Detalhe do afresco de Michelangelo na Capela Sistina mostrando a criação do Sol, da Lua e dos planetas.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público
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“A cultura é a prática da plena temporalidade, uma instituição que conecta o presente ao passado e ao futuro.” (Patrick Deneen)

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O que temos para o fim de semana em nossa coluna é um tema insólito: uma defesa do domingo. Alego que separar esse dia para pensar em Deus, para visitar a igreja e ouvir repreensões de padres, pastores e reverendos cuja ocupação consiste, basicamente, em atormentar nossas consciências é uma prática de enorme importância espiritual, moral e política.

Para os cristãos, a consagração do domingo está acima de qualquer dúvida, e o que se segue é uma exposição orgânica das razões para tanto. Como de costume, com um enquadramento conceitual mais amplo e um pouquinho de abstração; afinal, é claro que muita gente guarda o domingo por puro hábito, mas para dizer o óbvio bastam os olhos e o Google. Nosso interesse, nos tortuosos caminhos dessa coluna, são as razões, a inteligência da coisa. O argumento, aqui, dá um segundo passo em relação ao tema que introduzi em “A modernidade secular e o expurgo do tempo”, em setembro passado.

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Deus e o Tempo

Começando do começo: o Criador de todas as coisas não criou apenas “coisas”. A crença cristã clássica entende que todo o universo foi criado ex nihilo, “do nada”; e essa é a razão por que, enfim, existe alguma coisa em vez de nada, segundo a célebre questão de Leibiniz. E essa afirmação, segundo o modelo cosmológico padrão, implica reconhecer em Deus a origem da matéria, da energia, do espaço e, necessariamente, do próprio tempo físico, que é uma dimensão do bloco quadridimensional a que chamamos de “universo”. Deus acendeu o “pavio” 13,8 bilhões de anos atrás.

Mas Deus não criou apenas o tempo enquanto contínuo em fluxo, ou como esse bloco quadridimensional de tempo-espaço “dentro” do qual se dão os fatos. Tendemos a pensar no tempo como se fosse um “oceano” dentro do qual nós vivemos, nos movemos e existimos; mas nas Escrituras hebraicas o tempo é uma ordem.

John Walton, biblista do Wheaton College, mostrou em O Mundo Perdido de Adão e Eva (e antes disso em The Lost World of Genesis One) que, ao criar a “luz” e separar luz e trevas, chamando ao primeiro “dia” e ao segundo “noite”, Deus na verdade criou um “ritmo” diário fundamental: tarde e manhã, o primeiro dia. O fiat lux! declarado em Gênesis 1,2 não seria uma referência velada ao Big Bang, segundo interpretações bíblicas mais literalistas, mas o estabelecimento dos ritmos fundamentais da ordem natural sobre os quais se baseia a vida humana, e uma estrutura de ciclos temporais que servem a um propósito divino.

Tendemos a pensar no tempo como se fosse um “oceano” dentro do qual nós vivemos, nos movemos e existimos; mas nas Escrituras hebraicas o tempo é uma ordem

Isso se ilumina quando consideramos a semana bíblica da criação como um todo, ao longo de seis dias, segundo Gênesis 1. Ela também mostra que o tempo tem uma direção. Na Física falamos em uma “seta do tempo”, estabelecida pela lei da entropia, que move o mundo para um estado de maior desorganização e dissipação de energia. Por isso fenômenos físicos nunca se revertem (como um copo quebrado se reintegrando e flutuar do chão à mesa).

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Mas o Gênesis indica que há uma outra seta do tempo: um, dois, três, quatro, cinco... seis dias de trabalho! E apenas no sétimo e último dia Deus vê cumprido o seu propósito. O sábado é o destino, o descanso de Deus, a consumação de sua obra. E que obra? O fato de Deus introduzir, no sexto dia, uma imagem de Si mesmo no mundo indica, à luz de estudos mais recentes sobre a função dos templos religiosos no crescente fértil, um propósito litúrgico no ato criador. A obra de Deus, ao longo dos seis dias, foi nada menos que a construção de um templo, o templo da criação, no centro do qual existe uma imagem da divindade, o ser humano. O humano é, a um só tempo, o santuário e o sacerdócio da adoração cósmica.

