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Protesto contra o aborto em frente à Suprema Corte americana, em outubro de 2021.
Protesto contra o aborto em frente à Suprema Corte americana, em outubro de 2021.| Foto: EFE

O recente vazamento do esboço do parecer do juiz da Suprema Corte dos EUA Samuel Alito, indicando que a decisão do caso Roe v. Wade, que tornou o aborto um direito constitucional no país em 1973, estaria a um passo de ser revertida, colocou o mundo dos “direitos reprodutivos” de cabelo em pé. A ira “santa” contra o retrocesso conservador se espalhou por veículos de impressa, círculos universitários e pelas mídias sociais como fogo em mato seco.

Para uma pequena ideia da virulência das reações, basta uma olhada na reportagem de capa desta sexta-feira na revista Veja: “Ameaça de retrocesso nos EUA reforça a urgência do debate sobre aborto”. E o melhor é o subtítulo: “A intenção da Suprema Corte americana de anular a liberação do procedimento no país terá impacto global, acentuando o obscurantismo em torno da questão”. É claro, meus amigos, o que nos falta é o “debate”, e nada mais. Na imagem da capa, se diz que “Precisamos falar sobre o aborto”.

Entretanto, ao longo do artigo a posição conservadora é sistematicamente desqualificada, sem que seus argumentos sejam considerados nem por um instante. Não há debate algum nem intenção de promovê-lo, mas só aquela pregação desesperada de sempre e as acusações usuais de “fundamentalismo”, “obscurantismo” e gabações similares. Caso a Veja tivesse algum interesse em debate, poderia ter convidado o colega Francisco Razzo, que escreveu uma bela obra a respeito, para assinar um artigo.

A ira “santa” contra o retrocesso conservador se espalhou por veículos de impressa, círculos universitários e pelas mídias sociais como fogo em mato seco

Mas meu assunto principal não é capa da Veja. É, antes, o conjunto desse compreensível movimento, repetido por diversos jornalistas, de fazer a arqueologia da atual recalcitrância evangélica contra o aborto. E, em suas escavações nem sempre muito cuidadosas, esses jornalistas têm encontrado o mesmo nome: Francis Schaeffer.

Esse foi o caso, por exemplo, de uma reportagem publicada em 6 de maio pela BBC, “A surpreendente guinada de evangélicos sobre aborto após filme e reação feminista”, por sua vez baseada em uma entrevista no podcast de Jon Ronson a Franky Schaeffer, filho de Francis Schaeffer. A isso se seguiram outras entrevistas – que estão ajudando Franky a publicar seu novo livro –, sendo a mais importante até agora a concedida a Christiane Amanpour em seu programa na CNN. E ontem mesmo a The Intercept publicou um artigo culpando especificamente Francis Schaeffer pela guinada pró-vida dos evangélicos: “Como os evangélicos americanos se transformaram em uma máquina anti-aborto” (confesso que gostei dessa parte): “Os livros e palestras de Francis Schaeffer desempenharam um papel crucial na politização dos protestantes evangélicos e lançando-os contra Roe v. Wade”.

A acusação

Franky Schaeffer sustenta que os evangélicos não se importavam originalmente com o tema do aborto; até os anos 1970 isso era uma agenda católico-romana. Mas ele ajudou seu pai a lançar uma série de documentários que teve imensa influência nos EUA nos anos 70 e 80, e trabalhou para convencê-lo de que a agenda pró-vida seria muito importante para a presença pública dos evangélicos. Com a autoridade religiosa que seu pai havia adquirido por seus livros e pelo documentário, a agenda antiabortista finalmente penetrou na consciência e no discurso dos evangélicos dos EUA. Foi assim que, a partir do governo Jimmy Carter (1977-81), os evangélicos emigraram massivamente do Partido Democrata para o Partido Republicano. Assim nasceria a nova direita religiosa.

E agora, a crítica: segundo Franky Schaeffer, os articuladores políticos da nova direita religiosa apenas testaram e usaram o aborto como uma saliência pragmática para energizar e mobilizar as massas de evangélicos brancos, tornando-as em capital político efetivo. Ele e seu pai estariam fazendo a coisa de boa-fé, sem compreender a tempestade ideológica que se avizinhava. E, apesar de admitir sua decepção com o apoio do pai a Jerry Falwell, o líder da “Moral Majority”, Franky alega que a “culpa” principal por acender a chama do antiabortismo seria mais sua que do pai. Franky Schaeffer já fez essa crítica um número de vezes – ele vem repetindo isso há muitos anos, mas evidentemente o prospecto de uma reversão de Roe v. Wade tem um potencial enorme para reacender o interesse em suas ideias e seus livros.

