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O papa Francisco e o rabino-chefe de Roma, Riccardo di Segni, durante visita do pontífice católico à Grande Sinagoga de Roma, em 2016.
O papa Francisco e o rabino-chefe de Roma, Riccardo di Segni, durante visita do pontífice católico à Grande Sinagoga de Roma, em 2016.| Foto: Angelo Carconi/EFE/EPA

Na semana passada assinei um artigo sobre o “assassinato de almas” na Convenção Batista do Sul, nos EUA, tratando do acobertamento de abusos contra mulheres e crianças. Russell Moore, um importante teólogo público batista, um dos líderes corajosos que confrontaram essa subcultura de injustiça, apontou também a tolerância ao supremacismo branco entre cristãos americanos.

Eu mesmo sou um teólogo evangélico conservador, comprometido com a doutrina cristã clássica, e nada tenho a ver com movimentos progressistas que desejam abolir a autoridade moral da Bíblia. Mas não posso deixar de reconhecer que há, em círculos conservadores, um descuido disseminado naqueles mesmos assuntos levantados por movimentos identitaristas e de minorias. Houvesse maior consciência ética e pastoral, assuntos como a reconciliação racial, a proteção à mulher e à criança, os direitos do trabalhador e a proteção de grupos vulneráveis não permaneceriam sequestrados pela esquerda.

A falta de uma ética do cuidado e da preocupação com o vulnerável é às vezes tão ruidosa que torna inaudíveis outros aspectos da moral cristã, como a piedade, a castidade, a lealdade e a honra às autoridades.

O único escândalo permitido ao cristão é o escândalo causado no mundo pelo evangelho

Na coluna de hoje vamos retomar um desses assuntos espinhosos: a questão do antissemitismo. Igor Sabino, fellow do Philos Project, mestre em Relações Internacionais, doutorando em Ciência Política e autor de Por Amor aos Patriarcas: reflexões brasileiras sobre antissemitismo e sionismo cristãos, nos introduzirá, por meio de exemplos atuais, a alguns dispositivos retóricos e teológicos com potencial antissemita que frequentemente passam incólumes, bem debaixo dos nossos olhos. Não há mais espaço para esse tipo de erro no mundo contemporâneo, no entanto. O único escândalo permitido ao cristão é o escândalo causado no mundo pelo evangelho.

Cristãos e judeus: superando uma história de preconceito

O cristianismo é antissemita? Para a maioria dos cristãos pode até parecer absurdo questionar isso. Para muitos judeus, porém, essa é uma pergunta totalmente compreensível. Por ter crescido em um lar evangélico, não pensei sobre isso durante anos; afinal de contas, durante a minha graduação em Relações Internacionais eu era até motivo de chacota nos corredores da minha universidade simplesmente por ser um sionista evangélico.

O antijudaísmo cristão

Tudo mudou, porém, quando visitei o Yad Vashem, o Museu do Holocausto, em Jerusalém, em 2017. Fiquei chocado ao ler os trechos antissemitas do livro Sobre os Judeus e Suas Mentiras, escrito por Martinho Lutero no fim de sua vida. A decepção foi ainda maior quando tive acesso aos escritos dos Pais da Igreja da chamada tradição Iodeios Adversus, uma série de obras polêmicas contra os judeus e o judaísmo. Como afirma Kessler, para esses cristãos os judeus não eram seres humanos. Eram, na melhor das hipóteses, um oponente. Na pior, um monstro. Os escritos de João Crisóstomo, por exemplo, lançaram as bases para que os cristãos perseguissem os judeus por vários séculos, passando impunes até mesmo pela Reforma Protestante, como vemos em Lutero.

Uma das primeiras acusações era a de que os judeus haviam cometido o crime de “deicídio”. Ou seja, eram culpados coletivamente pela morte de Jesus, um crime sem perdão, levando Deus a abandonar de vez todas as promessas feitas a Israel. Como consequência, qualquer cristão que cresse que Jesus era o Messias deveria abrir mão de vez da sua identidade judaica. A isso, atualmente, chamamos de supersessionismo. Ou, na linguagem popular, teologia da substituição, a ideia de que a Igreja substitui por completo Israel. As consequências desse ensino ao longo da história foram nefastas e resultaram em atrocidades como as Cruzadas, a Inquisição, expulsões de judeus da Europa e, ultimamente, o Holocausto. A literatura acadêmica sobre as relações entre o cristianismo e o surgimento do antissemitismo moderno é vasta; alguns exemplos são A Lethal Obsession, de Robert S. Wistrich; e Anti-Judaism: The Western Tradition, de David Nirenberg.