Ora, se o mundo tem um ritmo, uma ordem e um destino, o tempo é mais do que um fluxo sem sentido. O tempo é, por assim dizer, temporizado. Uma ilustração interessante disso nos é dada no filme Dunkirk, de Christopher Nolan (2017), ganhador de 50 prêmios e três Oscars (um filmaço, devo dizer). A película conta a história da operação Dynamo, o resgate, em 1940, de 400 mil soldados aliados cercados em Dunquerque, sob três perspectivas: terra, mar e ar. Mas as três linhas narrativas têm relógios diferentes (e Nolan faz questão de recorrer ao tic tac literal do relógio em seus filmes). Os fatos em terra levam alguns dias; no mar, o resgate dura um dia e, no ar, a batalha aérea dura poucas horas. E tudo converge no mesmo ponto temporal. A sensação de camadas narrativas temporizadas e sincronizadas, culminando com um momento apocatástico (a “virada” ou o “escape”, segundo Tolkien), é impressionante.

Tudo tem uma ocasião certa, e há um tempo certo para todo propósito debaixo do céu.
Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar;
tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de deixar de abraçar;
tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora;
tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de ficar calado e tempo de falar;
tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.
Tudo que ele fez é apropriado ao seu tempo. Também colocou a eternidade no coração do homem; mesmo assim, ele jamais chega a compreender inteiramente o que Deus fez.
(Eclesiastes 3,1-8)

“Tudo tem uma ocasião certa, e há um tempo certo para todo propósito debaixo do céu”, nos diz o “Pregador” em Eclesiastes 3,1. Citamos esse trecho muitas vezes com os olhos no que desejamos fazer (como plantar ou arrancar, construir e destruir etc.), mas o que define os tempos é o propósito de Deus. Há um sentido na história, um kairós, ou seja, um tempo certo e maduro para cada gesto, e um sentido da totalidade temporal no ser humano que o capacita a intuir as setas temporais. Mas compreender como todos os fios se tecem está além da mente humana. Percebemos que há significado, como notando uma conversa entre estrangeiros que se entendem, mas numa língua que não conseguimos penetrar.

Se há um tempo que unifica as ocasiões e amarra as diversas camadas da temporalidade, um kairós no qual convergem todas as setas, ou uma grande narrativa no amadurecimento de todos os tempos, tal só poderia ser mesmo um tempo divino, que estaria oculto aos olhos dos homens. No entanto, é precisamente aqui que entra o evangelho cristão: “Ele fez com que conhecêssemos o mistério da sua vontade, segundo a sua boa determinação, que nele propôs, para a dispensação da plenitude dos tempos, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão no céu como as que estão na terra” (Ef 1.9-10).

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Há um sentido na história, um kairós, ou seja, um tempo certo e maduro para cada gesto, e um sentido da totalidade temporal no ser humano que o capacita a intuir as setas temporais

Muitos séculos depois do rei-sábio hebreu, em pleno Império Romano, encontramos o apóstolo Paulo falando sobre aquele mistério referido em Eclesiastes, sobre o fulcro e a juntura de todos os tempos. Peço licença para um minuto exegético: a linguagem da Carta aos Efésios é conceitualmente rica. Ela fala sobre uma “dispensação da plenitude dos tempos”. Para os “tempos” Paulo usa um plural de kairós, não “o tempo” num sentido abstrato (ou kronos), mas o tempo certo, a ocasião particular, o tempo oportuno para isso ou aquilo. O termo dispensação (oikonomían) tem o sentido mesmo de uma “economia” ou “administração” dos tempos. Esses tempos atingem a “plenitude” (plerõmatos) – a completude ou a maturidade, indicando um passo correto, uma etapa apropriada para a finalização de um objetivo.

A maturidade dos tempos naturais, cíclicos e históricos se dá, segundo uma administração divina, no momento certo para a “convergência” (literalmente“encabeçamento” ou “recapitulação”) de tudo em Cristo. O Verbo se encarnou para reunir em si a realidade temporal inteira, para “batizá-la” por meio de sua própria morte, e abrir o caminho para uma nova criação por meio de sua própria ressurreição.