Mas em sua entrevista a Christine Amanpour há um momento bastante interessante, lá pelo minuto 14:05, quando ela lê uma declaração da National Association of Evangelicals (de seu presidente Walter Kim, na verdade) de 3 de maio: “O compromisso evangélico de proteger o nascituro brota de nossa profunda compreensão de que Deus criou os seres humanos à sua imagem e que cada vida humana, da concepção à morte, tem dignidade inestimável”.

Inteligente como é, a jornalista entra no mérito da questão:

É preciso, é claro, levar em consideração as crenças religiosas, as crenças morais, algumas – alguém poderia até dizer – algumas crenças científicas nessa declaração; fale comigo sobre isso, porque... isso também é parte da história, há uma grande parcela desse país e do mundo que acredita precisamente nisso.

A resposta de Franky?

“Sim, bem... primeiro de tudo, evangélicos não acreditam nisso. Porque se acreditassem, eles pagariam por plena licença parental [nossa licença-maternidade], assim pais e mães poderiam ir pra casa e estar com seus filhos em vez de as mulheres terem de voltar para encarar três empregos mal pagos, com um salário mínimo terrível, enquanto ainda estão sangrando depois de uma cesariana. Evangélicos não ligam para isso... se esse grupo de pessoas fosse pró-vida, e fosse realmente consistente em sua posição pró-vida, poderíamos ter alguma admiração por eles a despeito de discordar na questão da ‘escolha’, mas eles são um grupo de pessoas antifamília que coloca o bem-estar de bilionários neste país acima das mulheres e acima das crianças, acima de pessoas pobres, acima das famílias... assim, esse é um movimento hipócrita.”

Segundo Franky Schaeffer, os articuladores políticos da nova direita religiosa apenas testaram e usaram o aborto como uma saliência pragmática para energizar e mobilizar as massas de evangélicos brancos, tornando-as em capital político efetivo

Essa foi uma amostra da mente de Franky Schaeffer. Não lhe faltam palavras bastante duras para julgar não só o movimento evangélico, mas todo o conservadorismo do Partido Republicano dos EUA. Mas vale mencionar, aqui, que Franky mantém uma opinião elevada de seu pai, apesar de tudo. Ele ataca impiedosamente a nova direita religiosa e expõe falhas ideológicas e morais de seu pai, mas insiste em elogiar sua fé, sua abertura ao diferente e seu amor pela cultura. Isso me faz pensar que Franky Schaeffer não pode ser totalmente ignorado.

Mas, antes de tecer meus comentários a respeito da entrevista com Amanpour, o leitor precisa saber algo sobre o pai de Franky.

O réu

Francis Schaeffer foi um pastor presbiteriano bastante alinhado com o fundamentalismo cristão da primeira metade do século 20, comprometido com uma leitura literalista da Bíblia, com normas de moral e costumes bastante tradicionais, e com uma atitude de oposição visceral à cultura secular moderna. Ele e sua esposa Edith, filha de missionários americanos na China, eram muito piedosos, viviam uma espécie de isolacionismo cultural, e pregavam um forte separatismo eclesiástico, em nome da pureza das igrejas. Isso não significa que Schaeffer não se interessasse por cultura; era um amante da filosofia, da música e da arte. Faltava-lhe uma teologia para enquadrar adequadamente sua fé e esses sentimentos.

Depois da Segunda Guerra Mundial, Schaeffer partiu em uma missão de “reconhecimento”, enviado para entender a situação das igrejas na Europa e buscar meios de ajudá-las. Nessa viagem ele inicia um processo de crise, compreendendo que o estilo de pregação e guerra cultural no qual ele estava envolvido era intolerante, acusatório, e não se dispunha a ouvir as questões dos não cristãos. Sua conclusão foi de que ele e seu movimento pregavam a verdade sem amor. E isso não seria muito melhor do que uma mentira. Schaeffer chegou a ter mesmo uma crise de fé, e quase abandonou o barco do cristianismo. Depois de se recompor, ele deixou claro que ele teve uma crise de realidade, cujo desfecho foi imensamente importante: “não existe razão para ser cristão, a não ser a de que o cristianismo seja verdadeiro”.

