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marcelo queiroga - vacinação - 2022
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ninguém pode culpar Eduardo Pazuello por ser um completo ignorante em questões sanitárias. Militar de almoxarifado, tornou-se titular do Ministério da Saúde para fazer cumprir os desatinos de Jair Bolsonaro. Mas, apesar de sua condução desastrosa da pasta, desnudada pela CPI da Covid, é forçoso reconhecer que Marcelo Queiroga, que o substituiu, é um personagem ainda mais deletério, apesar de sua formação estrelada. Médico cardiologista, ele corrompeu a imagem do “ministro técnico”, já que faz o contrário do que se espera de um. Tornou-se a fachada supostamente esclarecida dos embustes que norteiam a política do governo para a pandemia.

No último dia 16 de dezembro, a Anvisa autorizou a imunização de menores entre 5 e 11 anos de idade no Brasil. Além do seu corpo técnico, a instituição recorreu a diversas sociedades médicas de maneira que pudessem participar complementando com informações que qualificassem ainda mais o teor do documento final produzido. Ao invés de corroborar o posicionamento da agência reguladora, Queiroga tratou de prestigiar as conspiracionices do Palácio do Planalto, ecoando os receios e as paranoias de quem tenta espalhar dúvidas sobre a segurança das vacinas. Disse que não se tratava de matéria “consensual”. É importante lembrar que, antes disso, ainda em setembro, este mesmo senhor havia chamado o início da imunização de adolescentes de “intempestiva”.

Em uma conduta aberrante e inédita, o Ministério da Saúde orientou a vacinação das crianças apenas mediante a apresentação de prescrição médica. Também convocou uma consulta popular on-line e uma audiência pública para debater a questão. Como se fosse adequado que correntes de opinião na internet e leigos militantes deliberassem sobre um assunto que é de caráter eminentemente técnico. É de se perguntar se, em breve, estaremos a tratar das diferentes percepções sobre o quadrado da hipotenusa, a validade da lei da gravidade ou, como é ao gosto de alguns, até mesmo a esfericidade da Terra. Estamos na época, afinal de contas, em que tudo tem dois lados, em que tudo depende do ponto de vista, em que tudo é versão da história.

A tal audiência pública realizada nesta terça-feira (4/01) fez o Ministério da Saúde se converter em palanque para teses que circulam no baixo meretrício das redes sociais. Por sua vez, parte do jornalismo profissional cometeu o erro crasso de cobrir o evento sem fazer a devida filtragem das múltiplas informações falsas difundidas ali por sedizentes especialistas. Com isso acabou servindo de caixa de ressonância involuntária de um falatório que busca desacreditar as vacinas que vem salvando milhares e milhares de vidas.

O Brasil ainda vivencia um apagão de dados, resultado do ataque hacker que tirou do ar diversos sites e aplicativos importantes do governo. Certos sistemas estão desatualizados desde o final de novembro. Até agora não ocorreu a devida normalização desses serviços, que são fundamentais para o monitoramento da contaminação de Covid. Essa deveria ser a prioridade do Ministério da Saúde nesse momento. Com Queiroga, entretanto, o que temos é apenas o espetáculo grosseiro de audiências públicas inúteis, que servem a propósitos protelatórios, uma vez que o governo ainda não comprou as vacinas para os menores de idade. Em suma: uma pantomima para camuflar a incompetência.

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