O tempo tem, assim, na perspectiva cristã, uma coerência sincrônica e direção convergente, um destino; esse destino se expressa como uma maturação cósmica e histórica, e é determinado por uma economia, uma administração divina intencional. Não que isso seja facilmente evidente, inambíguo; é, segundo o apóstolo, um mysterion, revelado a partir do Evangelho (conferir Efésios 3,8-11). A revelação desse mistério, de uma ordem convergente no tempo do mundo, depende do reconhecimento de Cristo como Logos encarnado. Mas aqueles que creem em Jesus Cristo não podem ver de outra forma a não ser Cristo como o centro do tempo.

O sábado divino

Gostaria de voltar, aqui, à contribuição de John Walton, à qual nos referimos no princípio do artigo. A maturidade dos tempos, na história primordial de Gênesis, estaria no sábado divino. Ao celebrar o sábado, o judeu celebrava nada menos que o descanso divino, que representava a perfeição e completude do trabalho divino. Essa completude fazia o hebreu considerar sua própria criaturidade e a bondade de Deus, de cujo trabalho perfeito todos nós dependemos, e sobre o qual todos podemos descansar. O sábado era uma espécie de evangelho performático, uma lembrança na nossa criaturidade e da graça divina.

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Ora, para os cristãos o sábado, tempo da obra consumada e do descanso no descanso divino, é Cristo, o alvo da criação. Por isso Jesus é “o senhor do sábado”, segundo a famosa linguagem dos Evangelhos. Ele é a realidade para a qual o rito sabático apontava: “Assim, ninguém vos julgue por comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, os quais são sombras das coisas que haveriam de vir; mas a realidade é Cristo”, nos disse o apóstolo Paulo em Colossenses 2,16.

Não nos relacionamos com datas e ritmos simbólicos de forma legalista e mágica, como se eles fossem o próprio mistério, mas como janelas para a contemplação do mistério

Daí observa com muita precisão o liturgista protestante Jean-Jacques Von Allmen, em 1968: “Se Jesus é o verdadeiro sábado – assim como é o verdadeiro templo, o verdadeiro sacrifício da antiga aliança e a verdadeira circuncisão –, ele põe fim ao sábado (assim como ao templo, aos sacrifícios e à circuncisão) porque o leva à plenitude. Em outras palavras, o dia de culto cristão não será mais o sábado, mas sim outro dia. O sábado está superado”.

O sábado foi “abolido” porque foi cumprido! Naturalmente, a vinda de Cristo não significa que não possamos ter ritmos tradicionais na vida – incluindo neles o próprio sábado, concluído em Cristo –, mas que todos os ritmos devem ser considerados sacramentalmente e simbolicamente, como o que são: sombras da realidade. Não nos relacionamos com datas e ritmos simbólicos de forma legalista e mágica, como se eles fossem o próprio mistério, mas como janelas para a contemplação do mistério.

Qual é a implicação crucial de tudo isso? Cristo é o centro do tempo, o seu destino e ponto de convergência supremo. De modo que a ordem cíclica da semana e do sábado constituem, nessa perspectiva, um símbolo natural e divinamente estabelecido do movimento cósmico em direção a Cristo, o destino e consumação desse movimento. Isso cria uma topologia distintamente cristã para o tempo: os dias não são todos iguais. Sobre a camada dos ciclos naturais das estações, das semanas e dos dias, temos uma camada de significado espiritual, desses ciclos como antecipações e sacramentos de um destino divino.

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E assim nasceu o domingo!

Como a igreja respondeu à revelação desse mistério divino? Em resposta à revelação kairótica do evangelho a igreja constituiu liturgias. E por meio delas ela efetuou uma santificação do tempo. Reconhecendo Cristo como o centro do tempo, ela tratou de reestruturar as topografias temporais para em todas elas referir-se a esse evento central, de modo a iluminar cada camada do tempo.

Em primeiro lugar isso tinha um sentido doxológico, de adoração e gratidão a Deus. Os hebreus costumavam oferecer a primeira porção do fruto da terra a Deus, como um símbolo da consagração de toda a colheita anual. Com isso a colheita inteira era “santificada”. Essa primeira porção era chamada de “primícia”. O que a igreja fez foi santificar o tempo, organizando-o de modo litúrgico, e separando o primeiro tempo para a adoração a Deus. E esse primeiro tempo foi, naturalmente, o domingo. Diz Jean-Jacques Von Allmen:

“Em outras palavras, a semana inteira é santificada pelo culto dominical, assim como o ano inteiro o é pela celebração da festa da páscoa e o dia inteiro o é por aqueles momentos cotidianos de oração que a didaquê recomenda aos cristãos, os quais, na tradição monástica, constituem ‘as horas’.”