E assim foi se dando a ruptura com o espírito do fundamentalismo – mas nunca com as afirmações básicas da fé cristã – que se materializou quando ele e a esposa Edith decidiram romper com a missão fundamentalista na qual trabalhavam. Isso os levou a fundar a comunidade L’Abri, na Suíça, cuja práxis missionária era radicalmente diferente do fundamentalismo: hospitalidade, intenso diálogo com a cultura contemporânea, respostas honestas a questões honestas, e a demonstração prática da realidade de Deus. Não é preciso dizer que os fundamentalistas não gostaram nada disso.

L’Abri seria fundada em 1955, 18 anos antes de Roe v. Wade, e o tema do aborto não fora explicitamente tratado por Schaeffer nos primeiros anos. Daí o argumento de Franky de que o pai teria sido arrastado por ele para uma agenda alienígena, e o convívio com a nova direita religiosa o teria arrastado de volta ao fundamentalismo. Schaeffer seria culpado, então, por ter se deixado enganar.

Histórias para jornalistas

A história de Franky Schaeffer é unilateral, por uma série de razões. Em primeiro lugar, como ele mesmo admite, sua adesão à agenda do pai não era inteiramente clara; em parte por imaturidade, em parte por sua preocupação em ganhar a vida. Mas, no período “conservador”, Franky era absolutista, obcecado, combativo, e arrastou o pai para a sua guerra cultural.

Mas o fato, muito bem conhecido entre amigos e familiares, é que Franky fora uma criança difícil, e não era um jovem devoto. Contrariando a ética de sua família, ele engravidou a namorada (ele mesmo menciona que isso pesou em seu frenesi antiabortista) e se envolveu em comportamentos duvidosos.

Então, de repente, vendo que a coisa ficou muito mais séria, Franky se arrepende e se torna pregador do próprio remorso; mas um pregador igualmente absolutista e fervoroso. Entra num processo de conflito com os pais, com outros parentes, com antigos amigos de L’Abri, e converte-se ao catolicismo ortodoxo. Depois larga a ortodoxia e se torna um representante do que hoje chamamos de “sem religião”. Terminou vivendo à sombra do pai, não mais como apoiador, mas como oponente, escrevendo livros para desdizer o que antes acreditava.

Por que pessoas do círculo de Schaeffer, e que realmente compreenderam o homem – ao contrário de seu filho –, não são consultadas em nome do contraditório?

É claro que nada disso refuta o que Franky pensa – não pretendo resolver nada com um ad hominem. Mas é preciso ter em mente que seus poucos anos de conservadorismo quase fanático foram substituídos por um anticonservadorismo quase fanático, e há pouca evidência de que ele tenha em qualquer momento de sua vida vivido o esforço mediatório que seu pai realizou, construindo uma ponte entre o fundamentalismo e o humanismo secular. Franky sempre olhou Schaeffer a partir de dois extremos, e nunca esteve realmente onde seu pai esteve. Assim, estou com os que sentem que Franky nunca entendeu realmente o pai.

E isso nos leva a uma injustiça terrível: Schaffer teve outras três filhas, assim como genros e muitos amigos. A comunidade L’Abri, fundada por Schaeffer, continua em atividade, com sedes em vários países, inclusive no Brasil, e alguns dos cooperadores mais próximos de Schaeffer estão vivos. Dick Keyes, por exemplo, graduado em Harvard, membro de L’Abri há 60 anos, que viu Franky Schaeffer crescer e acabou de completar seus 80 anos, nunca foi entrevistado pela BBC ou pela CNN. Na segunda semana de abril comemoramos seu aniversário na reunião internacional de L’Abri, em Greatham, e na mesma semana conversamos sobre Franky e as guerras culturais modernas.

Essa é a minha pergunta à BBC, à CNN, ao The Intercept, e aos poucos jornalistas brasileiros que pensam saber algo do assunto: por que pessoas do círculo de Schaeffer, e que realmente compreenderam o homem – ao contrário de seu filho –, não são consultadas em nome do contraditório?

O felix culpa

A reportagem da BBC fala em “Surpreendente guinada de evangélicos sobre aborto”. Num certo sentido foi surpreendente, uma ajuda bem-vinda que os católicos romanos não esperavam testemunhar. Mas, em outro sentido, essa guinada não tem nada de estranho. É simplesmente o que precisava acontecer.

A leitura dos livros de Schaffer mostra que seu ponto central, no debate crítico com a cultura secular, era de que o mundo desencantado e achatado dos modernos não fornece um enquadramento para a dignidade humana. No início Schaeffer destacava isso de um ponto de vista epistemológico, de que a experiência da realidade e da verdade se perde quando não cremos em Deus; isso levou a um argumento existencial, de que a vida não faz sentido sem Deus.

