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Há uma cena emblemática no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, em que o Coringa termina seu serviço de desvirtuamento moral do promotor Harvey Dent. Brutalmente ferido no rosto e lidando com o luto da mulher amada, Dent se permite consumir por outra personalidade, diferente daquela conhecida do homem público sobre o qual repousa a esperança de uma Gotham City mais ordeira.
“Olha o que eu fiz com esta cidade com uns galões de gasolina e algumas balas”, disse o palhaço do crime enquanto lhe entregava uma arma. O filme dirigido por Nolan é, nas suas muitas interpretações possíveis, também uma análise contundente sobre a corrupção do homem.
Daniel Vorcaro nunca foi nada que chegasse a parecer com o Coringa. No filme, o criminoso se intitulava um “agente do caos”. Ou, como diria Alfred, uma daquelas pessoas que “querem ver o mundo pegar fogo”. O banqueiro, ao contrário, nunca desejou o caos. Queria, isto sim, toda a estabilidade que o dinheiro pode comprar. Em vez de agir com balas e galões de gasolina, preferiu charutos e litros de uísque.
Vorcaro, diga-se, não precisou desvirtuar ninguém. Perscrutou a realidade política e institucional do país e fez a leitura de que tudo já estava devidamente desvirtuado. O Coringa teve muito mais trabalho
Não queimou sua parte da grana, apenas distribuiu uma parcela na forma de favores, de bonificações e de festas, de muitas festas. Furou bolhas ideológicas, desconheceu a polarização, encantou sem pudor. Durante um tempo, foi o melhor amigo de todos. Inclusive no Judiciário.
O celular de Vorcaro é uma versão moderna e tecnológica da Caixa de Pandora. Ao conhecer seu conteúdo, nos deparamos com os demônios que agora colonizam o noticiário e colocam em xeque a reputação do senhorio encastelado no poder.
No saldo do estrago de sua passagem pelo poder, ficou a exposição das vísceras do Supremo Tribunal Federal (STF), que hoje se obriga, em situação inédita, a discutir a conduta de seus próprios integrantes. A sessão constrangedora da última semana evidenciou uma fratura de credibilidade autoinfligida pela Corte. E não há nada mais danoso à percepção de integridade de uma instituição do que a ruína que vem de dentro dela. E isso serve também para a Procuradoria-Geral da República.
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Já se sabia de parte do que veio a público. Por exemplo, a charutada londrina da qual participou Paulo Gonet. A imagem do evento, entretanto, materializou a evidente inadequação, ainda mais se for considerada a função que este cidadão ocupa. E o mesmo serve para o vídeo em que Alexandre de Moraes é flagrado embarcando num jatinho de propriedade do banqueiro. Aqui, com o agravante de, por meio do seu gabinete, ter negado o ocorrido. O desmentido a um magistrado da mais alta instância do Judiciário é sempre um agravante.
Gonet, Moraes, Mendonça, Fux, Nunes Marques, dentre outros, representam a institucionalidade. Evidentemente, têm direito à vida privada, mas a dimensão privada de suas relações é condicionada pela envergadura das atribuições que exercem. Quanto maior a função pública, maior a responsabilidade de evitar relações capazes de suscitar dúvidas sobre independência, imparcialidade ou conflito de interesses.
No Brasil, a função institucional passou muitas vezes a ser tratada apenas como fonte de privilégios e facilidades, quando, na verdade, deveria criar noção de responsabilidade. A toga não é uma licença poética, tampouco um escudo para se resguardar da lei que se alega proteger, mas o peso de uma investidura pública que deveria ser resguardada.
Vorcaro, diga-se, não precisou desvirtuar ninguém. Perscrutou a realidade política e institucional do país e fez a leitura de que tudo já estava devidamente desvirtuado. O Coringa teve muito mais trabalho.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Guilherme Macalossi é jornalista, apresentador, redator e radialista. Formado em Direito, é apresentador do programa "Bandeirantes Acontece" e comentarista do "Jornal Gente", na Rádio Bandeirantes. É colunista do jornal "Band Cidade", na TV Bandeirantes. Atua também como fellow do Instituto Monitor da Democracia. Na Gazeta do Povo já foi produtor do programa Imprensa Livre e de mini-documentários especiais. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