E coisa se deu na seguinte ordem: primeiro houve uma tomada de consciência sobre o Domingo de Páscoa, por ter Cristo ressuscitado no primeiro dia da semana, e não no sábado; e, então, renovando a prática da guarda judaica do sábado, a igreja passou a guardar todos os primeiros dias. E o primeiro dia da semana passou a chamar-se “dia do Senhor” (“domingo” vem do latim dies dominica). Von Allmen observa que os cristãos primitivos celebravam o domingo distinguindo-o do mero “descanso”. Eles o viam como o “oitavo dia”, ou seja, o primeiro dia de uma nova criação, como afirmara, no século 5.º, Eusébio de Alexandria:

“O santo dia do domingo é a comemoração do Salvador. Chama-se dominical porque ele é o Senhor dos dias. Com efeito, antes da paixão do Senhor ele não se chamava domingo, mas sim primeiro dia. Foi neste dia que o Senhor deu início à criação do mundo, e no mesmo dia deu ao mundo as primícias da ressurreição. Eis porque esse dia é o princípio de todo o bem: princípio da criação do mundo, princípio da ressurreição, princípio da semana.”

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O domingo se tornou memorial semanal do centro de toda a história: a Páscoa. Nele, por meio da ceia do Senhor (ou eucaristia) lembramos que Cristo é a plenitude dos tempos; que sua morte e ressurreição cumprem a velha criação e inauguram a nova. Em cada culto dominical recapitulamos a história da salvação e nos lembramos desse mistério do tempo divino, e consagrando o primeiro dia, santificamos a semana inteira.

E foi assim que nasceu o domingo!

Por que o domingo importa

O domingo importa muito, liturgicamente, pedagogicamente e politicamente.

Em primeiro lugar, a Igreja santificou o domingo e estabeleceu o calendário litúrgico com uma função religiosa, como observamos acima. Mas a coisa não era apenas vertical; era também horizontal. Dizia respeito à formação do imaginário cristão – ou, como James K. A. Smith coloca com muita propriedade, era uma questão pedagógica, uma questão de contraformação. Não se muda um mundo apenas com ideias; são necessários novos ritmos, novas rotinas e novos rituais. Cabe repetir, aqui, uma citação de Uma era secular, de Charles Taylor, que fizemos noutro dia:

“A ‘secularização’ moderna pode ser vista a partir de certo ângulo como a rejeição dos tempos superiores e a postulação do tempo como essencialmente profano. Acontecimentos agora existem apenas nesta única dimensão, na qual eles se mantêm numa distância temporal maior e menor e em relações de causalidade com outros acontecimentos do mesmo tipo... a passagem para o que chamo de ‘secularidade’ está obviamente relacionada a essa consciência de tempo radicalmente expurgada.”

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Aqueles de nós preocupados com a secularização moderna e seus efeitos nefastos precisam considerar que batalhas ao redor de ideias e legislação são insuficientes, se nossa consciência e nossos hábitos são submersos por um tempo essencialmente profano, expurgado do sagrado, e cuja topografia é determinada por prioridades puramente terrenas: comprar, votar, estudar, passear. Ora, todas essas coisas são importantíssimas; mas insuficientes para unificar nossa experiência temporal e nossos objetivos de vida, que permanecem disparatados. Precisamos do que Charles Taylor chama de “Grande Tempo”. E o que nos fornece o Grande Tempo é a história da Páscoa, quando Deus fez todos os tempos chegarem à maturidade e revelou que todas as coisas convergirão em Cristo.

Não se muda um mundo apenas com ideias; são necessários novos ritmos, novas rotinas e novos rituais

Em analogia com a “terraformação” da ficção científica, calendários, datas e ciclos semanais são uma espécie de cronoformação. Nossas topografias temporais expressam nossas prioridades, e contêm em si liturgias e ritos construídos ao redor dos bens que prezamos mais. Há liturgias de estudo, de lazer e de consumo, nessas grandes basílicas denominadas shopping centers; e, se entendemos que a cultura moderna precisa reencontrar seu centro espiritual perdido, é imperativo que ele tenha um lugar em nossa topografia temporal. Outra metáfora para expressar a mesma coisa poderia vir da construção: nossos calendários, ritmos, rituais e rotinas compõem um edifício, uma arquitetura temporal dentro da qual habitamos.

