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Agora que o Carnaval de mentira já passou (o Carnaval de verdade continua; em Outubro tem outro desfile), pretendo fazer aqui duas ou três considerações irrelevantes. Eu, se fosse o leitor, iria ler o blog do Francisco Razzo ou do Rodrigo Constantino.

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Um primo do meu primo confidenciou-me que certa Escola de Samba fez críticas mordazes ao presidente, à política, às instituições, ao golpe, ao Papa. A mesma Agremiação que, a propósito, matou atropelada uma pessoa e feriu outras vinte, no ano passado; deveria ter caído para a Série B da folia mas ficou na base da canetada, mais ou menos como o Fluminense costuma fazer de vez em quando.

Naturalmente, as críticas da Escola provocaram críticas à Escola: “Que moral tem essa Escola – que moral teria qualquer Escola – para criticar qualquer coisa, dada a origem nem sempre (quase nunca) virtuosa do financiamento?” “Criticar Michel Temer é fácil, é jogar pra torcida; quero ver criticar o Lula.”

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Pois bem: meus aplausos à Escola. Que critique, que reclame, que sambe na cara do governo. Governos servem para isso: ser criticados. Até segunda ordem, levar demasiado a sério um governo é sinal de que os governados não se levam demasiado a sério. No entanto, essa crítica política, sambódromo nu em pelo, legitima toda e qualquer crítica que porventura vier a ser feita em futuros Carnavais.

Não se pode – e isso vale para a direita, para a esquerda, para o papai, para a mamãe – escolher a quem criticar ou, mais precisamente, escolher quem merece ou não ser criticado. Críticas ao governo Temer são bem-vindas? São bem-vindas. Espero que a recíproca seja sempre verdadeira.

A recíproca nunca é verdadeira. A fala do carnavalesco Jack Vasconcelos, da Paraíso do Tuiuti, vale como uma declaração de princípios. Minto: vale como uma declaração de falta de princípios (grifos meus): “Eu acho que é positivo a gente poder se posicionar. Muito disso tem relação com a troca de governo. Hoje somos oposição e antes éramos parceiros do poder e não podíamos arranhar a relação. Enredo mais críticos não eram incentivados. Agora com uma guerra declarada tem essa abertura maior. Os dirigentes nos deixam livres, e temos mais é que fazer.”

Jack Vasconcelos e Escola respectiva podem criticar o governo de Michel Temer. Só não podem acreditar muito a sério que são mais decentes do que ele. Há mais vampiros nessa escuridão.

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Mas o Carnaval não é só “atropelamento e fuga”, como cantaria o saudoso Skowa e sua Máfia. Existem mais problemas; aliás: a “problematização”, palavrinha hedionda que veio pra ficar. Encasquetaram com os seios da Bruna Marquezine. Ela tentou fazer homenagem ao namorado Neymar e terminou homenageando Isaac Newton e suas descobertas gravitacionais.

De minha parte, nada contra a textura, o tamanho, o design dos seios da Bruna Marquezine. As preferências são tantas e os padrões de beleza foram inventados por mulheres e por gays. Sinto muito, mas é isso: homens – heterossexuais; mentalmente saudáveis – apreciam a beleza feminina com muito mais magnanimidade do que se pensa.

Dito isso, há quem veja nas “críticas” e “avaliações” às mamas de Marquezine uma prova inexorável da maldade humana, da objetificação da mulher, da matematização da beleza. Tais mamas nem deveriam ser assunto, mas há senões.

Bruna Marquezine não é exatamente atriz das mais talentosas. Ela, até hoje, muito mais vendeu – e viveu – de sua imagem e de suas idas e vindas amorosas que qualquer outra coisa. “Nos dias de hoje”, como dizem os chatos, o artista de tevê vende, aluga, negocia sua imagem em festas, casamentos, entrevistas, Carnaval. Ela se vestiu como quis, mostrou-se porque quis, exibiu-se para quem a quisesse ver e fotografar.

O julgamento estético existe, muitas vezes é cruel, mas é esse mesmo julgamento que faz com que Marquezine seja notada, admirada, desejada e, para nosso tempo, famosa. Meu corpo, por exemplo, não é coisa que se veja impunemente. Minha cara não é convidativa. Por isso me cubro, me escondo das gentes, e só tem coragem de me ver como vim ao mundo minha abnegada mulher, que calhou de me amar.

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Por isso, escrevo; porque não sou Bruna Marquezine e nada tenho a mostrar. Ela está na chuva e quem está na chuva, como diria o presidente corintiano Vicente Matheus, é pra se queimar.

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Beija-Flor, campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, com discurso também muito crítico e severo contra a corrupção. Seu patrono e presidente de honra, Anísio Abrahão, condenado a 48 anos de prisão, por formação de quadrilha e corrupção ativa. O problema do Brasil não é político, nem jurídico, nem mesmo moral; é clínico. Internem o Brasil antes que ele corte os pulsos.

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“Que punição essa escola recebeu desde o q ocorreu no dia 26/02/17? O que foi feito? Nada vezes nada! Receberem milhões esse ano pra por um lindo e rico carnaval no maior espetáculo da terra enquanto todos q eles fizeram mal buscam uma forma de se reerguer na vida após 1 ano do ocorrido. Merece? Mereceu? Nunca! Não são dignos de nenhum aplauso, nenhum!”, questionou Raphaella Pontes, filha da jornalista Elizabeth Ferreira Joffe, morta no ano passado, atropelada pelo desgovernado carro alegórico da Escola que neste ano resolveu criticar o desgoverno político. Alvos Móveis.

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