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Em sabatina na Globo, Lula disse que não conhece Roberta Luchsinger. Mesmo em se tratando de Lula, foi uma declaração surpreendente. Ainda assim, o que mais impressionou foi a reação da grande mídia a essa “revelação”.
O presidente estava muito pouco à vontade na posição de sabatinado. O fato de estar diante de jornalistas que deixavam de contrapor algumas lacunas significativas das respostas não amenizou o desconforto de Lula. O que ficou evidente é que ele se desacostumou por completo ao debate, por mais suave que ele seja.
Lula mal conseguia esperar os jornalistas concluírem suas perguntas. A impaciência e as reações prévias eram visíveis e audíveis - sempre com a marca do sorriso tenso de quem não está lidando nada bem com qualquer forma de questionamento. O ponto mais visível desse mal-estar foi a atitude do presidente de dizer à entrevistadora qual pergunta ela deveria ter feito.
(Curiosamente, não houve reações em cadeia a essa atitude, nem brados feministas contra o desrespeito à mulher, nem repúdio de jornalistas contra a prepotência da autoridade, nem manifestos denunciando misoginia. A afronta à jornalista da Globo foi recebida com indiferença pela coletividade vigilante.)
O líder máximo do PT nunca teve uma relação fluente com a imprensa. Nos primórdios era o “nós contra eles”, quase uma exortação para que a militância não acreditasse no que vinha da “mídia burguesa”.
Uma vez no poder, mesmo passando a ter a boa vontade de grande parte da imprensa brasileira e estrangeira, Lula se manteve bastante seletivo no trato com os jornalistas em geral
Ele sempre foi adepto das entrevistas exclusivas (e mais controláveis) em detrimento das coletivas. Outros presidentes a quem chamou de autoritários, como FHC e até Jair Bolsonaro, foram mais abertos ao convívio cotidiano com a imprensa. O que se notou na sabatina da Globo, porém, foi que nos últimos anos isso se agravou.
A realidade pessoal de Lula parece estar hoje completamente filtrada. Ele põe o chapéu panamá, vai para o auditório da vez, conta suas histórias para a claque, é aplaudido e volta para o casulo. Está tão desacostumado a qualquer contato com o mundo externo que saiu da sabatina da Globo dizendo que foi maltratado, que aquilo “parecia o Ministério Público” (interrogatório).
Talvez por isso o presidente e seu núcleo tenham resolvido adotar uma estratégia tão exótica sobre o caso de Roberta Luchsinger. Optar por alegar desconhecimento da personagem é estar decididamente apartado da realidade atual. Basta a intimidade já exaustivamente demonstrada entre a lobista e seu filho, ou mais ainda, entre a lobista e o seu chefe de gabinete, para comprometer a tese do desconhecimento.
Seria mais verossímil (ou menos inverossímil) dizer que nunca lhe pediram nada em nome dela, etc. Alegar não saber quem é foi um atestado de divórcio da realidade.
A cereja do bolo foi a reação da imprensa a essa tática radical. Ficou claro que não é só Lula e seu núcleo mais próximo que subestimam os fatos. Jornalistas experientes se prestaram a endossar a tese de que as inúmeras fotos de Lula com Roberta não querem dizer nada - porque um presidente é como uma celebridade, “tira foto com todo mundo”, etc.
Claro que o contexto das relações palacianas e familiares da lobista com o universo íntimo do presidente torna essa tese exdrúxula. E aí está a pior notícia de todas: se parte da grande imprensa no Brasil resolveu se abraçar com o cinismo é problema dela; mas se há jornalistas relevantes achando que seu público é tonto, talvez seja mais difícil do que parece superar a crise da liberdade de expressão no país.

Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