Na verdade, os vínculos entre a fé cristã e o ódio aos judeus são tão fortes que, em 1996, a teológa progressista católica Rosemary Ruether – falecida há poucos dias –, em sua obra Faith and Fratricide: The Theological Roots of Anti-Semitism, chega a afirmar de modo categórico que o antissemitismo é o braço direito do cristianismo. O ex-padre católico James Carroll segue na mesma linha e, em seu famoso livro Constantine’s Sword, vai tão longe a ponto de afirmar que o Vaticano deveria fazer uma reforma no próprio conteúdo da Bíblia. Para ele, passagens como Mateus 27,25, João 8,44 e 1 Tessalonicenses 2,15, dentre outras, deveriam ser retiradas das Escrituras cristãs devido ao seu potencial antissemita e à maneira como foram utilizadas ao longo da história para perseguir e matar o povo judeu.

Confesso que, depois de começar a pesquisar sobre antissemitismo, tive uma crise de fé semelhante. Afinal, durante anos estudando sobre a perseguição aos cristãos em países de maioria islâmica, me questionava como meus amigos muçulmanos eram capazes de lidar com textos difíceis do Alcorão que pregam a violência contra judeus e cristãos. Até que percebi que na minha própria tradição eu tinha um desafio bastante semelhante. E aparentemente insuperável. Uma evidência disso foi o ataque ocorrido em 27 de outubro de 2018, na sinagoga Tree of Life, em Pittsburgh, quando um homem de 46 anos matou 11 judeus, no maior crime antissemita da história dos EUA. O atentado terrorista foi baseado tanto em teorias da conspiração comuns em fóruns virtuais da alt-right quanto no texto de João 8,44, segundo o qual, na leitura dele, os judeus, em sua totalidade, são filhos do diabo. A conexão que fiz com a tentativa de genocídio do Estado Islâmico contra os yazidis foi imediata. Para os islamistas do grupo, essa minoria religiosa também é adoradora de satanás e, por isso, deve ser exterminada.

Redescobrindo Israel

Foi nesse momento que busquei respostas nos teólogos cristãos que acompanhava na época. Felizmente, eles não me decepcionaram. Um deles foi John Piper. Em um artigo intitulado “Se amamos Jesus, amaremos os judeus, o pastor calvinista foi enfático ao listar 12 motivos bíblicos pelos quais os cristãos deveriam se unir no combate ao antissemitismo e deixou claro:

“O fato de que o povo judeu rejeitou (e, como um todo, ainda rejeita) Jesus como seu Messias, e foi instrumento, juntamente com Pilatos e outros gentios, para sua crucificação, não justifica a sua perseguição. O próprio Jesus, ao morrer, deu o exemplo para seus seguidores orando para que os judeus e gentios responsáveis por sua morte fossem perdoados, o que muitos deles foram quando os apóstolos lhes ofereceram a graça do evangelho, não a retribuição.”

Esse foi um exemplo, naquele momento, satisfatório, sobre como manter a crença na inerrância das Escrituras Sagradas, sendo fiel ao texto bíblico e mesmo assim rejeitando o seu mau uso. Joe Carter, editor do The Gospel Coalition, na época também escreveu um artigo muito importante, sobre nove fatos que os cristãos deveriam saber sobre o antissemitismo, inclusive o papel do cristianismo nisso.

Durante anos estudando sobre a perseguição aos cristãos em países de maioria islâmica, me questionava como meus amigos muçulmanos eram capazes de lidar com textos difíceis do Alcorão que pregam a violência contra judeus e cristãos. Até que percebi que na minha própria tradição eu tinha um desafio bastante semelhante

A resposta, porém, que mais impactou veio do teólogo anglicano Gerald McDermott, autor do livro A Importância de Israel. Em um texto publicado na conservadora revista First Things, definiu o atentado à sinagoga como um ataque aos nossos “primos espirituais, o povo amado de Deus, que nos deu o nosso messias e nossa salvação”. O que achei interessante, porém, foi a história, até então pouco conhecida por mim, sobre o diálogo judaico-cristão após o Holocausto. Ele demonstrou como teólogos de várias denominações cristãs precisaram revisitar suas leituras da Bíblia e redescobriram o texto de Romanos 11,28-29, segundo o qual a aliança com Israel – incluindo os judeus que não reconhecem Jesus como o Messias – é eterna. Esse diálogo cobre desde reformados como C.E.B. Cranfield até Karl Barth e a própria Igreja Católica, com o Concílio Vaticano II e a declaração Nostra Aetae.