Ora, o que a igreja fez por meio do domingo foi estabelecer um pit-stop para recuperar o eixo narrativo de toda a história a partir de Cristo e ordenar a liturgia da existência ao redor desse eixo, começando todas as semanas com a oferta das primícias a Deus – o primeiro dia. Essa ação da igreja se insere na lógica da vigilância espiritual, ensinada por Jesus e pelos apóstolos: vigiar para não se perder existencialmente, e não perder a consciência do tempo da nova criação:

“Fazei isso compreendendo o tempo, que já é hora de despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto do que no início, quando cremos. A noite já está avançada, e o dia se aproxima; deixemos de lado as obras das trevas e revistamo-nos das obras da luz. Vivamos de modo decente, como quem vive de dia: não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em discórdia e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo; e não fiqueis pensando em como atender aos desejos da carne.” (Romanos 13,11-14)

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A vida desperta e vigilante é a que, a partir da Páscoa, se conscientiza da proximidade do amanhecer e pratica a esperança. Ela se reveste com as armas do dia: se prepara para as realidades da nova criação, cultivando a virtude, servindo ao próximo e cuidando da criação. Podemos chamar isso de “consciência escatológica”. Mas notem que tal consciência é um sentido de temporalidade: uma consciência kairótica, uma sensibilidade para o fato de que a ressurreição de Jesus muda tudo.

Nos domingos, separados para a adoração a Cristo, a igreja lembra a si mesma e ao mundo de que nenhum poder pode se autovalidar, e que todos terão de prestar contas àquele que “virá julgar os vivos e os mortos”

E esse é também o sentido político-religioso do domingo: ele anuncia a vitória de Jesus, pela qual ele foi feito por Deus “Senhor e Cristo”, Christus Kyrios. Assim, o domingo é dies dominica, o Dia do Senhor. Em que sentido? Não apenas num sentido religioso ou interior: “toda a autoridade me foi dada nos céus e na terra” – é o que Jesus Cristo anunciou aos apóstolos, pouco antes de sua ascensão.

Cristo é o Senhor em todas as áreas da vida, incluindo da política. Os cristãos entendem que o governo de Cristo prevalecerá, e que todos os governos, laicos ou não, foram definitiva e irrevogavelmente derrotados em suas pretensões redentivas e totalizantes na ressurreição, quando o selo do poder romano foi quebrado e a pedra que tapava o túmulo, lançada à distância, segundo o relato dos Evangelhos. A obediência a Deus venceu a obediência aos homens. Isso limitou o poder da espada e introduziu um lento, mas contínuo processo de redefinição e qualificação do poder temporal, ainda em curso – mesmo que com reveses eventuais –, virando de cabeça para baixo o próprio conceito de poder. A partir de Jesus desenvolveu-se a ideia de que os governantes são servos de Deus e de seus governados, com ressonâncias que vão de Agostinho, em A Cidade de Deus, passando pela Reforma e por Martin Bucer, na aurora da ideia moderna de Estado de Direito, para florescer em fenômenos como o movimento dos direitos humanos, no século 20, e em reformadores modernos como Martin Luther King.

Nos domingos, separados para a adoração a Cristo, a igreja lembra a si mesma e ao mundo de que nenhum poder pode se autovalidar, e que todos terão de prestar contas àquele que “virá julgar os vivos e os mortos”. Nos domingos as igrejas atuam como embaixadas políticas de outro reino, advertindo que esse reino um dia encherá a terra, e promovem novos ritmos de vida, com prioridades morais diferentes e opostas aos ídolos dos homens, sejam eles conservadorismos ou utopias antropocêntricas. Nos domingos as igrejas também são encorajadas pela lembrança da ressurreição e pela esperança de que existe mais para viver hoje e também no futuro; que existe vida além dos calendários escolares, comerciais e políticos. O domingo é significado, esperança, coragem e uma santa desobediência.

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Vá à igreja neste domingo, nem que seja on-line. Eu não falho!

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]