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Guilherme Macalossi

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Senado

Jorge Messias e uma derrota para constar nos livros de história

Alcolumbre é apontado como um dos principais responsáveis pela rejeição de Messias.
Alcolumbre é apontado como um dos principais responsáveis pela rejeição de Messias. (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

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Jorge Messias passou para os livros de história. Mas não pelas razões que alguém poderia escolher em favor da própria biografia, e sim por sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) ter sido barrada na porta do plenário do Senado, sendo a primeira negativa para a função em mais de um século. É um feito e tanto.

Jorge Messias até buscou parecer articulado na sabatina do Senado. E nem trato aqui do conhecimento propriamente técnico em direito que possui, mas da postura política e institucional que assumiu tendo como objetivo ser palatável ao zeitgeist político que domina a casa. Enfrentava, afinal, a rejeição combinada e cruzada da bancada bolsonarista (desejosa de impor ao governo uma derrota histórica), e a má vontade de uma parte importante do centrão ligado ao presidente Davi Alcolumbre (este ainda rancoroso pelo fato do nome que apoiava para a função ter sido preterido por Lula).

Ao reprovar Jorge Messias, o Senado fez um risco no chão, demarcando seu terreno e distribuindo recados. O primeiro deles para o STF. Ninguém poderá negar que o resultado de ontem mostra uma disposição para o enfrentamento com a corte

O advogado-geral da União tentou assumir as vestes de um conservador. Pelo menos assim tentou se fazer parecer aos que estavam presentes. Jorge Messias reivindicou a condição de religioso e evangélico, declarando-se um “servo de Deus”. Fez uma contundente condenação do aborto, garantindo que, de sua parte, “não haverá qualquer tipo de ação de ativismo em relação ao tema aborto na minha jurisdição constitucional”. E, por óbvio, tratou de falar do próprio STF. Não só da importância da corte, mas também da necessidade de autocontenção e de um processo decisório menos monocrático e mais colegiado.

Se Messias estava convicto do que dizia, ninguém é capaz de saber. O que se sabe é que a maior parte dos senadores não acreditou em nada, sentenciando sua rejeição por margem acachapante. O esforço de convencimento não surtiu efeito. A apresentação soou farsesca, calculada para agradar, como se Jorge Messias tivesse treinado para dizer e pensar o que a plateia gostaria de ouvir. Nem os 12 bilhões em emendas empenhadas na véspera pelo governo foi capaz de mudar votos.

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Ao reprovar Jorge Messias, o Senado fez um risco no chão, demarcando seu terreno e distribuindo recados. O primeiro deles para o STF. Ninguém poderá negar que o resultado de ontem mostra uma disposição para o enfrentamento com a corte, e que a tendência, para os próximos anos é de uma tencionamento ainda maior. Ainda assim, o grande atingido foi de fato Lula.

O presidente sempre soube do risco inerente de sua indicação, mas talvez tenha subestimado a possibilidade de uma negativa porque seu entorno palaciano é formado por um bando de puxa-sacos e sua articulação política no Congresso por um conjunto de amadores. E deu no que deu.

A derrota não podia vir em pior hora para Lula. Ela simboliza a implosão da base governista no Senado e colide com o naufrágio de popularidade do presidente. Não parece haver clima para mais muita coisa no Congresso. Uma nova indicação ainda nesse mandato é improvável.

Ao que parece, para preencher o STF com uma escolha sua para essa vaga ainda em aberto, Lula terá primeiro de conquistar a reeleição e daí trabalhar no rearranjo das forças políticas que lhe dão sustentação. A atual colapsou na ultima noite e ele passará a ser tratado como um "pato manco".

Mesmo que seja a oposição, capitaneada por Flávio Bolsonaro, a comemorar a rejeição de Jorge Messias, a vitória é de Alcolumbre, que mostrou a Lula e ao próximo presidente (seja lá quem for), quem de fato tem o poder.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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