Esses esforços, juntamente com a criação do Estado de Israel, em 1948, e as descobertas dos manuscritos do Mar Morto, em 1967, inauguraram uma nova era não apenas nas relações entre judeus e cristãos, mas também na área dos estudos bíblicos acadêmicos do Novo Testamento, que sofreu uma verdadeira revolução. Graças aos estudos de E.P. Sanders sobre judaísmo do segundo templo, seguido depois pelas obras de James Dunn e N.T. Wright, passou-se a se questionar se os escritos dos apóstolos são de fato tão antijudaicos como os Pais da Igreja e Lutero nos fizeram crer. Foi aí também que surgiu a polêmica “Nova Perspectiva de Paulo” (NPP), cujo objetivo era buscar compreender o apóstolo em seu contexto judaico original, nos mostrando que Jesus e os apóstolos eram mais judeus do que muitas vezes nós, cristãos, gostamos de reconhecer. Nesse sentido, as passagens polêmicas de João e outros livros do Novo Testamento são compreendidas como discussões intrajudaicas, semelhantes aos muitos debates teológicos que aconteciam na época do segundo templo, a exemplo da comunidade de Qumrã.

A essas pesquisas juntaram-se também acadêmicos judeus que, mesmo não crendo em Jesus como o Messias, passaram a estudar o Novo Testamento. Dentre eles, Mark Nanos, Paula Friendksen, Amy Jil-Levine e Pamela Eisenbaum. Eles deram origem a uma corrente particular de pesquisa bíblica acadêmica denominada “Paulo Dentro do Judaísmo”, que vai além da NPP e busca compreender como o cristianismo seria caso não houvesse acontecido uma separação tão drástica do judaísmo no quarto século depois de Cristo. Esses estudos chegam até mesmo a desafiar elementos centrais da ortodoxia de alguns segmentos do cristianismo, como a justificação pela fé a possibilidade de salvação para os judeus à parte de Cristo.

É interessante notar como vários teólogos conservadores e fiéis às suas denominações no mundo anglo-saxão têm se engajado com esses estudos e produzido teologia séria, capaz de edificar a Igreja, proclamar o Evangelho e combater o antissemitismo. Já se fala até de teologias pós-supersessionistas. Nesse esforço, há desde anglicanos como Gerald McDermott e católicos como Gavin D’Costa até batistas como Michael Vlach e Craig Blessing, e carismáticos como Craig Keener. Isso sem falar nos cristãos de origens judaicas – os judeus messiânicos – como Mark Kinzer, David Rudolph e Jen Rosner.

A maioria dessas discussões ainda é pouco conhecida no Brasil, mas foi introduzida recentemente por meio do livro Perspectivas Sobre Paulo, organizado por Scott Mcknight e B. J. Oropeza. Ainda assim, mesmo em nosso país temos visto esforços notáveis de cristãos que têm buscado melhorar as relações com os judeus, inclusive a partir de uma perspectiva reformada. É o caso do teólogo (e também colunista deste jornal) Franklin Ferreira, que, além de publicar constantemente sobre antissemitismo aqui, em breve lançará o livro Por Amor a Sião, no qual mostra o espaço que há na teologia e tradição reformadas para uma maior aproximação do povo judeu.

Pensei que estávamos fazendo ainda mais progresso nesta área quando, ano passado, a Editora Monergismo, de caráter mais presbiteriano, também anunciou a publicação em português do livro O Cristianismo é Judaico, de Edith Schaeffer, esposa de Francis Schaeffer e fundadora, com ele, da comunidade L’Abri, da qual faz parte outro colunista desse jornal, Guilherme de Carvalho. A obra foi escrita em 1984, a partir de diálogos que ocorriam entre cristãos e judeus no L’Abri, e é um livro fenomenal, do ponto de vista presbiteriano, sobre a importância do ativismo cristão contra o antissemitismo.

Maus exemplos

Tudo isso muito me alegrou, pois, diante do crescimento do ódio aos judeus ao redor do mundo, é imperativo que nós, cristãos, lidemos melhor com os erros históricos da nossa tradição e o uso de nossos textos sagrados para a promoção da morte. E foi exatamente por esse mesmo motivo que, nesta semana, fiquei horrorizado ao saber que a mesma editora acabara de publicar em português o livro A Heresia do Judeu-Cristianismo, do pastor suíço Jean-Marc Berthoud. O autor tem várias obras traduzidas pela editora e é conhecido pelo tom polêmico com o qual ataca movimentos cristãos, como os carismáticos, enquanto defende aplicações cristãs da lei do Antigo Testamento às sociedades contemporâneas.

O livro é resultado de palestras proferidas em julho de 2006 na Igreja Reformada Batista de Lausanne e, como o próprio autor esclarece, tem um caráter espontâneo, devido ao seu caráter inicial oral. Logo de saída fica claro que não podemos esperar uma obra com rigor acadêmico. O livro se descreve como um combate ao que Berthoud classifica como “uma heresia que leva o nome de judeu-cristianismo” (p. 6). À medida que a leitura prossegue, porém, fica claro que a oposição do autor é exatamente a algumas tentativas de diálogo entre judeus e cristãos.

