Papa Francisco faleceu nesta segunda-feira (21).| Foto: Vatican Media
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“Nunca compartilhei a ideologia marxista, porque ela é falsa”, disse certa feita o papa Francisco. O papa respondia, durante uma entrevista para os jornais La Nacíon e Corriere dela Sera, as acusações políticas de que seria um comunista. Os ataques começaram após a publicação do seu Evangelii Gaudium em 2013, em que traçava as linhas de sua aplicação do Evangélico durante o pontificado que recém se iniciara. Nos últimos dias, desde sua morte, a falsificação ideológica sobre sua trajetória e pensamento foi requentada por grupos políticos de extrema-direita, que fazem da fé um subproduto moldado pelo fanatismo.

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No Rio Grande do Sul, uma vereadora de Porto Alegre chegou ao extremo de dizer que não via como “coincidência sua morte no dia seguinte à Páscoa”. Na visão da parlamentar, “há uma limpeza espiritual acontecendo”. Vai ver, em sua cabeça, Francisco tinha a alma contaminada por alguma coisa que só ela conseguia ver. Do que se trata tal “limpeza” a que ela se refere? É um genocídio de almas? O Deus da misericórdia eterna foi transformado e reduzido num agente do ressentimento e da vingança política?

Há uma estupidez obtusa e irascível pairando no mundo dos vivos. Sua forma de atingir o que é transcendente é tentar atacar a reputação e a história de um homem bom que foi servo fiel do Senhor

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Francisco estava longe de ser um capitalista renhido, mas reconhecia a existência de um processo globalizante e, portanto, de uma economia de mercado. Na mesma entrevista em que respondia sobre seus supostos pendores esquerdistas, disse que “a globalização sobre a qual a Igreja pensa não se parece com uma esfera em que cada ponto é equidistante do centro e na qual, portanto, perde-se a particularidade dos povos, e sim um poliedro, com suas diversas facetas, no que cada povo conserva sua própria cultura, língua, religião, identidade”. Justo, belo e moral, além de perfeitamente coerente com sua própria formação e origem.

Jorge Mario Bergoglio nasceu no interior da Argentina, país latino desigual e empobrecido por ditaduras e líderes populistas. Se fez membro de uma tradicional congregação católica, a Companhia de Jesus. Ali desempenhou firme trabalho missionário e social até se tornar arcebispo metropolitano de Buenos Aires. Confundir seu trabalho religioso junto aos Jesuítas com qualquer traço de comunismo, chamando-o de papa comunista, é ignorância ou má-fé deliberada.  Sua visão sociológica do Evangelho, voltada à caridade, à humildade e ao acolhimento dos desamparados não tem nada de marxista. Ao contrário, está no núcleo de conduta do catolicismo desde seu advento com Jesus Cristo.

Há uma estupidez obtusa e irascível pairando no mundo dos vivos. Sua forma de atingir o que é transcendente é tentar atacar a reputação e a história de um homem bom que foi servo fiel do Senhor. O papa Francisco não fez nada além de propagar a Palavra.

Ainda que sua obra e ensinamentos ecoem na eternidade, fato é que ele já não está mais conosco para se defender. Eis que se impõe como dever de todos os católicos e bem-intencionados reivindicar seu legado e preservar sua integrante daqueles que continuam a exercitar seu ódio atirando pedras.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]
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