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Bem que eu queria que esta fosse apenas mais uma daquelas discussões ridículas do Brasil sobre regulamentação de profissões. Já até imagino a matéria na televisão: vejam só, agora existe uma nova profissão: barista! Um especialista em café que gerencia todo o processo de preparação da bebida, desde a escolha da moagem ideal dos grãos até os desenhos feitos com café e espuma de leite, conhecidos como latte art. Ele prepara diversas bebidas sob medida, em todas as suas variações, como um simples café coado ou um complexo e espumante capuccino. Mas atenção, interessados em se tornar baristas: a profissão ainda não é regulamentada no Brasil.
Se essa fosse a discussão, estaríamos apenas diante de mais um desses delírios burocráticos brasileiros, de mais um anseio totalitário de uma sociedade que costuma acreditar que, para que alguma coisa exista, essa coisa precisa estar prevista – permitida ou proibida – por alguma lei ou decreto. É o país em que se acredita mais no atestado de óbito do que no defunto pútrido à sua frente.
No caso do debate atual sobre a necessidade de diploma de jornalismo para o exercício da profissão, o propósito da discussão é outro. Aqui vemos uma óbvia demanda por maior controle, por restrição da liberdade de expressão, num processo em que se busca cada vez mais delimitar a opinião e os canais onde se possa falar livremente.
Os jornalistas poderão ter sigilo da fonte, mas apenas aqueles que realmente sejam “jornalistas”, com o devido diploma.
O objetivo deve-nos ser claro: como houve, na semana passada, ampla mobilização contra a quebra do sigilo da fonte, tenta-se agora restringir a prerrogativa do sigilo da fonte por meio da restrição do que se pode definir como “jornalista”. Os jornalistas poderão ter sigilo da fonte, mas apenas aqueles que realmente sejam “jornalistas”, com o devido diploma; assim, limita-se a prerrogativa do sigilo da fonte de maneira indireta.
Mas dada a inegável importância social do jornalismo e da imprensa, essa discussão acaba trazendo consigo outro tema de igual relevância: existe diferença entre um jornalista sem diploma e um com diploma? Deve-se privilegiar um ou outro? As novas mídias reduziram a relevância da mídia tradicional e das credenciais em geral? E para que servem, afinal, o jornalismo e a imprensa? O diploma faz diferença?
Esses temas estão no centro do conflito, que se vê no mundo todo, entre elites tecnocráticas e população. Com a descentralização da produção da informação permitida pelas novas mídias, e levada a cabo por milhões de cidadãos comuns (muitas vezes agindo como jornalistas sem diploma), revelou-se que essas elites e as instituições tradicionais haviam-se corrompido profundamente, tendo abandonado os seus objetivos que justificam a sua existência.
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Uma por uma essas instituições – como academia, ciência, mídia, organismos internacionais, órgãos do governo etc. – demonstraram que estavam menos dedicadas a servir a população, e mais dedicadas a avançar a sua visão (progressista) de mundo.
Já há muito tempo que a imprensa também seguia essa orientação: o seu objetivo não era descrever a realidade para informar o cidadão, mas sim transformar a realidade por meio da manipulação do cidadão. O objetivo era a militância, o ativismo, e não o serviço de informação aos seus consumidores.
Com as novas mídias, no entanto, essa agenda ativista encontro resistência e oposição; e assim o ecossistema de informação fragmentou-se em múltiplas agendas. Se o jornalismo havia-se tornado militância, ao menos agora haveria militância e resistência para todos os lados, em todo o espectro político.
É precisamente isso o que tem provocado a histeria coletiva das elites escolarizadas do Ocidente, e é por isso que elas têm avançado com tanto vigor sobre a nossa liberdade de expressão. Como essa última discussão sobre a exigência de diploma comprova, qualquer medida poderá ser adotada, desde que os permita controlar esse ecossistema, eliminar qualquer oposição e fazer o tempo voltar à era em que detinham a hegemonia inconteste da opinião.

Gustavo Maultasch é diplomata e autor do livro "Contra toda Censura: Pequeno Tratado sobre a Liberdade de Expressão", lançado pela Avis Rara. É formado em direito pela UERJ, mestre em diplomacia pelo Instituto Rio Branco e doutor em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago. Foi Network Fellow do Centro de Ética de Harvard (2013-2014). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