Ele define heresia como uma posição incompleta que consiste em tomar um ponto da revelação bíblica e isolá-la do resto da doutrina cristã. Nesse sentido, os judeus seriam, por natureza, hereges, por supostamente seguirem ensinos parecidos com os de Ário, no século 4.º, ao defender a unicidade de Deus enquanto negavam a divindade de Jesus.

Diante do crescimento do ódio aos judeus ao redor do mundo, é imperativo que nós, cristãos, lidemos melhor com os erros históricos da nossa tradição e o uso de nossos textos sagrados para a promoção da morte

Assim, um exemplo de como tratá-los, segundo o autor, seria o presidente sul-africano Paul Kruger, o fundador de Johanesburgo, que abertamente fez discriminação entre judeus e cristãos ao conceder à comunidade judaica, para a construção de uma sinagoga, apenas metade do tamanho dos terrenos que eram concedidos para a construção das igrejas. A razão para isso seria o fato de os judeus terem apenas metade da Bíblia. No dia da inauguração da sinagoga, Kruger fez questão de desprezar a fé judaica ao entrar no templo com a cabeça descoberta e proclamar que Jesus é Deus. Esse exemplo claro de intolerância religiosa é louvado por Berthoud (p. 12).

Devo dizer que, à luz desse exemplo inicial, é difícil não ler na argumentação posterior algo menos que uma justificativa teológica da intolerância cultural, social e política aos judeus.

Assim, o autor fará menção positiva aos sermões de João Crisóstomo contra os cristãos de origem judaica. Sobre a obra ele afirma: “É verdade que ele é um pouco rigoroso, um pouco enérgico, mas fala muito bem o que deve ser dito sobre o tema da tentação judeu-cristã” (p. 14). Esse, por si só, já é um péssimo comentário, pois legitima um dos ensinos da história do cristianismo cujos efeitos foram mais nefastos. Ainda que haja elementos teologicamente válidos no discurso de João Crisóstomo, o fato de que ele se tornou um dos pilares históricos do antijudaísmo cristão exigiria dissociar com muito mais precisão a verdade do erro. O fato é que, nesse respeito, João Crisóstomo, independentemente de sua indiscutível contribuição, não foi um bom exemplo histórico.

Não é de surpreender, então, que Berthoud ofereça aos seus leitores uma interpretação bastante supersessionista da leitura da Gálatas e afirme, indo além disso, que “judaizar não é outra coisa a não ser negar Jesus Cristo” (p. 15). Logo, todos os cristãos envolvidos no diálogo judaico-cristão estariam cometendo este pecado. A própria noção da possibilidade de um diálogo com os judeus estaria errada, então, já que o diálogo só é possível quando há igualdade entre as partes e isso não seria possível entre judeus e cristãos. A partir daí, demonstrando clara ignorância sobre o judaísmo, o autor começa, ao longo de dez capítulos, a rebater os dez pontos de um documento que busca lançar as bases comuns para relações entre judeus e cristãos.

Já a essa altura é possível tomar o pulso da obra. O espírito e a linha de argumentação de Berthoud inclinam o leitor, mais do que à pureza do cristianismo, a uma disposição de espírito antijudaica, vedando o diálogo, minimizando o antissemitismo e elogiando um mau exemplo.

Ainda que haja elementos teologicamente válidos no discurso de João Crisóstomo, o fato de que ele se tornou um dos pilares históricos do antijudaísmo cristão exigiria dissociar com muito mais precisão a verdade do erro

“Deicídio”: o dispositivo teológico antijudaico

Eu poderia escrever aqui um extenso artigo explicando os equívocos históricos e oferecendo interpretações teológicas divergentes sobre cada capítulo. Porém, não é o meu objetivo no momento. Gostaria apenas de ressaltar, dentro do contexto original, os trechos da obra que, de acordo com a legislação brasileira, poderiam ser considerados antissemitas. Expus alguns deles nas minhas redes sociais ao longo desta semana e fui alvo de críticas por parte da editora. Uma delas é a de que eu teria sido leviano e caluniador. Antes de justificar o meu julgamento, porém, acho importante mencionar o que é antissemitismo.

De acordo com a definição da Aliança Internacional em Memória do Holocausto (IHRA, em inglês) adotada por vários países, inclusive o Brasil,

“O antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientados contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas.”