Mas, então, as meditações de Schaeffer o levaram a uma forma de ética personalista: somos pessoas porque existe um Deus pessoal, e não somos meros agregados de matéria, fruto do acaso e da necessidade. A personalidade não é uma ilusão; consequentemente, a dignidade humana também não é uma ilusão. O personalismo de Schaeffer, muito similar ao personalismo do pensamento católico, eventualmente o levou a uma ética personalista pró-vida.

A BBC fala em “Surpreendente guinada de evangélicos sobre aborto”. Num certo sentido foi uma ajuda bem-vinda que os católicos não esperavam. Mas, em outro sentido, essa guinada não tem nada de estranho. É simplesmente o que precisava acontecer

Se isso foi revolucionário no ambiente evangélico da época, foi porque os evangélicos dos EUA não estavam acostumados a derivar todas as implicações éticas do evangelho e conectá-las com a natureza, a história e a ética. A razão por que, nesse ponto, Schaeffer foi tão importante é que ele deu o empurrão que faltava ao movimento; um empurrão em direção à coerência intelectual e à catolicidade evangélica. Não havia nada de alienígena na emergência do tema antiaborto, considerando o pensamento de Schaeffer. O fato de que Franky Schaeffer e seus promotores não conseguem compreender esse ponto crucial revela o quão pobres eles são como teólogos.

Se Schaeffer foi “culpado” disso? Sim, e essa foi uma culpa feliz; a culpa de promover um cristianismo mais consistente e integral entre os evangélicos. A tragédia é que o movimento não quis ouvir tudo o que ele tinha para dizer.

E aqui retomo a perspicaz interrogação de Christiane Amanpour: e quanto à questão de mérito? A questão da dignidade humana? Todo o argumento de Franky, assim como o de muitos analistas, se baseia em contornar a questão de mérito, das crenças e da moralidade, e discutir os contextos históricos e políticos das escolhas humanas.

No que se refere ao contexto, eu confesso concordar em parte com Franky Schaeffer. O mecanismo político por trás da exploração do tema do aborto como saliência eleitoral era irreligioso e, em alguns momentos, imoral. Mas isso não significa que a questão do aborto possa ser reduzida a fatores contextuais. E precisamente nesse momento Franky contorna novamente a questão: os evangélicos não acreditam em dignidade humana; “são todos hipócritas”. Pode ser. Mas isso nada diz sobre o mérito da questão; é mera evasiva. Nem Franky Schaeffer, nem a Suprema Corte dos EUA, nem os jornalistas têm o direito de evitar a questão de mérito alegando hipocrisia do oponente.

Precisamos ser consistentes, com políticas de proteção do nascituro, mas também da infância, da adolescência, da maternidade, da família, das comunidades e do meio ambiente

No entanto, é extremamente improvável que os evangélicos pró-vida sejam todos hipócritas, pura e simplesmente. Esse tipo de insânia não ajuda em nada o argumento pró-escolha. O máximo que Franky poderia dizer é que os evangélicos pró-vida são inconsistentes, porque não estendem o princípio da dignidade humana a uma política integral de defesa da vida e da família.

E nesse ponto, apesar de todas as minhas críticas, concedo a Franky Schaeffer. Ele tem algo muito importante a dizer aos evangélicos pró-vida: precisamos ser consistentes, com políticas de proteção do nascituro, mas também da infância, da adolescência, da maternidade, da família, das comunidades e do meio ambiente. Do contrário o tema do aborto seguirá sendo apenas uma saliência a ser explorada por populistas de direita.

Francis Schaeffer, o pai, era consistente nisso; antes mesmo de iniciar a sua luta pró-vida, já em 1970, foi um dos pioneiros do movimento ambiental evangélico, falando sobre conservação ambiental como tarefa cristã. No entanto, em nome da cobeligerância, Schaeffer acabou dando seu apoio a forças políticas que apenas usaram a saliência antiaborto, e que não tinham respeito pela doutrina social e ambiental cristã.

Como diz meu amigo e colega de ministério Igor Miguel, precisamos ser pró-vida do útero ao cosmos. E nesse sentido todos nós, mas principalmente nós, evangélicos, precisamos muito mais de Francis Schaeffer. Falo, inclusive, como membro da comunidade L’Abri: se ouvirmos Franky Schaeffer, e recebermos o fragmento de verdade que ele apresenta, poderemos compreender melhor o Francis Schaeffer original, evangélico e católico, para além da nova direita religiosa.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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