Publicidade
Gustavo Maultasch

Gustavo Maultasch

Copa

O brio trágico de Neymar

Neymar foi o único que se comportou como quem sabia onde estava; brigou, provocou, devolveu, fez deboche. O único jogar com brio e dignidade, e que demonstrou o devido respeito diante da situação em que se encontrava. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Na entropia espiritual em que vive o Brasil, em que a esculhambação geral tem contaminado tudo, inclusive a nossa capacidade de julgar o comportamento correto em cada situação, parece que muitos brasileiros simplesmente não sabem mais adjudicar o que é certo e errado nem mesmo dentro do campo de futebol.

Jogo decisivo em Copa do Mundo, com o uniforme no corpo representando o seu país; é para jogar com passividade, apatia e displicência, ou é para caçar e brigar? É para tratar o entorno, os adversários, o estádio, a bola, como figurantes tratam a cidade cenográfica, flanando feito pedestres? Ou é para jogar como um leão desesperado que precisa alimentar-se para prolongar a sobrevivência?

Comportamentos devem-se julgar de acordo com a sua adequação à situação; tudo tem a sua hora e o seu lugar. Bom-mocismo é para o coquetel e o happening, talvez o sarau na cobertura de algum bacana da MPB. Futebol é para jogar com garra, raça, agressividade.

O que nos indigna é ver um time vestir o uniforme do Brasil, simbolizar a nossa pátria, e jogar com essa anedonia, com essa falta de vontade, com a passividade de um vendedor de beira de estrada, ou de um desses herdeiros cineastas cariocas às 11h da manhã de segunda

Nem Haaland acreditou que seria tão fácil. Recebeu a bola, parou; será que passo? Tem alguém em posição melhor? Parece que não. Tem três marcadores na minha frente; mas ninguém está vindo me marcar; estranho; será que o jogo está parado? Não, não sei, mas estão esperando alguma coisa. Deixa eu adiantar e preparar para o chute então.

Adiantou, preparou para o chute; e enquanto isso todos os marcadores parados, observando, apenas cercando de longe, fazendo a chamada “marcação por bluetooth”. Haaland chutou e gol, o seu segundo gol na partida, que talvez tenha sido o gol mais fácil e desimpedido de toda a sua carreira.

O que chocou na derrota brasileira não é a derrota em si; pelas chances desperdiçadas, poderia até ter vencido. E poderia perder também, porque as chances nem sempre se convertem. Mas o que nos indigna é ver um time vestir o uniforme do Brasil, simbolizar a nossa pátria, e jogar com essa anedonia, com essa falta de vontade, com a passividade de um vendedor de beira de estrada, ou de um desses herdeiros cineastas cariocas às 11h da manhã de segunda.

Imagine um leão caçando do jeito que o Brasil jogou futebol, sem olhar de caçador, sem bote, sem mordida. Aliás, viram o olhar de Neymar mirando o goleiro na hora de bater o pênalti?

Neymar foi o único que se comportou como quem sabia onde estava; brigou, provocou, devolveu, fez deboche. O único jogar com brio e dignidade, e que demonstrou o devido respeito diante da situação em que se encontrava.

O resto parecia correr com a urgência de quem chegaria atrasado ao cinema ou, no máximo, como quem quer chegar ao portão antes de o embarque se encerrar. E ainda somos obrigados a ouvir pessoas em situação de imprensa dizer que Neymar manchou sua participação por causa das supostas confusões que arrumou em campo. E desde quando fazer confusão com adversário é proibido em futebol, ainda mais no futebol latino-americano? Que inversão total da realidade é essa?

Veja-se que a afetação europeia não contamina apenas técnicos e comentaristas de futebol, mas também comentadores da moral e da sociabilidade. Não conseguem enxergar a dignidade da audácia e da ousadia de Neymar. E não é nem uma afetação europeia, porque quando foi preciso, a França jogou o jogo da malícia contra o Paraguai. Ou seja: a Europa sabe que, por vezes, é preciso jogar com menos técnica e mais desplante. É só o escolarizado urbano brasileiro, em sua afetação estética provinciana, que acredita que futebol se joga “de terno”, com bom comportamento, hidratante e de protetor solar.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.