Segundo a IHRA, isso pode se manifestar de várias maneiras, inclusive por meio de alegações “desumanizadoras, demonizantes ou estereotipadas sobre os judeus como tal”. Infelizmente, encontrei o que me parecem ser exemplos disso ao longo da leitura do livro. O exemplo mais claro aparece quando ele dá a entender que judeus incrédulos seriam mais perigosos para a humanidade do que não judeus incrédulos, citando os exemplos de Freud e Marx.

Berthoud nega de maneira categórica que haja alguma relação entre a necessidade de enfrentar o antissemitismo e o surgimento do diálogo judaico-cristão, contrariando de maneira clara os fatos e a história. Em seguida, nega que, na época em que os sermões que compõem o livro foram inicialmente proferidos (20 a 27 de julho de 2006), houvesse casos de antissemitismo na Suíça; como se isso acontecesse apenas na França.

Mas isso não parece ser verdadeiro. De acordo com uma pesquisa divulgada em 30 de março de 2007 – menos de um ano depois dos sermões – pelo jornal suíço Swiss Info, um estudo realizado em todo o país pela Comissão Federal Contra o Racismo mostrou que um a cada dez suíços era antissemita e mais de um quarto da população apresentava tendência em concordar com estereótipos antissemitas. É bastante improvável que antes da publicação desse estudo a realidade no país fosse diferente. Contudo, a ignorância do autor quanto a isso revela a sua própria ignorância sobre o que é o antissemitismo, entendido por ele como sendo apenas agressão física ou destruição de propriedades judaicas (p. 26).

É importante mencionar isso, pois é a partir da negação – ou desconhecimento, concedendo o benefício da dúvida – sobre a real situação do antissemitismo no país que ele constrói o seu argumento de que não se deve falar sobre a relação entre o cristianismo e o ódio aos judeus. Em seus próprios termos:

“Vemos toda uma campanha sem fim contra o antissemitismo quase inexistente na Suíça; e uma verdadeira caça às bruxas contra tudo que ainda resta do cristianismo verdadeiro entre nós e a quem ousa se mostrar. Esse chavão nada mais é que o eco evangélico da lavagem cerebral onipresente!”

À medida que ele continua sua argumentação, porém, temos a impressão de que ele facilmente se encaixaria na parcela de suíços propensos a acreditar no pior sobre os judeus.

Na página 30, no capítulo 1, por exemplo, ele afirma que os judeus que tentaram matar Jesus eram filhos do diabo, conforme João 8,44. Em seguida, porém, infere: “Podemos, então, nos associar impunemente, nos esfregar, nos chacoalhar, nos acotovelar com gente que tem por pai o diabo? Vamos, impunemente, tratá-los como irmãos?” (p. 30)

Muitos judeus descrentes deram maravilhosas contribuições à humanidade, e os piores entre os homens, como Hitler, Stalin e Mao, não eram judeus

Ora, ele pode alegar (e de fato alega, um pouco à frente) que não pretende atribuir aos judeus de hoje uma acusação feita por Jesus apenas a alguns judeus de sua época. No entanto, o uso da terceira pessoa do plural é inequívoco nesse trecho. Ele usa esse argumento para assegurar-se de que não vamos tratá-los como irmãos, o que seria “nos esfregar, nos chacoalhar, nos acotovelar” com eles. Berthoud nos recomenda evitá-los. Como todos sabemos, no entanto, a mera simpatia humana permite que façamos todas essas coisas, até mesmo num estádio de futebol, com qualquer um. O trecho comunica, indubitavelmente, uma vontade de segregação.

Essa atitude para com os judeus, recorrente ao longo do livro, se parece muito com o antissemitismo de acordo com a definição da IHRA. Conforme está posto na obra, a única razão de os judeus contemporâneos com os quais os cristãos tentam dialogar serem considerados filhos do diabo seria o mero fato de serem judeus. Essa impressão é reforçada quando, em seguida, o autor lista uma série de motivos pelos quais os judeus contemporâneos são indesculpáveis por não reconhecerem Jesus como o Messias.

É importante mencionar que essa continuidade entre os judeus da Bíblia e os contemporâneos é mantida ao longo de todo o livro. Na página 42, isso fica explícito: “Os judeus atuais, que não creem no Filho de Deus, não são mais fiéis à antiga aliança e nem à nova. São tão apóstatas quanto eram seus irmãos de incredulidade do tempo de Isaías, Jeremias, Ezequiel”. É claro que, de um ponto de vista estritamente teológico, não se pode dizer que essa afirmação seja inaceitável. O problema é que o autor a emprega para construir uma transmissão de culpabilidade.

Alguns parágrafos depois, o autor confirma essa relação de continuidade embora faça uma exceção para repetir o mito – hoje desmentido tanto pela historiografia quanto pelos estudos genéticos – de que os judeus asquenazes são descendentes do povo Khzar, que se converteu em massa ao cristianismo no século 8.º.

