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Andy Warhol. “Campbell’s Soup Cans”, 1962.
Andy Warhol. “Campbell’s Soup Cans”, 1962.| Foto:

Ler A guerra contra os fracos, de Edwin Black, é tomar conhecimento de coisas terríveis. Recomendo para maiores. O livro conta, em suas novecentas páginas, a história da eugenia no século XX, e dos subsequentes massacres que ela cientificamente justificou.

Tão assustador quanto os fatos é constatar que a origem do que viemos a conhecer como “ciência nazista” está nos laboratórios e nas agências de publicidade americanas.

A ideia de que seres humanos poderiam – e deveriam – ser melhorados, a despeito de quaisquer considerações éticas ou pormenores filosóficos, foi vendida e defendida por intelectuais e jornalistas, políticos e publicitários no mundo liberal.

Naturalmente, os procedimentos à base de tentativa-e-erro não faziam de cobaias os filhos ou parentes dos interessados, mas toda aquela gente que socialmente não interessava a ninguém: doentes, mendigos, negros, ciganos, prisioneiros, órfãos, deficientes etc. O horror alemão, anos depois, corresponderia a expectativas civilizadas.

Tais preocupações parecem estar voltando à moda. Pesquisadores japoneses estão prestes a descobrir uma técnica capaz de conter o nascimento de mulheres, por meio de manipulação bioquímica. Na Dinamarca, exames de pré-natal servem para extirpar a Síndrome de Down da maneira mais prática possível: impedindo o nascimento de quem tem a síndrome.

Em laboratórios ocidentais, famílias endinheiradas escolhem a compleição física, o coeficiente intelectual e, em breve, a filiação partidária dos herdeiros. Da projeção de nascimento à eutanásia, do controle de natalidade ao aborto, o cardápio é variado e tem preço. Pagou, nasceu, levou.

De fato, já não precisamos mexer com gente pobre e marginalizada; melhor assim. Basta que, com o tempo, deixem de nascer. Talvez, alguns se perguntem: o que há de mal nisso? Melhoramentos genéticos sempre foram desejados. De certa forma, o tratamento e a cura de doenças são versões de uma mesma consequência lógica.

A discussão é complexa e comprida, e talvez não tenha mesmo solução. Em tese, tais expectativas são defensáveis, porque muito do que há de pior é defensável. São preferências, são decisões, são escolhas. Que tipo de vida queremos levar? Que tipo de humanidade queremos? Não há respostas prontas ou fáceis.

Num mundo em que tudo se compra e se encomenda, em que o desempenho vale mais que o próprio ser, a vida humana se transforma num projeto como qualquer outro.

De minha parte, prefiro que nossas artes e ciências sirvam à cura de doenças e à correção de imperfeições debilitantes, quando for o caso. Nada que signifique cozinhar a natureza humana, antes mesmo do nascimento, ao gosto do freguês. Existe algo de bonito – e, a meu ver, necessário – em aceitar o que nos dá a Providência (aos que têm fé) ou o Acaso (aos que não têm).

Porque aceitar as diferenças e as limitações, amar o feio e acolher o fraco, revela mais sobre nosso impulso à perfeição do que a busca ensandecida pela perfeição em si. Existem limites que seria preferível não transpor. Não é nada improvável que o culto aos perfeitos se transforme num desprezo aos imperfeitos. A história serve de exemplo.

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