), sociológico (posto que as uniões puramente afetivas são fenômenos recentes derivados do capitalismo emocional), quanto ético-fenomenológico (posto que nem toda união erótico-afetiva tem uma estrutura capaz de trazer segurança ontológica, e as que têm constituem ou ao menos imitam o casamento monogâmico).

Segundo a perspectiva afetivo-emotivista, o casamento é uma união “afetiva”; para a visão conjugal clássica (por sua vez reforçada, mas não inventada pela religião), é uma instituição holística, incorporando fertilidade biológica, dimorfismo biológico e psíquico e afetividade, mas com um foco “moral” (ou de cuidado amoroso), constituído pelo compromisso de fidelidade ao cuidado mútuo e ao trabalho de formar e educar novos seres humanos de modo abrangente.

O nome próprio de uma parceria sexual-afetiva controlada pelo princípio eudemonista-emotivista, carente das estruturas pactuais de compromisso, seja ela heteroafetiva ou homoafetiva, não é “casamento”. É alguma outra coisa

Isso possibilita à família, se ela se integra com sucesso, operar de modo estável como matriz geradora de capital moral, o qual consiste de virtudes como o amor “agápico”, fidelidade, lealdade, honestidade, temperança, autenticidade, e outros itens que podem ser elaborados em um discurso de ética das virtudes, cobrindo todos os substratos pós-psíquicos da experiência humana (tais como a função analítica, a linguagem, a socialidade, a justiça, o sentido estético, a fé etc.) com suas respectivas normatividades.

De modo que o nome próprio de uma parceria sexual-afetiva controlada pelo princípio eudemonista-emotivista, carente das estruturas pactuais de compromisso, seja ela heteroafetiva ou homoafetiva, não é “casamento”. É alguma outra coisa; talvez uma “união confluente”, para recorrer à sociologia da intimidade de Anthony Giddens.

Mas o sequestro de nomes não para por aí. Contrapondo a visão conjugal e a visão revisionista, insistirei em apontar aqui a profunda confusão categorial que pode ser observada no discurso afetivo-emotivista, como se nota nas referências presentes nos votos do STF. Essa confusão vai além da incompreensão da estrutura da família e do casamento, estendendo-se até a incapacidade de distinguir entre “amor” e “afetividade emocional” (assim como entre afeições morais e afeições emocionais), termos que não apenas na vida comum, mas também na filosofia moral, têm campos semânticos não coincidentes. O laço afetivo é repetidamente associado ao instinto e ao amor de um modo reminiscente da literatura romântica popular, com pouca atenção ao fato de que desde a era clássica as diferenças entre as formas do amor foram reconhecidas e que é parte da herança ocidental o reconhecimento de uma Ordo Amoris, uma ordem de afeições refletindo a diversidade de valores intrínsecos entre os muitos bens humanos.

O enquadramento ético das afetividades e sua relação com a estrutura do casamento e da família poderia nos livrar das supremas inconsistências, tautologias e pseudoconceitos que vêm desorganizando a imaginação moral do Judiciário brasileiro.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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