O coração do problema emerge quando o autor discorre sobre a responsabilidade dos judeus na morte de Jesus, o pilar central do antissemitismo cristão ao longo dos séculos. Nas páginas 69-70, Berthoud se opõe veementemente às tentativas de desassociar os judeus enquanto povo da morte de Jesus e nisso se contradiz várias vezes, recorrendo novamente a estereótipos antissemitas. Vale a pena ler com atenção este longo trecho:

“Toda a história de Israel, tanto nos tempos bíblicos como na época pós-bíblica, é uma confirmação estrondosa da persistência para esse povo das bênçãos e maldições do Deus de Israel. Quando os judeus se convertem, frequentemente tornam-se cristãos tão zelosos que dá vergonha aos cristãos de nossas nações. Mas quando vivem contra Deus, são motores incomparáveis do mal. Pensemos, simplesmente, na influência prodigiosamente nefasta de homens como Karl Marx e Sigmund Freud. Dois homens que se entregaram, explicitamente, às forças satânicas.

Recapitulemos. Existe culpa automática, através dos séculos, do povo judeu como um todo, pela morte do Messias? Por tudo que já vimos é claro que não. É evidente que não há uma culpa generalizada de todos os judeus pela morte de Cristo. Mas os judeus que evocam sobre si mesmos a rejeição de Cristo pelos seus ancestrais, que se colocam ao lado daqueles que crucificaram a Cristo, que se põem ao lado dos seus pais incrédulos e ímpios e que até lutam, com uma obstinação a toda prova, contra a menor parcela de influência cristã sobre a sociedade, esses acumulam sobre suas cabeças os pecados de seus pais. Sobre esse ponto, a terrível propaganda de culpabilização, após a Shoah [holocausto], lançada contra os cristãos, nos intimidou completamente.”

Inicialmente, o autor afirma que não se pode compreender a situação dos judeus hoje sem levar em consideração as bênçãos e maldições da aliança entre Deus e Israel no livro de Deuteronômio. Em seguida, afirma que os judeus convertidos ao cristianismo são uma bênção, mas que os que não se convertem “são motores incomparáveis do mal” – com a necessária implicação de que os judeus descrentes em Cristo seriam mais perigosos para a raça humana do que outros povos. Além de discriminatória, a afirmação é absurda; muitos judeus descrentes deram maravilhosas contribuições à humanidade, e os piores entre os homens, como Hitler, Stalin e Mao, não eram judeus.

Berthoud nega explicitamente, de imediato, que o povo judeu como um todo seja culpado pela morte de Jesus. Contudo, na oração seguinte deixa claro que sim, os judeus que não reconhecem Jesus como o Messias são, de fato, culpados pela sua morte.

Ora, de um ponto de vista teológico ortodoxo é claro que todos os seres humanos são responsáveis por seus pecados e por sua inimizade contra Deus. Todos, sem exceção: cristãos, judeus, orientais, brancos, negros, homens e mulheres, tornaram necessária a morte de Cristo. Além disso, os que se colocam contra Cristo e que trabalham contra o evangelho partilham, de um ponto de vista espiritual, da negação ativa de Deus, que é o princípio do mal – o mal que levou Caim a matar seu irmão Abel. Nesse sentido mais geral, é verdade que os inimigos de Cristo, os que desejariam a sua inexistência, estão espiritualmente próximos de Caim. Todos somos, potencialmente, como Caim; a semente do deicídio existe latente em cada um de nós.

Mas o que tem isso a ver com o mero fato de ser judeu? A mera descrença em Cristo não tornaria alguém corresponsável pelo crime histórico de matar Jesus Cristo, ou herdeiro especial dessa culpa. Não poderia um judeu discordar de Cristo, mas igualmente discordar de seus antepassados, que o mataram?

Por outro lado, que diferença há entre o descendente judeu dos assassinos de Cristo e o descendente dos romanos que crucificaram a Cristo, se ambos forem descrentes? Ainda que se alegue, a partir de uma teologia das maldições da aliança mosaica, que Deus fará do seu povo um exemplo para os povos, não se pode depreender disso que o judeu seja inferior ou mais pecaminoso do que o romano. De que modo os gentios que rejeitam Cristo deixam de herdar a culpa pelo crime dos romanos enquanto os judeus que rejeitam a Cristo herdam o crime do Sinédrio? A noção de que o crime do Sinédrio e de um grupo de judeus fanáticos estabeleceria uma culpa étnica e hereditária de deicídio é absurda, uma verdadeira escória teológica.

A mera descrença em Cristo não tornaria alguém corresponsável pelo crime histórico de matar Jesus Cristo, ou herdeiro especial dessa culpa

E o que deveria fazer Berthoud, “se associando impunemente, se esfregando, se chacoalhando, se acotovelando” com suíços de sangue azul que têm por pai o diabo, tanto quanto qualquer indivíduo que rejeita a Deus e a Cristo? Ou seriam os pecadores arianos, brancos, europeus, romanos, negros, orientais ou indígenas menos filhos do diabo que os pecadores judeus? O que faz Berthoud habitando na Suíça pós-cristã?

Na visão do autor, aparentemente, o único motivo pelo qual não se pode culpabilizar todos os judeus é que alguns deles têm se tornado cristãos. Na prática, porém, isso não faz o menor sentido, já que a grande maioria dos judeus no mundo hoje não é cristã. Ele tem tanta ciência do peso do que está tentando defender que tenta negar a responsabilidade cristã no Holocausto e usa isso como motivo pelo qual outros cristãos não teriam coragem de afirmar a mesma coisa que ele. E ele dá mais um passo nas páginas 70 e 71:

“É claro que em certos momentos da história Deus também castiga as nações coletivamente. O que aconteceu na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial tornou isso bastante evidente. A destruição de um povo não pode, de maneira alguma, ser considerada como um simples acidente. Vale o mesmo para a presente degeneração da Suíça, essa desconstrução nacional que constatamos a cada dia mais e de diversas maneiras. O que também não é um simples acidente histórico. Como chegamos a tal ponto de destruição do nosso país? Foi porque rejeitamos coletivamente o Deus de nossos pais, de geração em geração. Porque não se rejeita Deus impunemente. Não se trata de uma rejeição individual; é uma rejeição feita pelas famílias, pelas diversas comunidades do país, pelos cantões e pela nação como um todo. Podemos esperar que Deus abençoe um cantão como o nosso, o país de Vaud, no qual 84% das pessoas votaram pelo aborto? Vemos, então, que essa ideia – de que não há nenhuma continuidade na aliança de Deus – procura não apenas isentar o povo de Israel de suas responsabilidades históricas pela morte do seu Messias, pelo deicídio cometido por seus pais, mas também procura desculpar todas as nações da terra que, em sua história, viram a realização das promessas e das ameaças do Evangelho, em razão de suas responsabilidades pactuais.”

Ao defender que Deus castiga nações de modo coletivo, mesmo citando também a Suíça com suas leis favoráveis ao aborto, ele dá a entender que a causa do Holocausto tenha sido uma punição divina pela maneira como os judeus lidaram como Jesus. Assim, deixa claro que é contra as tentativas de “isentar o povo de Israel de suas responsabilidades históricas pela morte do seu Messias, pelo deicídio cometido por seus pais”.

A noção de que o crime do Sinédrio e de um grupo de judeus fanáticos estabeleceria uma culpa étnica e hereditária de deicídio é absurda, uma verdadeira escória teológica

Isso parece indistinguível do antissemitismo cristão clássico. É uma clara demonização do povo judeu pelo simples fato de eles serem judeus, por meio de um dispositivo teológico espúrio. E Berthoud não se resolve consigo mesmo; nega a intenção de culpar todos os judeus de deicídio, mas acaba fazendo isso tortuosamente. Em seguida, na página 71, ao fazer referência ao texto de Mateus 27,25, ele afirma:

“Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos. Esta palavra nunca foi revogada e nem negada por Israel. Desse ato, Israel jamais se arrependeu. É para consolidar esse endurecimento e esse orgulho que hoje se tenta reescrever os Evangelhos a qualquer preço. Porque o testemunho histórico do Evangelho não pode ser aceito como verdadeiro, como um testemunho historicamente autêntico do apelo às maldições de Deuteronômio, feito pelas autoridades do povo, para que caíssem sobre Israel. Aqui nos encontramos, verdadeiramente, no coração, propriamente dito, da obra divina de salvação.”

Aqui ele deixa claro que sim, os judeus ainda hoje são culpados pela morte de Jesus porque, na interpretação dele, seria isso o que os evangelhos afirmam – a despeito do fato de que essas são as palavras tolas de um grupo de hierosolimitanos descrentes, não representando nem todo o judaísmo e nem a Palavra de Deus, que diz “perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Nas páginas seguintes, temos uma longa defesa da ideia de “deicídio” e uma aprovação do conhecido antissemitismo dos Pais da Igreja:

“Assim, quando as liturgias cristãs antigas falavam sobre deicídio em relação à morte de Jesus Cristo na cruz, afirmavam uma verdade essencial à nossa salvação, uma realidade doutrinal que para os cristãos é indiscutível, ou seja, aquele que estava sobre a cruz e que ali morreu era verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, e isso sem confusão, mas também de maneira indissociável. E quando os judeus levaram os romanos a crucificar Jesus Cristo, aquele que foi assim levado à morte, era, exatamente, Deus feito homem. E é por esse sacrifício de Deus feito homem que somos salvos. Ao utilizar a expressão deicídio, afirmamos que aquele que estava sobre a cruz era Deus. É isso que os judeus e os judeus cristãos procuram implícita ou explicitamente negar. Sobre esse ponto, nenhuma concessão é possível!” (p. 75-76)

Para o autor, essa é a única leitura fiel dos Evangelhos. Logo, tentar desassociar os judeus contemporâneos da demonização que lhes foi atribuída no início do cristianismo é necessariamente negar a veracidade dos Evangelhos. Nada poderia estar mais longe da verdade, conforme mencionei acima; a noção de “deicídio” como categoria para entender o povo judeu, como tal, já foi aposentada como um velho instrumento de tortura. É um dispositivo teológico inútil, falido e perverso. Não faz sentido nenhum tentar retomá-la.

Ao defender que Deus castiga nações de modo coletivo, mesmo citando também a Suíça com suas leis favoráveis ao aborto, Berthoud dá a entender que a causa do Holocausto tenha sido uma punição divina pela maneira como os judeus lidaram como Jesus

Ao tentar combater os princípios que deveriam nortear as relações e o diálogo entre judeus e cristãos, Berthoud só reforça ainda mais a necessidade deles, principalmente diante do crescimento atual do antissemitismo ao redor do mundo.

Sua contra-argumentação também é irônica e infundada, uma vez que hoje são justamente acadêmicos e teólogos judeus, como David Novak e Amy Jill-Levine, os que dizem que os cristãos não devem abrir mão dos seus textos sagrados. Pelo contrário, deveriam buscar compreendê-los à luz de uma teologia mais ampla.

Quanto a isso, a própria teologia reformada que Berthoud afirma defender já oferece uma ótima base. O pecado original foi herdado de Adão, segundo a leitura reformada de Romanos 3, deixando claro que tanto judeus quanto gentios estão debaixo das mesmas maldições e sujeitos à mesma graça. Logo, ambos foram, de alguma maneira, responsáveis pela necessidade do sacrifício de Jesus. Assim, não faz o menor sentido querer ressaltar a culpa apenas dos judeus.

É interessante observar que Calvino também defendia uma relação de continuidade entre os judeus da Bíblia e os de seu tempo. O seu veredito acerca deles, porém, no Comentário da Carta de Paulo aos Romanos, era bem diferente daquele de Berthoud:

“Alegar-se-á, admito, com boa dose de verdade que os judeus são naturalmente santos, visto sua adoção ser hereditária. Contudo, estou falando agora de nossa primeira natureza, segundo a qual vivemos todos, bem o sabemos, sob a maldição de Adão. Portanto, a dignidade de um povo eleito é, propriamente falando, um privilégio supernatural.”

A noção de “deicídio” como categoria para entender o povo judeu, como tal, já foi aposentada como um velho instrumento de tortura. É um dispositivo teológico inútil, falido e perverso

O que o momento exige?

Só tenho a lamentar a publicação de uma obra como essa em pleno 2022, justamente em uma época na qual temos presenciado uma verdadeira pandemia de antissemitismo ao redor do mundo. Os dados são alarmantes. De acordo com a última pesquisa da Liga Anti Difamação, realizada em 2019, 26% da população mundial possui algum tipo de opinião hostil aos judeus. Nesses números, 24% são cristãos. No Brasil não é diferente: 25% dos brasileiros e 27% dos cristãos brasileiros acreditam em algum tipo de crença antissemita. Como demonstro em meu livro Por Amor aos Patriarcas, é possível que após a pandemia de Covid-19 a situação seja ainda pior.

Espero, porém, que o livro de Edith Schaeffer a ser publicado em breve contribua para desfazer o potencial estrago de A Heresia Atual do Judeu-Cristianismo. Até porque, graças ao Deus de Israel, ela, assim como eu e muitos cristãos ao redor do mundo, somos hereges segundo a noção de Berthoud. Oro para que hereges como esses se multipliquem. Pois foi graças a hereges assim que muitos judeus foram salvos do Holocausto.

Tenho várias discordâncias teológicas com a obra de Berthoud. Fosse o seu trabalho apenas mais uma obra supersessionista, a questão não seria da maior importância. Mas a ressurreição do dispositivo teológico antijudaico do “deicídio” e a desqualificação do diálogo entre judaísmo e cristianismo são escolhas moralmente repreensíveis, e sua disseminação pode involuntariamente contribuir para o antissemitismo no Brasil.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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